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Covre disse "isso é fraude" 7 dias antes do rombo da Americanas

Decisão da Justiça Federal revela reação do ex-diretor financeiro ao ser apresentado ao esquema contábil que levou a varejista à maior recuperação judicial do país

Covre disse "isso é fraude" 7 dias antes do rombo da Americanas
📋 Em resumo
  • Reunião de início de janeiro de 2023 marcou a virada do caso Americanas, segundo decisão da Justiça Federal baseada em representação da Polícia Federal.
  • André Covre, recém-empossado diretor financeiro, teria classificado o esquema como fraude e advertido os presentes sobre prisão, enquanto Sérgio Rial pediu calma.
  • Caso já soma duas fases da Operação Disclosure, prisão de Miguel Gutierrez na Espanha, bloqueio de até R$ 54 bilhões em bens e novo procedimento de arbitragem contra os controladores.
  • Por que isso importa: o episódio reacende a discussão sobre quem sabia do quê e quando, três anos e meio depois do maior escândalo contábil do mercado de capitais brasileiro.
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Sete dias antes de a Americanas comunicar ao mercado o rombo contábil bilionário que desencadeou um dos maiores escândalos corporativos da história do país, uma reunião interna mudou os rumos da empresa. Segundo decisão da Justiça Federal à qual a coluna teve acesso, o então diretor financeiro recém-empossado, André Covre, reagiu ao conhecer as irregularidades e afirmou: "Isso é fraude".

A reunião que expôs o esquema

André Covre recebeu apresentação preparada pelo então diretor Marcelo Nunes sobre as operações contábeis sob investigação, e, ao tomar conhecimento do conteúdo, interrompeu a reunião, levantou-se e afirmou: "Isso é fraude". Em seguida, apontando para os demais presentes, teria dito: "Vocês vão ser processados e presos".

"Isso é fraude. Vocês vão ser processados e presos" — André Covre, então diretor financeiro da Americanas, segundo representação da Polícia Federal.

Ainda segundo o documento, o então presidente da Americanas, Sérgio Rial, pediu que Covre mantivesse a calma e evitasse conclusões precipitadas. De acordo com a Polícia Federal, a reação de Covre marcou uma mudança na condução do caso dentro da companhia: a partir daquele momento, as práticas deixaram de ser tratadas internamente como possíveis ajustes ou inconsistências contábeis e passaram a ser encaradas como potenciais ilícitos.

Um diretor recém-chegado, indicado por Lemann

O episódio ocorreu no início de janeiro de 2023, dias depois de Covre assumir o cargo por indicação do bilionário Jorge Paulo Lemann — controlador da companhia ao lado de Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. A sucessão do cargo de diretor-presidente aconteceu em 1º de janeiro de 2023, quando Sergio Rial assumiu junto com o novo diretor financeiro, André Covre. O mercado reagiu de forma positiva à mudança no comando da companhia, com valorização imediata das ações e recomendação de compra por parte de analistas.

Covre chegava com histórico no Grupo Ultra e na rede de farmácias Extrafarma, além de passagens pela americana Unisys Corporation e pelo ABN AMRO Capital, na Europa. De acordo com a decisão judicial, a Polícia Federal sustenta que o executivo chegou à companhia sem conhecimento das manipulações contábeis e foi apresentado à real situação financeira da empresa apenas naquela reunião com integrantes da antiga diretoria.

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Da fala à queda: os sete dias até o fato relevante

Em 11 de janeiro de 2023, o então CEO Sergio Rial e o diretor financeiro André Covre comunicaram a decisão de não prosseguir à frente de seus cargos. No mesmo dia, a varejista informou ao mercado a existência de dívidas não reconhecidas. Em 11 de janeiro, a Lojas Americanas informou a existência de dívidas não reconhecidas de cerca de R$ 20 bilhões, levando as ações da companhia a uma queda de 77% em um único dia. Pouco mais de uma semana depois, com o passivo recalculado em mais de R$ 40 bilhões, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial.

Após as renúncias de Rial e Covre, o Conselho de Administração elegeu Camille Loyo Faria e Leonardo Coelho como CFO e CEO para conduzir os processos de recuperação da Americanas. Segundo o ex-presidente da Americanas, Sergio Rial, esse passivo foi se acumulando ao longo de quase uma década.

Risco sacado e propaganda que não existia

A engenharia contábil por trás do rombo combinava duas práticas. A explicação para a fraude contábil, à época, era de que a Americanas pegava empréstimos com bancos para pagar fornecedores antecipadamente; em vez de registrar esses empréstimos como dívida bancária, o que aumentaria o endividamento visível, a diretoria reduzia a conta de "fornecedores", escondendo o passivo real — o chamado risco sacado.

Paralelamente, as investigações constataram fraudes envolvendo contratos de verba de propaganda cooperada (VPC), incentivos comerciais geralmente usados no setor, mas que no caso da Americanas eram contabilizados sem nunca terem existido. Os registros mostram, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços — um dos indícios usados pela investigação.

