Painel Econômico

Fraude da Americanas: PF chega ao núcleo duro dos acionistas

PF e MPF deflagram 2ª fase da Operação Disclosure com bloqueio de R$ 54 bilhões. Alvos incluem herdeiros do controle da 3G e executivos de Itaú, Bradesco e Santander

Fraude da Americanas: PF chega ao núcleo duro dos acionistas
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Mudança de Alvo: Polícia Federal (PF) e Ministério Público Federal (MPF) deflagram a 2ª fase da Operação Disclosure, mirando acionistas de referência e banqueiros.
  • Núcleo de Controle: Carlos Alberto Sicupira, Paulo Alberto Lemann e o operador Eduardo Saggioro Garcia são alvos de busca e apreensão.
  • Os Bancos na Mira: Executivos do Itaú Unibanco, Bradesco e Santander são investigados por suposto conhecimento das fraudes.
  • Bloqueio Bilionário: A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o bloqueio de bens e valores que pode chegar a R$ 54 bilhões.
  • Por que isso importa: A operação desloca o foco dos ex-executivos para os donos do capital e as instituições financeiras que subscriveram as dívidas da varejista
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) deram, nesta quinta-feira (25), o passo mais ousado até agora no desmonte do maior escândalo corporativo da história recente do Brasil. A 2ª fase da Operação Disclosure deixa para trás a cúpula executiva da Americanas e mira diretamente os acionistas de referência da companhia — os bilionários da órbita da 3G Capital — e os executivos dos bancos que financiaram a sua expansão.

Com nove mandados de busca e apreensão cumpridos no Rio de Janeiro e em São Paulo, a força-tarefa busca responder à pergunta de bilhões de reais: quem no núcleo duro do controle e do sistema financeiro sabia, e quando soube, que os números da varejista eram uma ficção contábil?

Relembrando o caso: a cronologia de um colapso anunciado

Para compreender a magnitude desta segunda fase, é preciso revisitar a gênese do desastre. A fraude contábil da Americanas veio à tona em 11 de janeiro de 2023, quando a empresa emitiu um fato relevante comunicando "inconsistências" de cerca de R$ 20 bilhões em suas contas. O anúncio provocou um terremoto no mercado financeiro: as ações despencaram, debêntures foram congeladas e a empresa, uma das maiores varejistas do país, pediu recuperação judicial dias depois.

O rombo inicial de R$ 20 bilhões, contudo, era apenas a ponta do iceberg. Ao longo de 2023 e 2024, investigações internas e auditorias independentes revelaram que a fraude era muito mais profunda. Em junho de 2024, um novo relatório apontou que a manipulação contábil havia inflado os resultados da empresa em R$ 25,3 bilhões ao longo dos anos, ocultando dívidas e criando uma aparência artificial de solvência que enganou investidores, bancos e o mercado como um todo.

O mecanismo era sofisticado: a empresa utilizava operações de "risco sacado" e contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) que não possuíam lastro econômico real. Na prática, dívidas que deveriam estar no balanço da varejista eram registradas como se fossem de responsabilidade de bancos, criando uma contabilidade paralela que funcionou durante anos sem que os auditores ou o mercado percebessem — ou fingissem não perceber.

📰
Gostou do que está lendo?Assine o Painel Político e acesse todo o conteúdo exclusivo — análises, bastidores e o jornalismo que vai fundo no poder.
Assinar por R$19/mêsJá sou assinante

Em junho de 2024, a PF deflagrou a 1ª fase da Operação Disclosure, focada em ex-executivos da companhia. O ex-CEO Miguel Gutierrez chegou a ser preso na Espanha após ter seu nome incluído na lista de difusão vermelha da Interpol, mas teve a prisão revogada meses depois. Em março de 2025, o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários, acusados de integrar uma estrutura organizada para manipular resultados financeiros, enganar investidores e ocultar a real situação patrimonial da empresa.

Agora, em 2026, a operação escala para os donos do capital e os banqueiros.

