Poder & Bastidores

Quem é o perito de Vilhena que virou peça central da crise no STF

João Cláudio Nabas, chefe de núcleo da PF em Vilhena, é apontado como fonte do vazamento sobre Moraes e Toffoli. Seu histórico técnico e suas simpatias públicas ajudam a entendê-lo

Quem é o perito de Vilhena que virou peça central da crise no STF
📷 Reprodução STF | Revista Fórum
📋 Em resumo
  • João Cláudio Nabas, perito criminal federal lotado em Vilhena (RO), é apontado como a origem do vazamento de dados sigilosos que ajudou a detonar a crise no STF.
  • Ele é um especialista respeitado em crimes financeiros — sua dissertação de mestrado tratou justamente de fraudes em fundos de previdência, tema do caso Master.
  • Nas redes, até 2023, compartilhou publicações de Sérgio Moro e do deputado Marcel Van Hattem, com apoio a bandeiras da Lava Jato e críticas ao STF.
  • Nesta terça (15), o próprio Alexandre de Moraes usou o caso Nabas em sua defesa, chamando o episódio de "farsa montada".
  • Por que isso importa: um servidor de Rondônia tornou-se figura central de uma disputa nacional — e seu caso reacende o debate sobre vazamentos seletivos
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Uma das peças centrais da crise que abalou o Supremo Tribunal Federal (STF) trabalha a mais de 2 mil quilômetros de Brasília, numa sala de perícia em Vilhena, no sul de Rondônia. É o perito criminal federal João Cláudio Nabas, apontado — em depoimento de uma delegada da Polícia Federal, com sigilo levantado pelo próprio STF — como a origem do vazamento dos dados sigilosos que ligaram o ministro Alexandre de Moraes ao banqueiro Daniel Vorcaro. Entender quem é esse personagem, e o que se sabe sobre ele, ajuda a compreender o caso que dominou a Corte.

O especialista que pegou o caso certo

Nabas não é um técnico qualquer, e isso importa. Perito criminal federal há cerca de 20 anos, ele chefia o Núcleo Técnico-Científico (NUTEC) da PF em Vilhena desde 2009. É formado em Engenharia Civil e mestre em Economia, com concentração em Finanças, pela Universidade de Brasília. Dentro da corporação, tem reputação de especialista em crimes do mercado financeiro — dá cursos e palestras sobre o tema para a própria PF.

Há um detalhe que explica por que ele foi chamado para o caso Master. Sua dissertação de mestrado, concluída em 2023, analisou fraudes financeiras em fundos de investimento ligados a regimes de previdência (os RPPS), com foco em Fundos de Investimento em Participações — exatamente o tipo de estrutura que aparece nas investigações do Banco Master. Ou seja: dentro da PF, ele era um dos nomes que mais entendiam daquilo. Foi por isso que passou a integrar, remotamente a partir de Rondônia, a equipe que analisou os dados do celular apreendido de Vorcaro.

O que os autos dizem que ele fez

É a partir dessa função que nasce a acusação. Segundo o depoimento da delegada Janaina Palazzo, que preside o inquérito da Operação Compliance Zero, Nabas compilou em dois arquivos PDF — sem cabeçalho nem identificação de origem — dados extraídos do celular de Vorcaro sobre os ministros Moraes e Dias Toffoli, e insistiu com colegas para que o material fosse repassado à imprensa, sugerindo a jornalista Malu Gaspar, do O Globo, com quem dizia ter contato "há anos". A delegada afirma ter recusado. Dias depois, os dados saíram publicados.

Em fase posterior da investigação, a PF passou a sustentar que Nabas "de fato criou os documentos" e "direcionou seus esforços" para buscar elementos contra os ministros. Ele foi afastado da corporação e virou alvo de apuração por violação de sigilo funcional. Vale a ressalva de sempre: ele é investigado, não condenado, e ainda terá direito a apresentar sua defesa.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

As simpatias que o perfil revela

Aqui é preciso ter critério, e vamos tê-lo. Uma reportagem da Revista Fórum garimpou o perfil de Nabas na rede X (antigo Twitter) e encontrou um histórico de manifestações políticas, com a última publicação em 2023. Nele, o perito compartilhou publicações do senador Sérgio Moro (ex-juiz da Lava Jato) — incluindo, em agosto de 2021, um post em defesa da prisão após condenação em segunda instância — e do deputado Marcel Van Hattem (Novo), voz da direita. Segundo a apuração, chegou a apoiar a candidatura de Van Hattem à presidência da Câmara e reproduziu uma publicação do deputado que atacava ex-ministros do STF por "livrar Lula das condenações de Moro".

