Painel Econômico

BRB aprova processar ex-dirigentes por R$ 12 bi em carteiras falsas do Master

Com 7.495 votos a favor e uma única abstenção, acionistas do Banco de Brasília aprovam responsabilização civil de ex-administradores, enquanto a instituição busca no STF um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para evitar a quebra

BRB aprova processar ex-dirigentes por R$ 12 bi em carteiras falsas do Master
📷 @kebecfotografo
📋 Em resumo
  • Acionistas do BRB aprovaram por 7.495 votos a favor e 1 abstenção, em 24 de agosto de 2026, medidas de responsabilização civil contra ex-gestores envolvidos nas operações com o Banco Master e a gestora Reag
  • A deliberação atende ao Artigo 159 da Lei 6.404/1976 e autoriza o banco a ajuizar ações sem, no entanto, definir previamente quem será alvo — trata-se de um "rito procedimental essencial"
  • O ex-presidente Paulo Henrique Costa está preso desde 16 de abril de 2026, suspeito de receber R$ 146,5 milhões em imóveis como propina de Daniel Vorcaro, dono do Master, e de facilitar a compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas
  • O ex-diretor financeiro Dario Oswaldo Garcia Júnior foi afastado em novembro de 2025 e é alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Compliance Zero
  • O BRB busca no STF um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para capitalização, com o Governo do DF (acionista majoritário) como fiador, em meio à pior crise financeira da história da instituição
  • Por que isso importa: O caso expõe como um banco público regional, sob pressão política para crescer, pode se tornar vítima de um esquema de fraudes bilionárias — e como a recuperação depende tanto da Justiça quanto da capacidade do acionista controlador de injetar recursos sem violar a Lei de Responsabilidade Fiscal
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Os acionistas do Banco de Brasília (BRB) aprovaram em 24 de agosto de 2026, por 7.495 votos a favor e uma única abstenção, a autorização para que a instituição ajuize medidas de responsabilização civil contra ex-administradores envolvidos nas operações com o Banco Master e a gestora Reag — esquema que teria desviado cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas. A deliberação ocorreu durante assembleia geral extraordinária realizada on-line, em um momento em que o BRB mergulha na pior crise financeira de sua história e depende de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões — discutido no Supremo Tribunal Federal (STF) — para evitar a quebra, enquanto o ex-presidente Paulo Henrique Costa permanece preso desde abril, tentando negociar uma delação premiada.

A assembleia de 24 de agosto: o que os acionistas decidiram

A assembleia geral extraordinária (AGE) do BRB, realizada de forma virtual na manhã de segunda-feira, consolidou uma posição que o mercado financeiro acompanhava desde o início de agosto, quando o banco convocou os acionistas para deliberar sobre "possíveis medidas judiciais contra ex-gestores". O mapa sintético divulgado antes da reunião mostrou quase unanimidade: 7.495 acionistas instruíram pelo voto favorável e apenas um se absteve.

A deliberação atende ao Artigo 159 da Lei 6.404/1976 (Lei das Sociedades Anônimas), que prevê a responsabilização de administradores por prejuízos causados à companhia. Em nota oficial, o BRB foi categórico: a autorização "não representa definição prévia de responsabilização de pessoas específicas", mas é um "rito procedimental essencial para que sejam continuadas as apurações de responsabilidade por parte da Polícia Federal e demais órgãos investigativos".

A formulação é juridicamente prudente: ao não nomear os alvos antes mesmo de ações serem ajuizadas, o banco evita exposição a processos por danos morais e mantém a flexibilidade para negociar acordos. Mas o mercado sabe que os principais nomes na mira são Paulo Henrique Costa, ex-presidente, e Dario Oswaldo Garcia Júnior, ex-diretor executivo financeiro e de controladoria — ambos já alvos da Operação Compliance Zero.

O esquema Master/REAG: como R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas entraram no BRB

O núcleo do escândalo é a aquisição, pelo BRB, de aproximadamente R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito oferecidas pelo Banco Master, instituição de Daniel Vorcaro liquidada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Segundo a Polícia Federal, o Master criou uma "ciranda financeira" para ocultar desvios: empréstimos eram feitos a empresas de fachada, que aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag, e títulos de crédito inexistentes eram vendidos a outras instituições — entre elas, o BRB.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

A Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro de 2025, apura crimes de gestão fraudulenta, organização criminosa, manipulação de mercado, lavagem de dinheiro e corrupção. Até agosto de 2026, já acumulava dez fases, atingindo desde o próprio Vorcaro — preso preventivamente e apontado como líder da organização — até senadores como Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA), além do ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ).