O cerco aos acionistas: quem são os alvos do núcleo de controle

Entre os alvos da PF estão nomes que transitam pela elite do capitalismo nacional e que compõem a constelação da 3G Capital, o fundo de investimentos fundado pelo bilionário Jorge Paulo Lemann.

Carlos Alberto da Veiga Sicupira, conhecido como Beto Sicupira, é um dos sócios originais da 3G Capital e um dos homens mais ricos do Brasil. Com uma fortuna estimada em dezenas de bilhões de reais, Sicupira construiu sua trajetória ao lado de Lemann e Marcel Telles, participando de aquisições históricas como a da cervejaria AmBev e de redes como Burger King e Heinz. Membro do conselho de administração da Americanas, ele é acusado de ter conhecimento das irregularidades contábeis que inflavam os resultados da varejista.

Paulo Alberto Lemann, filho primogênito de Jorge Paulo Lemann, também é alvo da operação. Membro do conselho da Americanas desde 2005, onde atuava como especialista financeiro, Paulo é uma figura discreta mas influente no ecossistema da 3G. Ele foi o fundador do fundo Synergy em 1997, que serviu como base para diversas operações do grupo. Sua inclusão na lista de alvos sugere que os investigadores acreditam que a linhagem familiar dos Lemann tinha acesso direto às informações que o mercado desconhecia.

"A fraude da Americanas não foi um erro de digitação contábil; foi um projeto de engenharia financeira que exigiu, no mínimo, a cumplicidade de quem assinava os cheques e auditava os balanços."

Eduardo Saggioro Garcia é apontado pela PF como o operador direto dos sócios. Fundador da consultoria Visagio, Garcia também é chairman da Americanas e CEO da LTS Investments, o veículo da família Lemann. Sua posição estratégica na intersecção entre o conselho da varejista e os interesses dos controladores o coloca no centro da engrenagem que a investigação busca desmontar.

Importante destacar: Jorge Paulo Lemann, o patriarca do grupo e um dos homens mais ricos do mundo, não é alvo desta fase da operação.

Os banqueiros na mira: quem financiava a ficção contábil

O alcance da Operação Disclosure atinge o coração do sistema financeiro nacional. Executivos de grandes instituições que mantinham relação direta com a companhia foram alvos de busca e apreensão, sob a suspeita de que sabiam das irregularidades e aun assim continuaram financiando a varejista.

No Itaú Unibanco, os alvos são José de Castro Araújo Rudge Júnior, conhecido como Zeca Rudge, e Gustavo Balassiano. Rudge foi vice-presidente do Itaú e acumulou uma série de funções na instituição antes de se tornar sócio da butique de M&A OBB Capital. Balassiano também passou pelo Itaú BBA e atualmente lidera o canal de atacado da XP. A investigação busca entender o papel que ambos desempenharam nas operações de crédito e emissão de debêntures da Americanas.

O Bradesco vê o executivo Carlos Henrique Villela Pedras na lista. Diretor Executivo do banco desde dezembro de 2025, Pedras possui mais de 30 anos de experiência na instituição e ocupava posições estratégicas durante o período em que a fraude se desenrolava.

Já o Santander tem André Juaçaba de Almeida e Alexandre Lian Abdo entre os investigados. Juaçaba é Vice-Presidente Executivo do banco e bancário de carreira, com passagem por diversas áreas de corporate finance. Abdo atua como Sector Head no Santander Banking & Corporate Finance, com foco em operações de atacado e grandes corporações.

A inclusão desses nomes indica que o MPF e a PF acreditam que os bancos não foram meros credores inocentes, mas agentes ativos que, ao subscreverem dívidas e emitirem debêntures, ajudaram a dar aparência de legitimidade a uma estrutura financeira podre.

O bloqueio de R$ 54 bilhões e a resposta do Judiciário

A magnitude do caso se reflete na resposta do Poder Judiciário. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o bloqueio de bens e valores dos envolvidos que pode chegar a impressionantes R$ 54 bilhões.

