STF abre investigação sobre emendas para filme de Bolsonaro
Ministro Flávio Dino apura se deputados do PL destinaram recursos públicos a entidade ligada à produção de obra biográfica sobre o ex-presidente
📋 Em resumo ▾
- STF abre apuração sobre emendas de R$ 2,6 mi a entidade ligada à produtora do filme sobre Bolsonaro
- Deputados Bia Kicis, Marcos Pollon e Mário Frias (PL) são alvo da investigação
- Petições de Pastor Henrique Vieira (Psol) e Tabata Amaral (PSB) motivaram a decisão
- Câmara informou não encontrar irregularidades formais, mas prestação de contas ainda está em andamento
- Por que isso importa: Caso testa limites entre atividade parlamentar, financiamento de produção cultural e uso de recursos públicos
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou, nesta sexta-feira (15), a abertura de apuração preliminar sobre o envio de emendas parlamentares a instituições vinculadas à produtora do filme "Dark Horse", obra biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão responde a denúncias de que recursos públicos teriam sido usados para financiar a produção.
Os parlamentares e os repasses questionados
Bia Kicis (PL-DF), Marcos Pollon (PL-MS) e Mário Frias (PL-SP) destinaram, em conjunto, R$ 2,6 milhões em emendas do tipo "Pix" a uma ONG presidida por sócia da produtora responsável pelo filme. Os valores foram apontados em petição apresentada em março pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP), que solicitou esclarecimentos sobre a legalidade da destinação.
Deputados do PL destinaram R$ 2,6 milhões em emendas a entidade ligada à produtora do filme sobre Bolsonaro.
O ministro Flávio Dino intimou os três deputados a prestar esclarecimentos sobre se os repasses tiveram como objetivo financiar o filme sobre Bolsonaro. Até o momento, Bia Kicis, Marcos Pollon e a Câmara dos Deputados apresentaram as informações solicitadas.
A posição técnica da Câmara e o estágio da prestação de contas
A área técnica da Casa informou ao STF que não identificou irregularidades formais nas emendas enviadas por Mário Frias. No entanto, os recursos ainda estão em fase de prestação de contas — momento em que as entidades beneficiárias devem comprovar a aplicação adequada dos valores recebidos.
Assessorias dos deputados foram procuradas para comentar o andamento do caso. Não houve retorno até a publicação desta matéria.
O filme "Dark Horse" e as negociações paralelas
Enquanto a apuração sobre as emendas tramita no STF, o site Intercept Brasil publicou mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Nas conversas, o pré-candidato à Presidência cobra pagamentos relacionados à produção do filme "Dark Horse".
De acordo com a reportagem, Flávio Bolsonaro negociava o repasse de R$ 134 milhões para a produção da obra. Ao todo, teriam sido transferidos R$ 61 milhões da estrutura empresarial de Vorcaro para um fundo sediado no Texas, que tem como representante legal o advogado Paulo Calixto — que também defende o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL).
"Busquei patrocínio privado para um filme privado", afirmou Flávio Bolsonaro (PL) após divulgação de mensagens com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Inicialmente, Flávio negou envolvimento com o ex-banqueiro. Após a publicação da reportagem, reconheceu ter buscado "patrocínio privado para um filme privado", mas rechaçou a existência de irregularidades.
O que está em jogo além do caso específico
A apuração aberta por Flávio Dino coloca em debate limites ainda pouco explorados na legislação brasileira: até que ponto emendas parlamentares podem ser destinadas a entidades com vínculos indiretos com projetos de interesse político de parlamentares?
O caso também reacende discussões sobre transparência no uso de emendas do tipo "Pix", mecanismo criado para agilizar repasses, mas que reduz a rastreabilidade pública da aplicação dos recursos. A pergunta que fica: como equilibrar agilidade administrativa com controle social efetivo?
A decisão do STF de apurar separadamente o caso, sob sigilo, indica que o ministro considera haver indícios suficientes para justificar investigação mais aprofundada. Resta saber se a prestação de contas das entidades beneficiadas conseguirá demonstrar, de forma inequívoca, que os recursos foram aplicados em finalidade pública legítima.
Enquanto isso, o caso serve como termômetro para um debate maior: em um ambiente de polarização, como garantir que instrumentos de financiamento parlamentar não se transformem em atalhos para projetos de natureza privada?
Versão em áudio disponível no topo do post.