Operação Disclosure: da primeira à segunda fase

A primeira fase da Operação Disclosure, tratando de montante de R$ 25,3 bilhões, foi deflagrada em junho de 2024, quando cerca de 80 policiais federais cumpriram dois mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão nas residências de ex-diretores da Americanas, além de sequestro de bens e valores que somaram mais de meio bilhão de reais, por determinação da 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Como desdobramento, o ex-CEO Miguel Gutierrez foi preso pela polícia espanhola em Madri, em junho de 2024, após a inclusão de seu nome na lista de Difusão Vermelha da Interpol.

Em 25 de junho de 2026, a Polícia Federal deflagrou, em conjunto com o Ministério Público Federal, a segunda fase da Operação Disclosure, para aprofundar as investigações sobre supostas fraudes contábeis estimadas em aproximadamente R$ 54 bilhões. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A Justiça determinou o bloqueio e sequestro de até R$ 54 bilhões em bens dos investigados.

Desta vez, o alvo passou a incluir o topo da cadeia financeira. A PF incluiu acionistas de referência da Americanas e executivos de grandes bancos entre os alvos de busca e apreensão, entre eles Eduardo Saggioro Garcia, apontado como operador direto dos sócios, além de José de Castro Araújo Rudge Júnior e Gustavo Balassiano, do Itaú Unibanco, e André Juaçaba de Almeida e Alexandre Lian Abdo, do Santander. Itaú e Santander dizem cooperar com as investigações, enquanto o Bradesco não respondeu ao pedido de entrevista.

Delações e o apontamento da CVM contra Gutierrez

Dois ex-executivos fecharam acordo com o Ministério Público Federal. Marcelo da Silva Nunes, ex-diretor financeiro, e Flavia Pereira Carneiro, ex-superintendente de controladoria, firmaram acordo de delação premiada — o mesmo Marcelo Nunes que, segundo a decisão judicial, apresentou a Covre as operações contábeis questionadas na reunião de janeiro de 2023.

No plano regulatório, em janeiro de 2026 a Superintendência de Processos Sancionadores da CVM concluiu sua fase investigativa sobre a fraude contábil e apontou que o esquema teria sido arquitetado e liderado pelo ex-CEO Miguel Gutierrez. A autarquia também instaurou, em 15 de janeiro de 2026, dois novos inquéritos administrativos relacionados às inconsistências em lançamentos contábeis redutores da conta fornecedores divulgadas no fato relevante de 11 de janeiro de 2023 — um deles mirando diretamente a atuação de bancos que mantinham relação comercial com a varejista.

Controladores voltam ao centro da disputa

Apesar de os acionistas de referência Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira e os membros do Conselho de Administração não terem sido implicados nas acusações relacionadas à fraude contábil, a questão da responsabilização dos controladores voltou à pauta em 2026. A Câmara de Arbitragem do Mercado, da B3, extinguiu, em decisão proferida em 16 de julho, uma arbitragem movida desde 2023 por acionistas minoritários contra a varejista, homologando a desistência dos pedidos e encerrando o processo sem julgamento do mérito.

A entidade que representa investidores minoritários reagiu. Segundo o Instituto Empresa, em janeiro de 2026 um novo procedimento arbitral foi instaurado, voltando a discutir a responsabilização dos controladores por abuso de poder de controle; para a entidade, a Americanas comunicou ao mercado a desistência do processo antigo sem informar a existência desse novo procedimento, conduta que classificou como "seletiva" e que pretende levar à CVM. Em março de 2025, a própria Americanas já havia ingressado com um procedimento arbitral contra o ex-CEO e outros três ex-diretores.

A empresa que sobrou depois do rombo

Enquanto a apuração avança, a companhia tenta demonstrar recuperação operacional. Desde o início da recuperação judicial, em janeiro de 2023, a Americanas fechou mais de 400 lojas e reduziu sua rede de cerca de 1.880 para aproximadamente 1.448 unidades, concentrando recursos nos ativos considerados estratégicos. Em fevereiro, os credores aprovaram o desinvestimento de uma série de imóveis, com valor estimado entre R$ 346 milhões e R$ 468 milhões.

Os números do primeiro trimestre de 2026 sustentam o discurso de virada de página. No período, a receita líquida cresceu 20,2%, para R$ 3,1 bilhões, o lucro bruto avançou 16,6%, alcançando R$ 834 milhões, e o Ebitda ajustado voltou ao campo positivo, somando R$ 15 milhões. Em março de 2026, a varejista entrou com pedido formal na Justiça para encerrar o processo de recuperação judicial.

Ainda assim, o passado segue pesando sobre o balanço. A fraude da Americanas continua influenciando a forma como o mercado avalia a empresa, mesmo após a melhora dos indicadores operacionais — uma combinação que cria um desafio que vai além do desempenho financeiro.

A frase atribuída a Covre — "isso é fraude" — hoje serve de marco temporal para a Justiça e a Polícia Federal reconstituírem quem sabia o quê, e quando, dentro da varejista. Falta saber se a nova rodada de arbitragem e a segunda fase da Operação Disclosure vão alcançar, afinal, os controladores que até aqui permaneceram fora do centro das acusações.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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