"Apaga depois viu": como o grupo de Vorcaro entrava em sistemas sigilosos
Diálogos nos autos mostram o grupo puxando processos secretos da Polícia Federal e do MPF, com uma ordem recorrente: apagar o rastro depois da consulta
📋 Em resumo ▾
- A investigação descreve como o grupo de Daniel Vorcaro obtinha informações de sistemas sigilosos do Estado para monitorar a própria apuração que o cercava.
- Diálogos citados nos autos mostram consultas a processos secretos da Polícia Federal e do Ministério Público, com a instrução "apaga depois".
- Segundo a PF, os acessos se davam por credenciais funcionais de servidores; em paralelo, um grupo apelidado de "Os meninos" atuava invadindo dispositivos.
- No celular de Vorcaro, a PF diz ter encontrado os nomes dos policiais, procuradores e do juiz que cuidavam do caso.
- Por que isso importa: o episódio indica que a máquina do Estado pode ter sido usada, de dentro, contra a própria investigação — o que ajuda a explicar a acusação de obstrução de justiça.
Entre os quatro núcleos que a Polícia Federal (PF) atribui à organização de Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, o de "intimidação e obstrução de justiça" tem uma característica que o distingue dos demais: ele não mirava apenas concorrentes ou críticos, mas a própria investigação que se aproximava do dono do Banco Master. Os autos, cujo sigilo foi levantado pelo relator no Supremo Tribunal Federal (STF), ao qual PAINEL POLÍTICO teve acesso, descrevem um grupo capaz de olhar por dentro de bancos de dados que deveriam ser inacessíveis.
"Dos seus quais você quer que puxe?"
O trecho mais direto está num diálogo de junho de 2024 entre o banqueiro e Luiz Phillipi "Felipe" Mourão, o "Sicário". Ao encaminhar um documento identificado como um processo, Mourão adverte: **"Apaga depois viu"**. Em seguida, pergunta quais outros Vorcaro gostaria de obter — e a resposta, registrada nos autos, é curta.
"Dos seus quais você quer que puxe e te envie?", pergunta Mourão. "Todos. Obviamente", responde Vorcaro.
Na sequência, segundo a investigação, foram enviados arquivos classificados como sigilosos e reservados. Em outra consulta, Mourão comemora o alcance do acesso: "Acesso total nível máx".

Como se entrava nos sistemas do Estado
A parte técnica é a que dá gravidade institucional ao episódio. De acordo com a PF, o grupo obtinha dados em sistemas internos do Ministério Público (o Aptus), da Secretaria Nacional de Segurança Pública (o Infoseg) e da própria Polícia Federal (o EPOL) — inclusive em procedimentos sob segredo de justiça. O acesso se dava, afirma a investigação, por meio de credenciais funcionais de terceiros: logins verdadeiros, vinculados a servidores, usados para extrair informação e repassá-la a interesses privados.
Havia ainda uma frente paralela, mais artesanal. Um grupo apelidado de "Os meninos" é descrito nos autos atuando na invasão de dispositivos — em uma mensagem, Mourão informa que eles "estão dentro do iCloud do cara". O conjunto, na leitura da PF, formava uma capacidade dupla: extrair dos sistemas oficiais o que era formal, e invadir aparelhos para o que não estava registrado.

O que interessava: a própria investigação
O objeto dessas consultas ajuda a entender a tese de obstrução. Em diálogos citados, o grupo verifica se os investigados apareciam nas bases policiais: "Na PF não constou nada", "Já puxamos no da PF e no tribunal de justiça", **"Não constou nada dos três dentro da PF"**. Chegou-se a mencionar, segundo a apuração, uma checagem internacional — "A Interpol está limpa" e "estamos aguardando o relatório principal do FBI".
O ponto de convergência aparece no exame do celular do próprio Vorcaro. A PF afirma ter encontrado, no aplicativo de notas do aparelho, um registro com os nomes dos policiais e procuradores que conduziam o caso — e até do magistrado responsável por um procedimento sigiloso. Para os investigadores, é o retrato de alguém que, mais do que ser investigado, montava uma contravigilância sobre quem o investigava.

Do monitoramento à fuga
Esse conhecimento antecipado, sustenta a PF, não era inócuo. A mesma capacidade de mapear agentes públicos e antecipar movimentos judiciais se conecta, na representação, ao comportamento de Vorcaro às vésperas de sua primeira prisão — quando, ciente de que medidas seriam adotadas, teria se preparado para deixar o país. A sucessão entre as anotações, o interesse específico no juiz que decretaria sua prisão e a tentativa de mapear a investigação compõem, na leitura policial, um mesmo desenho: o de uma defesa montada nas sombras, com ferramentas do Estado.
O que este núcleo expõe
Fraudes bilionárias, por mais graves que sejam, ainda cabem no universo do crime econômico. O que os diálogos sobre acesso a sistemas revelam é outra ordem de problema: a de que informações que só deveriam circular entre investigadores estariam vazando para o investigado, em tempo quase real. Quando isso acontece, não é apenas um caso que fica comprometido — é a própria expectativa de que uma investigação sigilosa permaneça sigilosa.
A pergunta que fica, e que a apuração terá de responder, é quantos logins funcionais ainda abrem portas que deveriam estar trancadas.
Versão em áudio disponível no topo do post.