O valor é proporcional ao estrago causado. A fraude contábil não apenas destruiu a Americanas, mas provocou perdas bilionárias para investidores individuais, fundos de pensão e o próprio mercado de capitais brasileiro, que viu sua credibilidade abalada pela maior manipulação de balanço já registrada no país.

O modus operandi: risco sacado e a farsa da VPC

A investigação busca esclarecer se esses integrantes tiveram participação ativa ou conhecimento prévio do esquema de fraude contábil. Segundo a PF e o MPF, ex-executivos da Americanas montaram uma estrutura para inflar artificialmente os resultados financeiros, ocultando dívidas e manipulando balanços.

Os investigadores apontam que as fraudes se estenderam por vários anos, utilizando-se de operações de "risco sacado" e de contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) que supostamente não possuíam lastro econômico. As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.

O silêncio das defesas e a nota da Americanas

Até a última atualização desta reportagem, as defesas dos acionistas e dos executivos dos bancos não haviam se manifestado. A Americanas, por sua vez, emitiu nota informando que não foi alvo de mandados de busca nesta quinta-feira.

A companhia ressaltou que a ação se refere às fraudes reveladas em 2023 e afirmou que seguirá colaborando com as investigações, classificando-se como "a maior interessada no esclarecimento dos fatos".

Cenário: O fim da blindagem do mercado

O que a 2ª fase da Operação Disclosure sinaliza é o fim da impunidade corporativa de alto escalão no Brasil. Durante anos, o mercado financeiro operou sob a lógica de que os grandes conglomerados eram intocáveis ou "grandes demais para falir".

A fraude da Americanas escancarou que a due diligence dos bancos era, no melhor dos cenários, negligente; no pior, conivente. Se os executivos dos maiores bancos do país são investigados por saberem das fraudes e omitirem o fato para continuar lucrando com a emissão de debêntures e a cobrança de tarifas, a confiança no mercado de capitais brasileiro sofre um abalo estrutural.

O bloqueio de R$ 54 bilhões é a mensagem clara do Judiciário: o patrimônio pessoal e corporativo de quem lucrou com a enganação será confiscado. Resta saber se a Justiça terá fôlego para sustentar essa ofensiva contra a poderosa rede de influência que opera nos conselhos de administração do país, ou se os bilionários e banqueiros conseguirão, mais uma vez, transformar a prisão em um mero custo operacional de seus negócios.

PERFIL DOS ALVOS

ACIONISTAS E OPERADOR:

Carlos Alberto da Veiga Sicupira (Beto Sicupira)

  1. Sócio original da 3G Capital
  2. Um dos homens mais ricos do Brasil
  3. Membro do conselho de administração da Americanas
  4. Participou de aquisições históricas como AmBev, Burger King e Heinz


Paulo Alberto Lemann

  1. Filho primogênito de Jorge Paulo Lemann
  2. Membro do conselho da Americanas desde 2005
  3. Especialista financeiro da companhia
  4. Fundador do fundo Synergy (1997)


Eduardo Saggioro Garcia

  1. Operador direto dos sócios da 3G
  2. Fundador da consultoria Visagio
  3. Chairman da Americanas
  4. CEO da LTS Investments (veículo da família Lemann)


BANQUEIROS:

Itaú Unibanco:

  1. José de Castro Araújo Rudge Júnior (Zeca Rudge): Ex-vice-presidente do Itaú, atual sócio da OBB Capital
  2. Gustavo Balassiano: Ex-Itaú BBA, atual head de atacado da XP


Bradesco:

  1. Carlos Henrique Villela Pedras: Diretor Executivo desde dezembro de 2025, mais de 30 anos de experiência no banco


Santander:

  1. André Juaçaba de Almeida: Vice-Presidente Executivo do banco, bancário de carreira
  2. Alexandre Lian Abdo: Sector Head no Santander Banking & Corporate Finance


Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #fraude americanas #operação disclosure #3g capital #escândalo corporativo