Como perito da PF vazou dados de Moraes e Toffoli ao jornalismo?
João Cláudio Nabas criou PDFs com informações sigilosas do celular de Daniel Vorcaro e sugeriu divulgação à imprensa; PF reconstituiu cronologia do vazamento
📋 Em resumo ▾
- A Polícia Federal identificou o perito João Cláudio Nabas como autor de dois arquivos PDF com informações sigilosas sobre os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
- Os documentos foram produzidos a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero.
- Nabas acessou o material em dezembro de 2025 e, segundo colegas, sugeriu que o conteúdo fosse repassado à imprensa.
- A PF reconstituiu a cronologia a partir de registros de acesso e metadados dos arquivos; o perito foi afastado das funções.
- Por que isso importa: O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle interno da PF e o risco de que investigações sensíveis sejam desviadas para fins políticos ou pessoais.
A Polícia Federal (PF) informou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que o perito criminal João Cláudio Nabas produziu dois arquivos intitulados "Moraes.pdf" e "Toffoli e esposa.pdf" a partir de citações aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. As informações, obtidas pelo Estadão, são parte do inquérito que apura o vazamento de informações sigilosas sobre a família do ministro Alexandre de Moraes.
A investigação, aberta por determinação de Mendonça, levou ao cumprimento de mandado de busca e apreensão contra o perito em maio e ao seu afastamento das funções por suspeita de violação de sigilo funcional. A cronologia dos fatos, reconstituída pela PF a partir de registros de acesso ao sistema interno da corporação, aponta Nabas como o responsável pela compilação e possível divulgação do material.
A cronologia do vazamento: de dezembro à imprensa
João Cláudio Nabas foi convocado para auxiliar a equipe da Operação Compliance Zero em novembro de 2025. A operação investiga crimes financeiros envolvendo Vorcaro e outras figuras do mercado. Em 1º de dezembro, o perito acessou a extração dos dados do celular do banqueiro. Três dias depois, em 4 de dezembro, produziu os arquivos "Moraes.pdf" e "Toffoli e esposa.pdf".
Os documentos reuniam diálogos e menções aos ministros encontrados no aparelho de Vorcaro. Um deles continha trechos do contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Segundo depoimentos colhidos pela PF, após elaborar os arquivos, Nabas sugeriu aos integrantes da operação que o conteúdo fosse divulgado à imprensa. Os investigadores afirmam que a proposta foi rejeitada no momento, mas, dias depois, detalhes do contrato envolvendo a esposa de Moraes vieram a público. Para a Polícia Federal, a sequência dos fatos reforça os indícios de que o perito foi responsável pelo vazamento.
"Quando um perito da Polícia Federal sugere que informações sigilosas sobre ministros do STF sejam divulgadas à imprensa, a linha entre investigação e operação política torna-se perigosamente tênue."
As provas: metadados, registros de acesso e depoimentos
No pedido de busca e apreensão, a Polícia Federal afirma que Nabas "de fato criou os documentos relacionados aos magistrados" e que "a análise dos metadados e conteúdos de tais manuscritos reforçou os indícios de que Nabas organizou e repassou à imprensa os dados sigilosos referentes às informações sobre os ministros do STF encontrados no celular apreendido de Daniel Vorcaro".
A corporação sustenta que a análise dos metadados não apenas confirmou a autoria dos arquivos, como também indicou sua organização e possível encaminhamento para divulgação. Os registros de acesso ao sistema interno da PF, combinados com os depoimentos de policiais federais que integravam a Operação Compliance Zero, formam o conjunto de provas que embasou o afastamento cautelar do servidor.
Um dos agentes afirmou que Nabas realizou parte da análise remotamente, a partir de Vilhena (RO), e encaminhou um arquivo em PDF sem identificação em 5 de dezembro. A PF conclui que o perito "direcionou seus esforços em sentido contrário ao escopo precípuo das investigações, buscando, no material objeto de análise, supostos elementos desabonadores de ministros desta Suprema Corte, com o intuito comprovado de publicizar tais informações por meio da imprensa nacional".
O escopo da investigação e o sigilo da fonte
A investigação apura a suspeita de violação de sigilo funcional, crime atribuído ao servidor público que divulga, sem autorização, informações sigilosas obtidas em razão do cargo. No inquérito, a Polícia Federal ressalta que jornalistas e profissionais protegidos pelo direito constitucional ao sigilo da fonte não são alvo da investigação. O foco está exclusivamente na conduta do servidor suspeito de ter acessado, organizado e repassado informações sigilosas.
Essa distinção é fundamental: não se trata de criminalizar a imprensa, mas de apurar a conduta de um agente público que, ao invés de cumprir sua função institucional, teria utilizado o acesso a dados sensíveis para fins alheios ao interesse público.
"A liberdade de imprensa não está em questão. O que está em questão é a conduta de um servidor público que desviou o propósito de uma investigação federal para atender a interesses que não os da Justiça."
O contexto da Operação Compliance Zero
O celular de Daniel Vorcaro foi apreendido no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação da Polícia Federal sobre crimes financeiros. Foi nesse contexto que Nabas passou a integrar a equipe responsável pela análise dos dados extraídos do aparelho.
Segundo a PF, porém, o perito teria utilizado o acesso ao material para produzir documentos voltados a informações sobre ministros do STF, desviando-se da finalidade da investigação. A apuração sobre o vazamento tramita separadamente da Operação Compliance Zero. Enquanto a operação principal investiga supostos crimes financeiros envolvendo Vorcaro, o novo inquérito concentra-se exclusivamente na conduta de João Cláudio Nabas e na suspeita de violação de sigilo funcional.
A declaração de Gilmar Mendes e as zonas de sombra
Em meio às investigações, o ministro Gilmar Mendes afirmou que a única frente ainda não esclarecida no caso Banco Master envolve as relações entre ministros do STF e Daniel Vorcaro. Também classificou como "erro crasso" o relato do ministro André Mendonça sobre uma suposta proposta de "delação seletiva". Ainda não está claro, porém, se essa frente integra algum desdobramento da Operação Compliance Zero ou se corresponde a uma investigação distinta.
A declaração de Gilmar Mendes adiciona uma camada de complexidade ao caso. Se há questões não esclarecidas sobre as relações entre ministros do STF e o banqueiro, a investigação do vazamento pode ser apenas a ponta de um iceberg muito maior.
O que vem pela frente
A PF deve continuar a investigação sobre a conduta de Nabas, ouvindo novas testemunhas e analisando outros documentos apreendidos. O inquérito pode revelar se o perito agiu sozinho ou se houve cumplicidade de outros agentes.
Enquanto isso, o STF observa. A instituição precisa responder a uma pergunta incômoda: como um servidor público, com acesso a dados sensíveis de uma operação federal, conseguiu desviar o propósito da investigação sem que os mecanismos de controle interno detectassem a anomalia?
O caso do perito Nabas não é apenas sobre um vazamento. É sobre a fragilidade dos mecanismos de controle da Polícia Federal e sobre o risco de que investigações sensíveis sejam instrumentalizadas para fins que não os da Justiça. Até que essa fragilidade seja corrigida, a confiança nas instituições continuará sendo testada — não apenas pelos crimes que investigam, mas pelos vazamentos que produzem.
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