Perito da PF lotado em Vilhena é apontado como fonte de vazamento sobre Moraes
Segundo depoimento da delegada que preside o caso Master, João Cláudio Nabas, chefe de núcleo da PF em Vilhena, compilou dados de Moraes e Toffoli e sugeriu repassá-los à imprensa
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- Um perito criminal da Polícia Federal lotado em Vilhena (RO), João Cláudio Nabas, é apontado como a origem do vazamento de dados sigilosos do caso Banco Master à imprensa.
- A acusação parte da própria delegada que preside a investigação, Janaina Palazzo, em depoimento cujo sigilo foi levantado pelo STF.
- Nabas teria compilado, em dois PDFs sem identificação, dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro sobre os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, e sugerido repassá-los à jornalista Malu Gaspar.
- Após a publicação, o perito foi retirado da investigação e virou alvo da própria PF.
- Por que isso importa: o episódio dá nome e origem ao vazamento que está no centro da crise entre ministros do STF — e o personagem é de Rondônia
Um dos episódios que detonaram a maior crise recente do Supremo Tribunal Federal (STF) tem uma origem em Rondônia. Segundo depoimento da delegada da Polícia Federal (PF) Janaina Pereira Lima Palazzo, que preside o inquérito da Operação Compliance Zero, o vazamento de dados sigilosos do caso Banco Master à imprensa partiu de um perito criminal federal lotado em Vilhena: João Cláudio Nabas. O depoimento foi prestado em março e teve o sigilo levantado nos últimos dias pelo próprio STF.
Quem é o perito de Vilhena
Nabas não é um nome qualquer dentro da corporação. Com cerca de 20 anos de carreira na PF, ele chefia o Núcleo de Tecnologia (NUTEC) da unidade de Vilhena desde 2009 e é reconhecido como especialista em crimes financeiros — atua, inclusive, como professor em cursos sobre fraudes em investimentos promovidos pela própria PF. Foi essa especialidade que o levou a integrar, de forma remota a partir de Rondônia, a equipe que analisava os dados do caso Master.
Após a prisão de Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025 e a apreensão de seu celular, coube a Nabas periciar as conversas e arquivos extraídos do aparelho, registrados no Laudo 4281/2025.
Os dois PDFs e a sugestão de vazar
É aqui que começa a acusação. Segundo o depoimento da delegada, em 5 de dezembro de 2025, Nabas encaminhou a ela, por WhatsApp, um arquivo em PDF sem cabeçalho nem identificação de origem — um compilado de prints extraídos do celular de Vorcaro. O material continha a íntegra de um contrato de serviços advocatícios entre Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, e Vorcaro, além de supostas conversas entre o banqueiro e o ministro do STF.
Junto, segundo a delegada, veio um áudio. Nela, Nabas dizia conversar "há anos" com a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, afirmava que ela era "uma pessoa muito boa e muito séria" e incentivava a delegada a procurá-la, passando-lhe o contato. Palazzo afirma ter recusado — "de forma educada, porém firme" — entrar em contato com a repórter. Nabas teria insistido. Diante da nova recusa, no mesmo dia, teria enviado um segundo PDF, também sem identificação, intitulado "Toffoli e esposa", com informações sobre o ministro Dias Toffoli e sua ex-mulher, incluindo dados do resort Tayayá.
Segundo a delegada, os arquivos eram "apócrifos" — sem cabeçalho ou identificação de origem —, e o perito insistiu para que o conteúdo fosse repassado à imprensa.
A publicação e o afastamento
Na terça-feira seguinte, 9 de dezembro, a delegada afirma ter lido uma reportagem de Malu Gaspar em O Globo contendo "exatamente os dados compilados por João Nabas". Ela diz ter comunicado o fato imediatamente à sua chefia — o delegado Marcelo Botelho e a Superintendência da PF no Distrito Federal —, reproduzindo os áudios. Com a concordância dela, Nabas foi retirado das investigações, e todos os seus acessos aos dados apreendidos foram cortados.
Meses depois, em maio de 2026, o perito se tornou alvo da 7ª fase da Compliance Zero e foi afastado da corporação. Em pedido de busca autorizado pelo relator do caso, o ministro André Mendonça, a PF sustenta que Nabas "de fato criou os documentos relacionados aos magistrados" e teria "direcionado seus esforços em sentido contrário ao escopo das investigações", buscando "elementos desabonadores de ministros" com o intuito de publicá-los.
Veja o depoimento da delegada:



O que a defesa e os juristas dizem sobre os limites
Um ponto merece clareza, porque delimita responsabilidades. Os juristas ouvidos sobre o caso convergem em dois pontos. O primeiro: se confirmada, a conduta do perito configura, ao menos em tese, o crime de violação de sigilo funcional (art. 325 do Código Penal), com pena de até seis anos e perda do cargo — e há quem sustente hipótese mais grave, a de embaraço à investigação de organização criminosa, punível com até dez anos.
O segundo ponto é sobre a jornalista. Os especialistas são unânimes em afirmar que Malu Gaspar não cometeu crime. Como resume o jurista Pedro Serrano, a autoridade pública não pode repassar dados sigilosos, mas o jornalista que os recebe é protegido pelo exercício da profissão e pelo sigilo constitucional da fonte — e publicar informação de interesse público é um direito, e mesmo um dever, da imprensa. O próprio STF, ao autorizar as diligências contra o perito, ressalvou que elas não implicam "qualquer direcionamento contra jornalistas ou veículos de imprensa".
Por que isso liga Rondônia ao coração da crise
O caso do perito de Vilhena não é um detalhe periférico — é uma peça central do quebra-cabeça que dividiu o STF. Foi esse vazamento, e os documentos que dele resultaram, que passaram a ser citados de lados opostos da crise: o ministro Gilmar Mendes os invoca como exemplo dos "vazamentos seletivos" que, para ele, contaminaram o processo; a defesa de Moraes os descreve como um "dossiê" produzido de forma irregular para atingi-lo. Os arquivos "Moraes.pdf" e "Toffoli e esposa.pdf", nascidos de uma análise feita remotamente a partir de Rondônia, tornaram-se, assim, munição na guerra interna da mais alta corte do país.
Há uma ironia geográfica no episódio: uma das maiores crises institucionais do Supremo, travada em Brasília entre seus ministros, tem um de seus estopins numa sala de perícia em Vilhena, no interior de Rondônia. O que Nabas fez, por que fez, e a mando de quem — se de alguém — é o que a Polícia Federal agora tenta esclarecer, investigando um dos seus.
O espaço está aberto para manifestações.
Versão em áudio disponível no topo do post.