O nome da operação não é casual: a PF identificou que, embora o Master fosse tecnicamente regulado, auditado e supervisionado, suas operações não estavam sujeitas a qualquer "mecanismo real de controle interno" — daí o termo "compliance zero".

"O BRB reitera que todas as deliberações relacionadas aos investimentos de seu portfólio observam critérios técnicos, regulatórios e de proteção ao interesse de seus acionistas e stakeholders."

— Nota oficial do Banco de Brasília, 24 de agosto de 2026.

Paulo Henrique Costa: do comando à prisão e à tentativa de delação

Paulo Henrique Costa foi presidente do BRB até ser afastado pela Justiça em novembro de 2025, após a deflagração da primeira fase da Compliance Zero. Em 16 de abril de 2026, foi preso preventivamente na 4ª fase da operação, sob ordem do ministro do STF André Mendonça. A acusação: descumprir práticas de governança para facilitar negócios sem lastro entre o banco público e o Master, além de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A PF aponta que Costa recebeu seis imóveis como propina de Vorcaro — quatro em São Paulo e dois em Brasília, avaliados em R$ 146,5 milhões, dos quais cerca de R$ 74,6 milhões já teriam sido efetivamente pagos. Mensagens trocadas entre os dois, apreendidas pela polícia, demonstravam proximidade e tratativas sobre os imóveis. Em uma das conversas, Costa chegou a levar a esposa para visitar apartamentos luxuosos oferecidos pelo banqueiro.

Desde a prisão, Costa tenta negociar uma delação premiada. Em maio de 2026, contratou o professor de direito penal Davi Tangerino e o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão — que, no entanto, deixou a defesa em junho, alegando insatisfação com o rumo das tratativas. O ex-presidente chegou a ser transferido do Complexo Penitenciário da Papuda para o 19º Batalhão da Polícia Militar do DF (Papudinha), o mesmo espaço onde ficou preso o ex-presidente Jair Bolsonaro, para facilitar as negociações.

A delação, porém, enfrenta obstáculos. A PF e a PGR ainda avaliam se a colaboração de Costa é necessária para o avanço das investigações ou se o material obtido por buscas, apreensões e quebras de sigilo já é suficiente. Há também a possibilidade de que Daniel Vorcaro — que teve a primeira proposta de delação rejeitada em maio e a segunda em junho — resolva colaborar, o que tornaria as informações de Costa "inócuas", na avaliação de investigadores. Até agosto, nem mesmo o termo de confidencialidade de Costa havia sido assinado.

Dario Oswaldo Garcia Júnior e a trilha do dinheiro

Dario Oswaldo Garcia Júnior, ex-diretor executivo financeiro e de controladoria do BRB, foi afastado do cargo em novembro de 2025 e é alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Compliance Zero. Embora não esteja preso, sua figura é central para entender como as operações fraudulentas passaram pelos controles internos do banco.

A semana anterior à assembleia de 24 de agosto trouxe outro desdobramento: a Polícia Federal pediu adiamento do inquérito que apura as responsabilidades no caso para concluir investigações e ouvir ex-diretores do BRB. O pedido indica que a PF ainda colhe depoimentos de executivos que estavam nos cargos durante as transações com o Master, sugerindo que novos nomes podem emergir.

A corrida contra a quebra: capitalização e o empréstimo de R$ 6,6 bilhões

Enquanto a Justiça avança, o BRB enfrenta um problema mais imediato: a solvência. A instituição mergulhou na pior crise financeira de sua história e depende de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para se capitalizar e evitar a quebra. O acordo é discutido no âmbito de uma ação no STF, com o Governo do Distrito Federal — acionista majoritário — como fiador.

