Credibilidade e legitimidade dão o tom ao pleito americano
Por Emanuel Pessoa*

Em Chicago, uma cidade habituada a grandes eventos, encerra-se nesta quinta-feira, 22 de agosto, uma etapa crucial do ciclo eleitoral americano: a Convenção Nacional Democrata (DNC). Visando às eleições de novembro, o evento formaliza a chapa presidencial de Kamala Harris e Tim Walz, marcando uma nova fase para o partido após a desistência do presidente Joe Biden.
Além das severas críticas ao adversário do Partido Republicano, Donald Trump - com seu governo sendo descrito pelo ex-presidente Barack Obama no segundo dia do evento como “anos de arrogância, trapalhadas e caos” – espera-se, a partir dessa convenção, um embate pautado por uma série de questões, que vão desde identidade e aborto até credibilidade.
No tocante às mudanças, Harris tem se saído melhor do que Joe Biden entre os eleitores negros, em parte devido à sua herança jamaicana, que facilita uma maior identificação com ela.
Contudo, a tendência é de que Trump explore o fato de que a candidata, enquanto vice-presidente de Biden, não agiu para reverter as consequências de uma lei controversa que Biden foi o autor quando era senador. A lei que estabelece a regra “three strikes out" impunha penas perpétuas para usuários de drogas, afetando desproporcionalmente afro-americanos, especialmente aqueles que usam crack.
Além disso, Harris enfrenta críticas por sua atuação como procuradora na Califórnia, onde foi acusada de manter prisioneiros além do tempo de suas sentenças, servindo como mão de obra barata. Em contraste, durante a presidência de Trump, os afro-americanos experimentaram o maior crescimento histórico em suas rendas. Com isso, a campanha de Trump usará essas questões para tentar reduzir o impacto positivo que a escolha de Harris exerceu sobre as intenções de votos dos eleitores negros.
Interesses dos eleitores
Embora o Partido Democrata defenda o direito ao aborto e tente colocar a questão em destaque, pesquisas revelam que os quatro principais assuntos para os eleitores são inflação, imigração, saúde e economia, com aborto em quinto lugar apenas. Neste contexto, será desafiador para Harris se distanciar das políticas econômicas de Joe Biden, conhecidas como "Bidenconomics", que são amplamente percebidas como responsáveis pelo aumento da inflação nos Estados Unidos.
Além disso, a proposta de Harris de controlar os preços é fortemente criticada por analistas econômicos, que argumentam que tal medida tende a reduzir a produção e aumentar ainda mais os preços. Em contrapartida, muitos americanos sentem que sua situação financeira era melhor durante o governo Trump.
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Distante de Israel
Ainda que o Partido Democrata conte com figuras proeminentes de origem judaica, como o senador Chuck Schumer, ele tem se distanciado cada vez mais de Israel, com membros, como a congressista Ilhan Omar, expressando críticas não apenas ao governo Netanyahu, mas ao Estado de Israel como um todo. Apesar do apoio genérico da gestão Biden-Harris a Israel, com algumas reservas, essa postura tem gerado insatisfação e divisões internas dentro do partido.
Essa frustração tem alienado, ainda, grande parte do eleitorado judeu, que, apesar de não ser numericamente dominante, tem influência na economia e na sociedade norte-americana. O apoio a Israel é intenso entre os evangélicos, o que complica ainda mais a situação. Em resposta, os Democratas tem tentado equilibrar suas posições com um discurso que não tem sido bem recebido pela base mais radical.
Destaca-se também o ponto de que os democratas afirmam com frequência que a eleição de Trump representa uma ameaça à democracia americana, usando uma argumentação, algumas vezes exagerada, que pode ter incitado violência contra o adversário político.
Apesar das acusações de que o republicano participou da insurreição de 6 de janeiro e tentou impedir a certificação da vitória de Biden, ele se destaca pelo fato de que seu governo não envolveu os EUA em novas guerras, algo inédito nas últimas décadas. Muitos americanos acreditam que o governo Biden-Harris está usando o sistema jurídico para perseguir Trump, conhecido como "lawfare", sugerindo que, se o réu fosse outra pessoa, os processos judiciais não teriam sido iniciados. Outro detalhe é que Harris não foi escolhida diretamente pelos eleitores do Partido Democrata, o que levanta questões sobre sua legitimidade.
De incômodo a altruísta
Há pouco mais de um mês, Biden era visto como um incômodo para as candidaturas dos Democratas, ameaçando prejudicar o desempenho do partido nas eleições. No entanto, agora, os Democratas o reverenciam como um homem público sábio e altruísta, que decidiu não buscar a reeleição para "salvar" a democracia americana. Apesar dessa imagem positiva, até veículos de mídia liberais reconhecem que o declínio cognitivo de Biden já era conhecido por seu círculo interno, que teria ocultado esse fato do público. A maioria do eleitorado acredita que Harris sabia da situação e participou desse acobertamento. Assim, a campanha de Trump pretende explorar essas questões para questionar o déficit de credibilidade de Harris, alegando que ela mentiu sobre a condição mental de Biden.
Esses e outros fatores, que certamente aparecerão ao longo da campanha, definirão o rumo da corrida eleitoral que culminará em novembro.
*Emanuel Pessoa é advogado especializado em Direito Empresarial, Mestre em Direito pela Harvard Law School, Doutor em Direito Econômico pela USP e Professor da China Foreign Affairs University, onde treina a próxima geração de diplomatas chineses.