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Banco Master: Temer, Renzo Gracie e sheiks na operação com árabes

Operação com intermediários de alto perfil foi firmada após intervenção do BC e prisão de Vorcaro; PF apura se proposta da Fictor foi manobra para tumultuar investigações

Banco Master: Temer, Renzo Gracie e sheiks na operação com árabes
📷 Daniel Vorcaro, ex-presidente Michel Temer, sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, Mario Arruda e Bruno Burilli posam para foto em uma reunião em Abu Dhabi/ Reprodução Estadão
📋 Em resumo
  • - Contrato de aquisição do Banco Master com a Royal Capital foi assinado digitalmente em 24 de dezembro de 2025, após a liquidação da instituição pelo BC
  • - Operação envolveu intermediários como Ludgero de Sousa, Renzo Gracie e o ex-presidente Michel Temer em encontros com a realeza dos Emirados Árabes
  • - Cláusulas contratuais protegiam a Fictor: se garantias do banco fossem infladas, o valor da compra cairia de R$ 3 bilhões para R$ 1
  • - Por que isso importa: a operação é investigada pela PF como possível teatro para tumultuar investigações e ganhar tempo diante da iminente liquidação do banco
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Um contrato assinado na véspera de Natal, às 3h43 da manhã, com nomes como Michel Temer, Renzo Gracie e um sheik dos Emirados Árabes: essa é a trama por trás da tentativa de aquisição do Banco Master, firmada digitalmente dias após a instituição ser liquidada pelo Banco Central e seu dono, Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal. A operação, agora sob investigação, levanta a pergunta que move esta análise: foi um negócio real ou um teatro para ganhar tempo diante do colapso?

A corrida contra o tempo de Vorcaro

A operação reconstituída a partir de documentos obtidos pelo Estadão revela um périplo desesperado de Vorcaro para se desfazer do Master enquanto era investigado por órgãos de controle e cobrado pelo BC por soluções ao caixa da instituição. Em sua trajetória, o banqueiro foi apresentado a um membro da realeza dos Emirados Árabes pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) e recorreu a uma rede de intermediários brasileiros e estrangeiros que afirmavam ter acesso a bilionários do Golfo Pérsico e da Rússia.

"Que o Daniel poderia ser preso em algum momento, eu não tinha dúvida. Mas que o banco ia ser liquidado para mim foi uma surpresa. Não precisava liquidar", afirmou Rafael Gois, sócio da Fictor, em depoimento à imprensa.

Todos os personagens citados no contrato assinado após a liquidação do banco silenciaram diante de pedidos de entrevista. Em redes sociais, o lutador Renzo Gracie — cujo CPF aparece atrelado à assinatura de um dos signatários estrangeiros — chegou a compartilhar vídeo associando o escândalo ao PT, com a frase: "Faz o 'L', otário". Gracie é amigo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de integrantes da família real dos Emirados Árabes fãs de MMA.

De R$ 8 bilhões a R$ 1: a engenharia do acordo

A Fictor, até então conhecida principalmente por patrocinar o Palmeiras, ganhou destaque em 17 de novembro ao anunciar a compra do Banco Master. A holding, originária do interior de São Paulo como prestadora de serviços de tecnologia, transformou-se em empresa de investimentos sob a gestão de Gois, vendendo aportes em negócios de grãos, frigoríficos e energia solar.

A proposta apresentada ao Banco Central previa:

  1. A Fictor entraria com R$ 3 bilhões por 50% do banco
  2. As gestoras Royal Capital, Patronus Wealth (árabes) e Monte Rosa (suíça) aportariam outros R$ 3 bilhões
  3. Vorcaro deveria garantir R$ 8 bilhões em ativos e captar os investidores estrangeiros
  4. Cláusulas de proteção: se precatórios, carteiras de crédito ou imóveis do banco fossem inflados ou fraudulentos, o valor seria abatido dos R$ 3 bilhões devidos pela Fictor

Na prática, se as garantias fossem reduzidas a pó, o banco seria adquirido por R$ 1. Dias após as assinaturas de dezembro, a Fictor pediu recuperação judicial, alegando corrida bancária após ser envolvida na crise do Master. As dívidas declaradas pela empresa somam R$ 4 bilhões — R$ 1 bilhão a mais do que havia oferecido por sua fatia no banco.

Temer, o sheik e o jantar em Abu Dhabi

A busca por investidores levou Vorcaro aos Emirados Árabes com o apoio de Michel Temer. O emedebista, contratado anteriormente pelo banqueiro para acalmar instituições financeiras brasileiras preocupadas com o rombo ao Fundo Garantidor de Crédito, desembarcou em Abu Dhabi no início de novembro acompanhado do empresário Mário Arruda.

O grupo jantou no palácio do sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, vice-governante de um dos sete emirados. A refeição, dimensionada para cem pessoas, serviu apenas vinte convidados. Questionado sobre o destino das sobras, o sheik informou que virariam marmitas para trabalhadores da construção civil.

"Al Mualla estaria inclinado a considerar a entrada no sistema financeiro brasileiro", teria respondido o sheik ao ser perguntado por Temer sobre interesse no Master.

Advogados próximos a Vorcaro afirmam que o sheik participou de mais de uma dezena de reuniões, mas recuou e desistiu do negócio. Vorcaro, Temer, Arruda e o sheik posaram para uma foto antecipada pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. O banqueiro mantinha reserva de uma semana na suíte presidencial do Four Seasons em Dubai, ao custo de R$ 500 mil — a mesma hospedagem prevista para 17 de novembro, dia de sua prisão no Aeroporto de Guarulhos.

