Anvisa proíbe a caneta emagrecedora T36, vinda do Paraguai
Medicamento à base de tirzepatida não tem registro no país. Estudo da Unicamp achou variação de até 60% na dose das versões paraguaias — o risco por trás da economia
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- A Anvisa proibiu nesta quarta (16) a importação, venda, propaganda e uso do T36, uma caneta emagrecedora à base de tirzepatida fabricada no Paraguai.
- O produto não tem registro sanitário no Brasil — sua segurança e eficácia nunca foram avaliadas pela agência.
- Dias antes, a Anvisa já havia proibido um site (gopharma.shop) que vendia canetas sem registro, algumas alegando conter retatrutida, substância sem registro em nenhum país.
- O risco não é teórico: um estudo da Unicamp encontrou variação de 20% a 60% na concentração do princípio ativo em amostras paraguaias.
- Por que isso importa: a alta procura por emagrecedores alimenta um mercado paralelo em que o consumidor não sabe o que está injetando
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu, nesta quarta-feira (16), a importação, o armazenamento, a distribuição, a comercialização, a propaganda e o uso do T36, uma caneta emagrecedora fabricada no Paraguai. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União. O produto pertence à classe dos agonistas do receptor GLP-1 — os medicamentos popularmente conhecidos como "canetas emagrecedoras" — e, segundo a agência, não possui registro sanitário no Brasil, o que significa que sua segurança e eficácia nunca foram avaliadas por aqui.
Não é um caso isolado
A proibição do T36 se soma a uma ofensiva recente da Anvisa contra esse mercado. Poucos dias antes, em 8 de setembro, a agência já havia proibido, pela Resolução 3.480/2026, a comercialização de canetas de GLP-1 pelo site gopharma.shop. Segundo a Anvisa, a página anunciava medicamentos sem registro à base de tirzepatida — e alguns que alegavam conter retatrutida, uma substância que ainda não tem registro em nenhum país do mundo.
Entre os produtos que já haviam sido alvo de determinações anteriores estão o T.G. 15 mg, o Tirzec 15 mg e o Lipoless MD 15 mg. A agência reforçou uma regra que insiste em ser ignorada: sites, em geral, não podem vender medicamentos para qualquer indicação. No Brasil, a venda é privativa de farmácias e drogarias regularizadas, seja nas lojas físicas ou em seus canais digitais oficiais.
Por que existem canetas "paraguaias" — e por que elas são mais baratas
O fenômeno tem uma explicação jurídica. A tirzepatida é o princípio ativo do Mounjaro, da farmacêutica Eli Lilly, que detém a patente do medicamento no Brasil. No Paraguai, porém, essa patente não vale — pelo princípio da territorialidade, uma patente só protege nos países onde foi concedida. Por isso, laboratórios paraguaios produzem legalmente suas próprias versões da substância, vendidas por valores que chegam a um quinto do preço do produto oficial brasileiro.
É essa diferença de preço que move o mercado paralelo. Não é difícil encontrar relatos de quem atravessa a fronteira para comprar as canetas mais baratas. O problema começa quando esses produtos entram no Brasil sem registro: aí deixam de ser um "genérico" estrangeiro e passam a ser, para a lei brasileira, medicamentos ilegais.
O risco real: você não sabe o que está injetando
Aqui está o ponto que a economia esconde. Mesmo quando a caneta paraguaia de fato contém tirzepatida, isso não garante que ela seja segura. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), feito com amostras paraguaias, encontrou variação de 20% a 60% na concentração do princípio ativo — ou seja, o usuário pode estar recebendo bem menos, ou bem mais, do que imagina.
A tirzepatida é uma molécula proteica complexa; falhas de fabricação podem gerar impurezas e reações imunológicas. Sem registro, não há como garantir pureza, dose ou conservação.
A Eli Lilly, que classifica as versões paraguaias como falsificações, resume o argumento: identificar um componente não diz nada sobre como o medicamento foi produzido, sobre sua pureza ou sobre como o organismo reage a ele. Some-se a isso um problema de logística: mesmo uma caneta autêntica perde suas garantias no trajeto — sem refrigeração adequada, sem rastreabilidade e sem ninguém responsável caso algo dê errado.
O que a proibição realmente diz
A enxurrada de proibições da Anvisa não é implicância com quem quer emagrecer — é o retrato de um descompasso. De um lado, uma demanda gigantesca e legítima por tratamentos contra a obesidade; de outro, um mercado clandestino que surfa nessa demanda oferecendo o que parece ser o mesmo produto por uma fração do preço. No meio, o consumidor, que troca a segurança de um medicamento avaliado pela aposta de uma caneta cuja dose pode variar 60% de um frasco para outro. Existe caminho legal e mais barato — a Anvisa e os especialistas lembram que há versões nacionais regularizadas de outras substâncias da mesma família, com prescrição e acompanhamento. A pergunta que fica é se a pressa de emagrecer compensa injetar às cegas.
Este texto trata de medicamentos e não substitui orientação médica. Procure um profissional de saúde antes de iniciar qualquer tratamento. Versão em áudio disponível no topo do post.