Análise & Opinião

E o STF, hein? Como o caso Master alimentou a derrota de Lula no 1º turno

Enquanto ministros do STF foram citados em contratos milionários e mensagens ligadas ao banqueiro preso Daniel Vorcaro, o governo Lula optou pelo silêncio — e a direita venceu nas urnas abraçando a bandeira da reação

E o STF, hein? Como o caso Master alimentou a derrota de Lula no 1º turno
📷 Rosinei Coutinho/STF
📋 Em resumo ▾
  • O escândalo do Banco Master, cujo controlador Daniel Vorcaro foi preso ao tentar deixar o país, colocou ao menos seis ministros do STF no centro de contratos, mensagens e encontros revelados por investigações da Polícia Federal
  • Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e André Mendonça aparecem de forma mais direta no material; todos negam irregularidades
  • Nenhuma das apurações, até o momento, comprova recebimento de propina ou venda de decisão judicial — mas a opacidade do caso alimentou a percepção pública de impunidade
  • Para o Painel Político, a omissão do governo Lula diante da crise foi um erro estratégico que ajudou a inflar a onda bolsonarista no primeiro turno
  • Por que isso importa: a forma como o país lidar com essa crise vai definir não só o segundo turno, mas a credibilidade do Judiciário nos próximos anos
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O escândalo em torno do Banco Master e de seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro — preso ao tentar deixar o país em um jato particular com destino a Malta, segundo registros do caso — se transformou, nas últimas semanas, na crise mais séria enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal em anos. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, contratos milionários e relatos de encontros colocaram ao menos seis ministros da Corte no centro das suspeitas. Para o Painel Político, essa crise — somada ao silêncio do governo Lula diante dela — ajuda a explicar por que o presidente chegou ao segundo turno em posição mais frágil do que o esperado.

O que cada ministro tem a explicar

Dias Toffoli, que chegou a ser o relator da investigação sobre o Banco Master no STF antes de a relatoria passar para André Mendonça, é citado em documentos da PF por ligações telefônicas e negócios familiares envolvendo a venda do Tayayá Aqua Resort, no Paraná, a um fundo controlado pelo Master, segundo a Revista Fórum. Toffoli nega irregularidade.

Alexandre de Moraes é apontado, nas mensagens de Vorcaro reveladas até agora, como o ministro com a ligação mais direta ao banqueiro. O escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, firmou com o Master um contrato de prestação de serviços estimado entre R$ 108 milhões e R$ 131 milhões, pago em parcelas mensais ao longo de três anos, segundo reportagens baseadas no relatório da PF. O escritório afirma que Moraes apenas analisou o contrato a pedido do setor de compliance, para verificar impedimentos legais, e que o ministro "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master" — segundo nota divulgada pelo próprio escritório, no que a reportagem da Agência Pública classificou como "verdade", mas que não resolve a suspeita central do caso: a de que o contrato teria funcionado como forma de aproximação do banqueiro com o ministro.

Kassio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, é citado por dois episódios distintos. O primeiro: seu filho, o advogado Kevin Marques, recebeu R$ 281,6 mil de uma consultoria que também prestava serviços ao Master, segundo levantamento publicado pela Revista Fórum e pelo Times Brasil — valor que, em outras reportagens sobre o mesmo material, aparece descrito de forma diferente. O segundo: reportagem da revista Piauí, cita o ministro entre os frequentadores de festas realizadas em um apartamento de Vorcaro em São Paulo, com menção a uma "garota de programa" enviada ao local. A assessoria de Nunes Marques negou publicamente qualquer contato com Vorcaro ou pedido a terceiros em seu nome.

André Mendonça, atual relator do caso Master no STF, confirmou ter recebido Vorcaro para uma reunião de 20 a 30 minutos em março de 2025, no Instituto Iter — organização que ele próprio fundou e da qual deixou a sociedade em setembro deste ano. O instituto tinha um contrato com o banco, estruturado como mútuo conversível, que previa valores de até R$ 5,9 milhões, segundo a Transmissão Política. Mendonça nega que sua atuação no Supremo tenha favorecido o banqueiro.

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Até a conclusão das reportagens consultadas, nenhum elemento divulgado permite afirmar que algum desses ministros recebeu propina ou vendeu decisão judicial — mas a sequência de contratos, encontros e mensagens alimentou, nas ruas e nas redes, a sensação de que a cúpula do Judiciário está blindada.

Por que isso pesou contra Lula

Essa é a parte que é leitura do Painel Político: ao longo da crise, o governo Lula adotou uma postura visivelmente reativa. Não houve articulação pública e consistente junto ao Congresso para cobrar explicações, nem sinalização de apoio a mecanismos de responsabilização — como um eventual afastamento, caso as investigações avançassem. Na nossa avaliação, essa omissão deixou um vácuo que a oposição ocupou com folga: tornou-se o principal porta-voz da indignação popular com a sensação de impunidade na cúpula do Judiciário.

