Como o fiscal virou consultor: os chefes do BC que serviam a Vorcaro
Os dois chefes da supervisão bancária teriam atuado como consultores informais do dono do Master. Foram afastados, ganharam tornozeleira e viraram alvo de CPI
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- A Polícia Federal aponta que dois chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do Banco Central teriam atuado como "consultores informais" de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
- Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana teriam revisado minutas, dado orientações e intercedido em temas de interesse do banco — em troca de vantagens, segundo a investigação.
- Paulo Sérgio, como diretor de Fiscalização, foi quem oficializou em 2019 a compra do banco que Vorcaro transformou no Master.
- Os dois foram afastados pelo BC em janeiro, ganharam tornozeleira por decisão do STF e são alvo de investigação da CGU e de convocação da CPI do Crime Organizado.
- Por que isso importa: o caso atinge a reputação do Banco Central como guardião técnico do sistema financeiro — e sugere que a fiscalização pode ter sido neutralizada de dentro.
Em novembro de 2025, quando liquidou o Banco Master, o Banco Central (BC) projetava a imagem de um regulador técnico e blindado contra pressões. Poucos meses depois, a Polícia Federal (PF) ofereceria uma versão perturbadora dos bastidores: a de que dois dos chefes encarregados justamente de fiscalizar bancos como o Master estariam, na prática, trabalhando para ele. É o que a investigação chama de "núcleo de corrupção institucional" da Operação Compliance Zero.
O regulador que virou consultor
No centro da acusação estão dois nomes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) — a área responsável por acompanhar capital, liquidez e gestão das instituições financeiras. Belline Santana, auditor de carreira, chefiava o departamento; Paulo Sérgio Neves de Souza, seu chefe-adjunto, havia sido diretor de Fiscalização do BC entre 2019 e 2023.
Segundo a representação da PF acolhida pelo relator no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, os dois mantinham "interlocução direta e recorrente" com Daniel Vorcaro: revisavam minutas destinadas ao próprio BC e ao Fundo Garantidor de Créditos, davam orientações e intercediam em temas de interesse do conglomerado. Para os investigadores, a conduta se amolda a uma "consultoria informal", incompatível com o código de conduta da autoridade monetária. Haveria até um grupo de mensagens reunindo Vorcaro e os dois servidores para "alinhamento de estratégias".
"Mesmo sendo servidor do Bacen, Paulo Sérgio torna-se uma espécie de empregado/consultor de Vorcaro para assuntos de interesse exclusivamente privado deste último", escreveu o ministro André Mendonça na decisão.
A porta que se abriu em 2019
Há uma coincidência que a investigação não trata como coincidência. Foi Paulo Sérgio, na condição de diretor de Fiscalização, quem recomendou e oficializou, em 2019, a autorização para que Vorcaro adquirisse o então Banco Máxima — a instituição que ele transformaria no Master. Anos depois, segundo a auditoria aberta pela Controladoria-Geral da União (CGU), o mesmo Paulo Sérgio esteve encarregado de examinar carteiras de crédito de empresas e fundos ligados ao banco. Não apontou irregularidades.
O preço da consultoria
O que os servidores teriam recebido em troca é a parte mais delicada dos autos. A investigação descreve pagamentos dissimulados a Belline por meio de um contrato tido como fictício com uma consultoria, além de despesas custeadas por Vorcaro — entre elas uma viagem à França. No caso de Paulo Sérgio, a apuração menciona a compra atípica de um imóvel rural e o custeio de uma viagem à Disney.
É justamente nesse ponto que a defesa oferece contraponto. Ouvido pela corregedoria do próprio BC, Belline admitiu ter recebido cerca de R$ 1 milhão em duas parcelas em 2023, mas sustentou tratar-se de pagamento legítimo por um projeto de inclusão financeira de jovens — do qual teria participado, inclusive, de um podcast. A versão diverge frontalmente do que a PF extraiu das mensagens.
Do afastamento à CPI
O desfecho institucional foi rápido. Ainda em janeiro, sob a presidência de Gabriel Galípolo, o Banco Central afastou administrativamente os dois servidores no rastro de uma sindicância interna. Em março, Mendonça formalizou judicialmente o afastamento e impôs tornozeleira eletrônica a ambos. A CGU abriu processo disciplinar; a CPI do Crime Organizado, no Senado, convocou os dois para depor.
O episódio, porém, ganhou desdobramento simbólico: convocado para a sessão de 24 de março, Belline não compareceu — na véspera, Mendonça lhe concedeu um habeas corpus tornando facultativa a presença, com base no direito de não se autoincriminar. O regulador afastado, agora, exercia diante do Parlamento o mesmo direito de qualquer investigado.
O que o caso cobra do Banco Central
A força do episódio não está nas cifras, mas no lugar onde ele acontece. O Banco Central se sustenta sobre uma presunção de impermeabilidade: a de que suas decisões técnicas não têm dono. Quando a suspeita recai sobre os próprios chefes da supervisão — e quando um deles é o mesmo que assinou a entrada do controlador no sistema anos antes —, o que se abala não é uma decisão isolada, mas a confiança na cadeia inteira. A pergunta que a CPI e a CGU terão de responder é incômoda: quantas das decisões sobre o Master, ao longo de quase uma década, foram tomadas por quem deveria fiscalizá-lo — e quantas por quem já o servia?
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