Contrato revela Eduardo Bolsonaro como gestor financeiro do Dark Horse
Documento assinado em 2024 e mensagens obtidas pelo Intercept mostram deputado cassado com poder sobre orçamento e captação de recursos da produção sobre Jair Bolsonaro
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- Contrato de novembro de 2023 designa Eduardo Bolsonaro (PL-SP) como produtor-executivo do filme Dark Horse
- Documentos revelam poder sobre gestão financeira, contradizendo versão pública do deputado cassado
- Recursos do Banco Master foram direcionados a fundo controlado por aliados de Eduardo nos EUA
- STF apura possível direcionamento de emendas parlamentares para a produção cinematográfica
- Por que isso importa: o caso expõe interseção entre poder político, financiamento de campanha disfarçado e produção cultural.
Um contrato assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro (deputado federal cassado, PL-SP) em janeiro de 2024 e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept Brasil revelam que o parlamentar atuou como produtor-executivo do filme Dark Horse, com poder decisivo sobre a gestão financeira do projeto. As informações contradizem afirmações públicas do deputado e acendem o debate sobre os limites entre atividade política e produção audiovisual.
O contrato que Eduardo Bolsonaro não mencionou
O documento, datado de novembro de 2023 e formalizado digitalmente em 30 de janeiro de 2024, designa explicitamente Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias (PL-SP) como produtores-executivos da GoUp Entertainment, produtora sediada na Flórida. A função, segundo o texto, confere poder para lidar diretamente com controle de orçamento, captação de recursos e gestão financeira do projeto.
"O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo."
A mensagem, atribuída a Eduardo Bolsonaro e obtida pelo Intercept, ilustra o papel articulador do deputado nas tratativas financeiras. No contrato, os produtores-executivos deveriam atuar em "considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme", incluindo preparação de documentação para investidores e identificação de incentivos fiscais.
Em publicação no Instagram em 14 de maio, Eduardo afirmou que apenas cedeu direitos de imagem e não exerceu cargo de gestão no Dark Horse. Os documentos contradizem essa versão. Uma minuta de aditivo de fevereiro de 2024, ainda sem confirmação de assinatura, qualifica Eduardo como "financiador" e autoriza o uso de recursos por ele investidos na produção.
Mensagens revelam articulação para envio de recursos aos EUA
Trocas de mensagens de março de 2025 entre o empresário Thiago Miranda (Portal Leo Dias) e o banqueiro Daniel Vorcaro destacam Eduardo como articulador financeiro. Miranda encaminha a Vorcaro uma captura de tela de mensagem de Eduardo com orientações sobre remessa de valores: "Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?".
O timing é relevante: março de 2025 foi o mesmo mês em que Eduardo anunciou licença do mandato para permanecer nos EUA, sob a justificativa de buscar "sanções aos violadores de direitos humanos". Documentos indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar o projeto.
Fundo nos EUA: a conexão com o advogado de Eduardo
Parte dos recursos negociados por Flávio Bolsonaro (senador, PL-RJ) junto a Vorcaro foi direcionada ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas. Registros societários apontam o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC como agente legal do fundo. Calixto é o advogado responsável pelo processo imigratório de Eduardo nos EUA.
Altieris Santana aparece como membro societário do fundo e também como contato disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira, segundo mensagens obtidas pelo Intercept. Em resposta pública, Eduardo afirmou que "o escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos".
Orçamento milionário e a promessa de Green Card para investidores
O orçamento total do Dark Horse é estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões — valor compatível com os US$ 24 milhões negociados entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. A estratégia de captação previa 40 cotas de US$ 500 mil cada, totalizando US$ 20 milhões.
O plano de negócios oferecia pacotes VIP com regalias incomuns: investidores de US$ 1 milhão ganhavam assento no conselho de produção. O pacote mais caro, de US$ 1,1 milhão, incluía promessa explícita de "oportunidade de imigração" — um atalho para obtenção de Green Card nos EUA.
"O escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos."
A projeção de retorno era agressiva: devolução de 100% do capital mais 20% de lucro, com divisão igualitária do excedente entre investidores e produtores — incluindo Eduardo Bolsonaro e Mario Frias.
O que diz a defesa e o que apura o STF
A defesa de Mario Frias informou que "Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse" e "nunca recebeu qualquer quantia do fundo de investimento cujo produto privado final é o filme". Questionados, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Karina Gama e Michael Brian Davis não responderam até a publicação desta matéria.
Enquanto isso, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, determinou abertura de apuração preliminar para investigar possível direcionamento de emendas parlamentares para projetos culturais, incluindo o Dark Horse. A TV Globo noticiou que o STF tenta intimar Mario Frias para prestar informações sobre destinação de R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil, ONG ligada à GoUp Entertainment.
Contexto e antecedentes: por que o leitor deve se importar
O caso Dark Horse não é isolado. Ele se insere em um padrão de investigações sobre o uso de mecanismos de financiamento cultural, emendas parlamentares e estruturas offshore para movimentação de recursos ligados a figuras políticas. Para o leitor nacional, a questão central é: até que ponto a produção audiovisual pode ser usada como veículo para operações financeiras com implicações eleitorais?
A interseção entre poder político, incentivos fiscais e produção cultural exige transparência. Quando documentos revelam lacunas entre declarações públicas e contratos assinados, o interesse público demanda apuração rigorosa — não por perseguição, mas por princípio republicano.
O filme sobre Jair Bolsonaro pode até sair do papel. Mas o que os documentos já revelaram sobre sua estrutura financeira é, por si só, um roteiro digno de investigação jornalística. A pergunta que fica não é apenas sobre quem gestiona o orçamento de uma produção cinematográfica, mas sobre quais limites ainda separam atividade política, financiamento de campanha e produção cultural no Brasil contemporâneo.
Enquanto as investigações avançam, uma certeza: a linha entre bastidores do poder e bastidores do cinema nunca foi tão tênue.
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