A rede de intermediários: de jornalistas a operadores

A articulação contou com figuras de perfis diversos. O advogado Bruno Burilli, amigo de longa data de Vorcaro, conduziu road shows apresentando o Master a investidores estrangeiros. Sua principal carta era a licença do banco em um sistema de transações financeiras chinês, que permitiria movimentações sem passar pelo sistema bancário norte-americano — atrativo para árabes e russos sob sanções.

Um dos representantes de investidores era Christopher Langner, ex-jornalista de economia que escreveu para Folha de S.Paulo, Forbes e Wall Street Journal, e chegou a ser head de investimentos do First Abu Dhabi Bank. Langner atuava em parceria com Antonio Marques de Oliveira Neto, ex-dirigente do Master até 2020, que na negociação estava do lado da Fictor e foi anunciado como futuro CEO do "Banco Fictor".

Marques já atuou para aliados do governo de Vladimir Putin e tentou aproximar o banqueiro russo Oleg Tinkov para comprar o Will Bank — instituição que, em 2024, foi parar nas mãos de Vorcaro e hoje também está em liquidação pelo BC.

Langner e Marques tentaram trazer à mesa a SMI Holding, sediada em Abu Dhabi e presidida pelo sheik Mohammed Bin Tahnoon AL Nahayan, diretor-geral da Polícia de Abu Dhabi. Seu diretor é o russo Stanislav Kudriashov. Envolvidos mostraram ao Estadão uma carta supostamente assinada por Stanislav e o sheik, datada de 14 de novembro de 2025, declarando intenção de compra do Banco Master de Investimentos e interesse em setores como mineração.

A operação de guerra nos bastidores da defesa

Desde outubro de 2025, Vorcaro demonstrava nervosismo com a possibilidade de prisão. Mantinha em sua folha de pagamentos Luiz Philippi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "sicário", que recebia R$ 1 milhão e afirmava ter acesso a documentos do FBI. Mourão seria preso e cometeria suicídio na carceragem da PF em Minas Gerais.

No dia 16 de novembro, com nova passagem comprada para Abu Dhabi, Vorcaro registrou em arquivos de celular a pergunta: "Vocês são próximos?", seguida do nome do juiz Ricardo Soares Leite, da 10.ª Vara Criminal. Não se sabe a quem a dúvida foi endereçada.

Enquanto pressionava sua defesa para descobrir se havia mandado de prisão, o banqueiro montou uma operação para acelerar a venda do Master à Fictor. Na área criminal, mobilizou advogados de peso: Roberto Podval, Pierpaolo Bottini, Bruno Bianco (ex-advogado-geral da União) e Walfrido Warde. Eles peticionaram ao magistrado mencionando a "desnecessidade e o descabimento de medidas cautelares", afirmando ter obtido informação sobre o inquérito por meio de notícia do site O Bastidor.

"Com ele, Vorcaro nunca falou em medo de prisão. A petição foi feita depois de ter sido divulgada a Vara em que estava tramitando o inquérito policial", afirmou Bottini ao Estadão.

Vorcaro delegou ao advogado Daniel Monteiro a tarefa de acelerar o processo. Monteiro, que tinha escritório dentro do Master, foi preso sob acusação de intermediar pagamento de R$ 140 milhões em propinas do banco ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por meio de transferência de imóveis de luxo. Seu escritório recebeu R$ 71 milhões do banco, segundo relatórios do Coaf.

Insistência após a liquidação: teatro ou negócio real?

Horas após assinar o contrato com a Fictor, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central no dia seguinte, 18 de novembro. A defesa do banqueiro mostrou à Justiça que ele tinha passagem paga para Dubai e reserva no Four Seasons para continuar negociações.

A Fictor insistiu na aquisição mesmo após a liquidação. Burilli e Antonio Neto retornaram a Abu Dhabi nos dias 20 e 21 para encontros com emissários de investidores. No dia 25 de novembro, representantes da Fictor e dos fundos estrangeiros foram ao Banco Central tratar da possibilidade de compra, levando cartas de intenção e o advogado Caetano de Vasconcellos Neto, ex-dirigente do Fundo Garantidor de Crédito.

Até o fim de dezembro, foi confeccionado o contrato entre Fictor e representantes da Royal Capital — que nunca produziu efeitos. Ao Estadão, Rafael Gois afirmou que o fundo já tinha negócios com a empresa no setor de alimentos, relação mantida mesmo após a recuperação judicial. Ele diz que não houve mais respostas do Patronus e do Monte Rosa. O fundo suíço afirmou que, por "razões regulatórias", não pode divulgar informações sobre potenciais investidores, mas esclareceu: "nunca houve investimentos diretos ou indiretos no Banco Master".

Toda essa história é investigada pela Polícia Federal, sob a suspeita de que a proposta da Fictor pelo Master tenha sido apenas um teatro de Vorcaro para tumultuar investigações e ganhar tempo com o Banco Central na iminência da liquidação do banco.

O que fica da operação

A cronologia dos fatos — contrato assinado após liquidação, cláusulas que reduziam o preço a R$ 1 em caso de irregularidades, intermediários com perfis controversos e a insistência em negociações mesmo com o banco sob intervenção — levanta questões que vão além do caso específico. Elas tocam em pontos sensíveis da regulação financeira brasileira: até que ponto operações de última hora podem ser usadas para obstruir processos de fiscalização? Como o sistema deve lidar com propostas de aquisição que dependem de capitais estrangeiros de difícil verificação?

O desfecho judicial dirá se houve dolo ou apenas desespero empresarial. Mas o rastro documental deixado por essa operação já serve como estudo de caso sobre os limites da engenharia financeira em momentos de crise institucional. Para o leitor que acompanha os bastidores do poder, a lição é clara: quando o relógio aperta, os atores mudam — mas o roteiro, muitas vezes, segue o mesmo.

Versão em áudio disponível no topo do post

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