A negociação envolve o governo federal e o DF. Em maio de 2026, o ministro Durigan afirmou que havia negociações em andamento, mas sem garantia da União. O Governo do DF projeta que o empréstimo consumiria menos de 25% do superávit de 2026, o que, segundo o secretário de Fazenda, seria compatível com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Uma audiência no STF sobre o tema teve início em 13 de agosto de 2026.

O cenário é desafiador. O BRB não é apenas um banco como outro qualquer: é uma instituição controlada pelo poder público distrital, com função histórica de fomentar o desenvolvimento econômico do DF. Sua quebra não seria apenas um evento financeiro — seria uma crise política para a governadora Celina Leão, que desde o início das investigações afirmou ter adotado "todas as providências cabíveis".

"Nós não trabalhamos com uma melhora do cenário macro. Dimensionamos considerando um 2027 pior do que 2026."

Renato Franklin, CEO do Grupo Casas Bahia, em teleconferência sobre recuperação judicial. (Citação mantida como exemplo de tom do mercado; não se aplica diretamente ao BRB)

O caso

Para entender a dimensão do caso BRB-Master, é preciso recuar até março de 2025, quando o BRB anunciou a intenção de comprar o Banco Master. A operação, que enfrentava resistência no mercado devido ao modelo de captação arriscado e à qualidade questionada dos ativos da instituição, foi vetada pelo Banco Central em 3 de setembro de 2025, após mais de cinco meses de análise.

A rejeição do BC não impediu, no entanto, que o BRB já tivesse comprado as carteiras de crédito falsas. A pergunta que a Compliance Zero tenta responder é: como uma instituição com conselho de administração, comitê de auditoria e compliance formalizado aprovou a aquisição de bilhões em ativos sem lastro?

A resposta parcial está na estrutura de governança do BRB. Como banco controlado pelo governo do DF, suas decisões estratégicas historicamente misturam critérios técnicos com pressões políticas. A expansão acelerada do BRB nos últimos anos — com aquisições e crescimento de carteira — foi celebrada como sucesso administrativo, mas criou uma cultura de apetite por risco que, no caso do Master, provou-se fatal.

A comparação com outros escândalos bancários brasileiros é inevitável. O Banco Panamericano (2010), o Banestado (anos 1990) e, mais recentemente, o próprio Banco Master (2025) seguem um padrão: instituições que crescem rápido demais, com captação agressiva e supervisão deficiente, colapsam quando a fraude é exposta. O que diferencia o caso do BRB é que a vítima não era um banco privado, mas uma instituição pública — o que significa que o prejuízo, em última instância, será suportado pelos contribuintes do Distrito Federal.

A Operação Compliance Zero também revelou uma rede de proteção que vai além do BRB. A "Turma", milícia privada de Vorcaro composta por policiais federais ativos e aposentados, monitorava e coagia desafetos. Hackers do grupo "Os Meninos" derrubavam perfis críticos nas redes sociais. E servidores do Banco Central, como a ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária Belline Santana, atuavam como consultoras informais de Vorcaro.

A assembleia de 24 de agosto de 2026 não resolveu nada — e, paradoxalmente, resolveu tudo. Ao autorizar a responsabilização civil dos ex-gestores, os acionistas do BRB deram ao banco a ferramenta jurídica para tentar recuperar parte dos R$ 12,2 bilhões perdidos. Mas a autorização é, por definição, uma aposta no futuro: processos de responsabilização de administradores no Brasil duram anos, e a recuperação de ativos depende de esses ativos ainda existirem.

O verdadeiro teste do BRB está em outro tribunal: o STF, que decidirá se o Governo do DF pode tomar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para salvar um banco que, sob gestões anteriores, parecia mais interessado em agradar a um banqueiro privado do em proteger o patrimônio público. Se o empréstimo for aprovado, o contribuinte do Distrito Federal pagará pela segunda vez pelo mesmo erro — primeiro, quando o dinheiro foi desviado; depois, quando o buraco precisar ser tapado.

A pergunta que não sai do ar é: quantos bancos públicos regionais ainda operam com a lógica do "compliance zero" — onde a assinatura do presidente vale mais do que a análise de risco, e onde a proximidade com o poder político mascara a ausência de controle? O BRB pode ter sido o primeiro a cair. Dificilmente será o último.


Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #BancoMaster #DanielVorcaro #FraudeFinanceira #recuperacaojudicial