Ciro Gomes não reconhece derrota no Ceará e anuncia que vai à Justiça para tentar anular eleição
Candidato derrotado por Elmano de Freitas (PT) acusa, sem apresentar provas, o ministro Dias Toffoli (STF) de interferência para beneficiar o adversário. Equipe do governador reeleito classifica a postura como antidemocrática
📋 Em resumo ▾
- Ciro Gomes não reconhece derrota para Elmano de Freitas (PT) no Ceará e diz que vai à Justiça pedir anulação da eleição
- Elmano venceu no primeiro turno com 53,19% dos votos válidos, diferença de 376,6 mil votos
- Ciro acusa, sem apresentar provas, o ministro Dias Toffoli (STF) de ter favorecido o adversário ao autorizar propaganda petista fora do prazo
- Coordenador de campanha de Elmano rebate e diz que Ciro perdeu ação no TSE por unanimidade antes da eleição
O ex-governador Ciro Gomes (PSDB) não reconheceu sua derrota na disputa pelo governo do Ceará para o governador reeleito Elmano de Freitas (PT) e anunciou que vai recorrer à Justiça para tentar anular a eleição no Estado. Elmano venceu a disputa já no primeiro turno, com 53,19% dos votos válidos contra 46,22% de Ciro — uma diferença de 376,6 mil votos.
A disputa foi acirrada ao longo da campanha: Elmano passou a maior parte do período em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto e aparecia empatado com Ciro às vésperas da votação. Até a publicação desta matéria, Ciro não havia falado com o governador reeleito nem o cumprimentado publicamente pelo resultado.
O que Ciro Gomes alega — sem apresentar provas
Em manifesto divulgado nesta terça-feira (6), dois dias após o primeiro turno, Ciro Gomes afirmou não reconhecer o resultado da eleição e descreveu a vitória de Elmano como fruto de ação de uma "organização criminosa". É importante deixar claro: trata-se de uma acusação feita pelo próprio candidato derrotado, sem apresentação de provas ou indícios até o momento, e sem que exista, até a publicação desta matéria, qualquer apuração formal, policial ou judicial que a confirme.
"Não cumprimentei o candidato vitorioso. Ele não ganhou, ele e sua organização criminosa tomaram as eleições! Já ganhei e perdi eleições, nunca repudiei o resultado das urnas, mas meu sentimento, pela primeira vez na vida, é de que fomos roubados", disse Ciro Gomes, no manifesto.
Ciro afirmou que vai apresentar uma reclamação à Justiça pedindo a anulação da eleição. Como parte dessa reclamação anunciada, ele acusou — também sem apresentar provas — o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de ter interferido no processo eleitoral para beneficiar Elmano.
"Toffoli, ex-advogado do PT e ministro do STF nomeado por Lula, fora da condição de membro do TSE, foi o responsável pela fraude final contra nós. Ele autorizou mais de 900 comerciais de Elmano com Lula e seus senadores durante a sexta e o sábado quando a lei, muito clara, veda a propaganda nestes dois dias que antecedem ao pleito", acusou Ciro, sem apresentar provas.
Essa acusação se refere a uma disputa judicial concreta que de fato ocorreu durante a campanha: nas últimas semanas antes da votação, as campanhas de Ciro e Elmano travaram embates no Judiciário para retirar do ar propagandas uma da outra. Segundo o relatado, a campanha de Ciro havia conseguido suspender 76 minutos de propaganda do candidato petista, sob a alegação de que ela associava Elmano ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O que Ciro chama de "fraude final" — a autorização de propaganda de Elmano com a presença de Lula nos dois últimos dias antes do pleito — seria, segundo sua leitura, uma reposição indevida desse tempo. O Painel Político não teve acesso, até o momento, à decisão judicial específica mencionada por Ciro, nem pôde confirmar de forma independente o número de inserções citado por ele (mais de 900 comerciais).
Ciro também afirmou que o Ceará foi "transformado num quintal do PT" e que "a república brasileira apodreceu com um STF com membros tais como estes que nos assaltaram no domingo" — declarações que constituem opinião e retórica política do candidato derrotado, não fatos apurados.
O que diz a campanha de Elmano
A equipe de Elmano de Freitas lamentou publicamente a postura de Ciro Gomes e a classificou como um ataque à democracia por contestar o resultado da eleição. O coordenador da campanha do governador reeleito, Chagas Vieira, rebateu diretamente as acusações de Ciro em publicação nas redes sociais, divulgada pela assessoria de Elmano.
"Lamento a postura antidemocrática de Ciro ao questionar a escolha legítima do cearense nas urnas. Ciro tenta enganar de novo, dizendo-se vítima da Justiça, quando ele sabe que perdeu ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por unanimidade dos ministros", afirmou Chagas Vieira.
Segundo o coordenador, a decisão judicial que autorizou a propaganda de Elmano nos dias finais da campanha teria apenas reposto o tempo de propaganda eleitoral que havia sido retirado do candidato petista anteriormente — "sem nenhum minuto a mais", segundo ele. O Painel Político também não teve acesso independente a essa decisão do TSE até o momento desta publicação, de forma que tanto a versão de Ciro quanto a versão de Chagas Vieira sobre o conteúdo exato da decisão permanecem, por ora, como relatos das partes envolvidas.
"Quando questiona o resultado eleitoral, Ciro insulta a democracia e desrespeita o povo. Ciro termina melancolicamente como começou: movido pelo ódio e pela mentira", concluiu Chagas Vieira.
Aliança com o PL de Flávio Bolsonaro
Ciro Gomes concorreu ao governo do Ceará em uma chapa formada com o PL, partido do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro. Apesar das acusações agora dirigidas ao PT, ao longo da campanha Ciro evitou criticar diretamente o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — postura associada à força histórica do lulismo no Estado. Parte do material de campanha de Ciro chegou a usar a imagem de Lula, numa tentativa de aproximação com o eleitorado petista local, ainda que também circulasse propaganda do candidato com a imagem de Flávio Bolsonaro.
Com receio de desgaste eleitoral, Ciro evitou subir no mesmo palanque de Flávio Bolsonaro nas duas visitas que o senador fez ao Estado durante a campanha. O PT, por sua vez, explorou o apelido "Cironaro" — combinação de Ciro com Bolsonaro — para associar o candidato tucano* à família do ex-presidente. Em resposta, a campanha de Ciro recorreu à Justiça para tentar derrubar propagandas do PT que o vinculavam aos Bolsonaro.
No primeiro turno no Ceará, Lula recebeu 63,2% dos votos para presidente, contra 31,27% de Flávio Bolsonaro.
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