Essa leitura tem respaldo em dois sinais eleitorais concretos. Primeiro, o resultado do primeiro turno: segundo o TSE, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Lula por 47,03% a 45,16% — um resultado que análises publicadas descreveram como fruto de uma "avalanche" bolsonarista não prevista pelas pesquisas. Segundo, a eleição para o Senado, em que o PL ampliou fortemente sua bancada, elegendo 19 dos 54 novos senadores — resultado lido, no mercado e na imprensa, como reflexo de uma onda de direita mais ampla que a disputa presidencial isoladamente.

Soma-se a isso um pano de fundo que já vinha corroendo a relação do governo com parte do eleitorado: o tratamento duro dado pelo Judiciário aos manifestantes do 8 de janeiro de 2023, de um lado, e uma economia marcada por juros altos que, segundo críticos do governo, favoreceu o setor financeiro — o que alimentou o rótulo, usado há anos por opositores, de que Lula seria "amigo dos banqueiros". A combinação, no nosso entendimento, de um Judiciário sob suspeita e um governo que não reagiu criou o ambiente ideal para a narrativa bolsonarista de "reação" vingar nas urnas.

O racha dentro do próprio STF também não ajudou a conter a crise. Depois das primeiras revelações, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, chegou a prometer anunciar "medidas cabíveis e necessárias" — mas, segundo a análise publicada pela Agência Pública, não há rito claro para o plenário julgar um dos próprios onze integrantes, o que deixou a sensação de impasse institucional exatamente no momento em que a opinião pública mais cobrava uma resposta.

O julgamento que não terminou

Em meio a essa crise, o próprio Supremo tentou — e, até agora, não conseguiu — decidir o que fazer consigo mesmo. Em sessão realizada em 15 de setembro, o plenário discutiu se deveria abrir investigação formal contra Alexandre de Moraes a partir dos elementos revelados pela Polícia Federal, e como tratar a situação de André Mendonça, relator do próprio caso Master. O placar provisório ficou em 4 votos a 3 pela análise separada dos dois casos — com Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes defendendo o julgamento conjunto. Antes que a Corte chegasse a uma definição, porém, o ministro Flávio Dino pediu vista, suspendendo o julgamento por prazo regimental de até 90 dias — o que, segundo análise publicada pelo Observatório do Jornalismo Júnior (USP), pode empurrar o desfecho da investigação para 2027.

Diante da falta de desfecho, parte da opinião pública — e de comentaristas que acompanham o caso — passou a interpretar a sucessão de adiamentos como sinal de que a Corte estaria construindo, nos bastidores, uma saída para proteger coletivamente os ministros citados. Essa leitura é, por ora, interpretação, não fato comprovado: não há, nas fontes consultadas, elemento que demonstre a existência formal de um acordo entre os ministros. Mas a percepção, verdadeira ou não, ganhou corpo justamente pela ausência de uma posição clara da Corte.

Essa insatisfação se refletiu de forma direta na campanha ao Senado. Segundo levantamento do jornal Estadão, replicado pelo Times Brasil, 31 dos 35 senadores eleitos que responderam à pesquisa — ou 88,6% — disseram apoiar, total ou parcialmente, a abertura de processos de impeachment contra ministros do STF. A Gazeta do Povo chegou a descrever o tema como uma pauta que "dominou a campanha pelas 54 cadeiras da Casa Alta em disputa", com Alexandre de Moraes como alvo do maior número de pedidos.

Não foi uma bandeira marginal: o impeachment de ministros do STF se tornou, segundo levantamentos da própria imprensa, a proposta mais repetida entre os senadores que chegam ao Congresso em 2027.

Com uma bancada pró-impeachment estimada em mais de 45 dos 81 senadores a partir de fevereiro — somando eleitos e remanescentes —, e com o julgamento sobre a própria investigação de Moraes ainda em aberto, é razoável prever, na nossa leitura, que 2027 trará um confronto institucional de proporções raras entre o Legislativo e o STF — independentemente de quem vença o segundo turno em 25 de outubro. Lula ou Flávio Bolsonaro herdarão um Congresso mais disposto do que nunca a testar os limites do artigo 52 da Constituição contra a Corte, e um Supremo que ainda não decidiu como vai lidar com as próprias rachaduras.

O caso Master segue sob investigação, com Paulo Gonet à frente da Procuradoria-Geral da República e André Mendonça como relator no STF. Enquanto isso não avança, cabe a Lula decidir se vai continuar tratando a crise como um problema que passa sozinho — ou se vai, enfim, dimensionar o tamanho do estrago que ela já causou à sua candidatura, a três semanas do segundo turno.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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