Esse histórico traça um perfil de simpatia pública às bandeiras do lavajatismo e de crítica ao Supremo. É um fato, e é legítimo registrá-lo — ajuda a entender o personagem. Mas é preciso ser rigoroso sobre o que ele não prova.

A linha entre o fato e a ilação

O histórico de opinião de um servidor não é, por si, prova de que ele agiu por motivação político-partidária. E há um dado que os dois lados da disputa precisam respeitar: até agora, a própria Polícia Federal não atribui motivação político-partidária à conduta investigada — trata o caso como violação de sigilo, não como ação política orquestrada.

Setores da imprensa foram além e especularam se haveria alguém "por trás" do perito — o editor da Revista Fórum, Renato Rovai, chegou a levantar a hipótese de uma conexão com o campo de Moro, mas ele próprio ressalvou não haver como "cravar". Este texto não dá esse passo, porque os fatos não o sustentam. O que se pode afirmar é o que está documentado: o histórico de simpatias públicas de Nabas, e a conduta que os autos lhe atribuem. Ligar uma coisa à outra como causa e efeito é hipótese, não notícia.

Há, contudo, uma observação de método que se sustenta sem entrar em conspiração. O modo como os dados teriam sido tratados — extraídos de forma seletiva, compilados em documentos sem contexto e sem cadeia de custódia, e entregues prontos para a manchete — é precisamente a crítica que se consagrou contra os excessos da Operação Lava Jato. Foi essa, aliás, a censura que o ministro Gilmar Mendes fez em plenário, ao falar em "vazamentos seletivos" e "publicidade opressiva". O caso Nabas, se confirmado o que descrevem os autos, é menos sobre um complô e mais sobre a sobrevivência de um método.

Quando o perito de Vilhena virou argumento no STF

O alcance do caso ficou claro nesta terça-feira (15). Ao apresentar sua defesa no julgamento que decide se será investigado, Alexandre de Moraes recorreu justamente ao episódio do perito. O ministro classificou as mensagens atribuídas a ele como uma "farsa montada" e uma "vingança dos aliados daqueles que tentaram acabar com a Democracia e foram condenados", em alusão ao grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Moraes sustentou ainda que o relator do caso, André Mendonça, tinha "conhecimento formal" da citação de seu nome desde maio — quando autorizou a operação contra Nabas — e, mesmo assim, não levou o assunto ao plenário, preferindo, na acusação do ministro, "aguardar o momento político-eleitoral mais visível". Em sua manifestação, Moraes afirmou dispor de testemunhas e admitiu a possibilidade de que delegados fossem ouvidos pelo plenário para corroborar sua versão. Assim, um perito lotado em Vilhena tornou-se, ao vivo, argumento na boca de um ministro do STF em sua própria defesa.

O que o caso Nabas deixa em aberto

O personagem de Rondônia condensa, num só nome, os fios da crise: a prova técnica real, o vazamento seletivo, a suspeita de instrumentalização política, o método que remete à Lava Jato. Cada um desses fios é fato ou tese em disputa — e nenhum, por ora, está encerrado. Nabas terá de responder na esfera penal e administrativa, mas seu destino também dependerá de como o país resolver a queda de braço maior em que ele virou peça.

Resta uma pergunta que o caso devolve, e que vale para além dele: se os dados que Nabas manuseou eram verdadeiros, o problema estaria no conteúdo ou no método? É a mesma pergunta que o STF, dividido, tentou responder nesta terça e não conseguiu. O perito de Vilhena, sem talvez imaginar, colocou o dedo exatamente na ferida que a Justiça brasileira ainda não fechou desde a Lava Jato: a de que a verdade obtida por atalhos pode cobrar, lá na frente, um preço alto — de quem a divulga e da própria causa que diz servir.

Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #BancoMaster #STF #PoliciaFederal #vilhena