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Democratas dos EUA acusam Trump de conspirar contra eleição no Brasil

Ala minoritária do Comitê de Relações Exteriores do Senado americano condena tentativa de enviar diplomatas para questionar urnas brasileiras às vésperas do pleito de outubro.

Democratas dos EUA acusam Trump de conspirar contra eleição no Brasil
📷 Anna Rose Layden/Getty Images
📋 Em resumo
  • Dez senadores democratas do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA acusaram o governo Trump de espalhar "teorias da conspiração" sobre as eleições brasileiras de outubro.
  • O episódio decorre da negativa de visto do Itamaraty a dois funcionários do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, que tentariam entrar no Brasil entre 27 e 30 de julho.
  • A crise ocorre em paralelo à prorrogação, por mais 12 meses, da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e à possível reaplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.
  • A campanha de Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, monitora e projeta novas sanções dos EUA contra o STF antes da eleição de outubro.
  • Por que isso importa: a disputa expõe uma tentativa de ingerência direta de Washington no processo eleitoral de um país soberano, com potencial de recalibrar a corrida presidencial brasileira e a própria política externa americana.
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Dez senadores democratas do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos publicaram nesta terça-feira (28/7) uma nota acusando o governo de Donald Trump (Partido Republicano) de propagar "teorias da conspiração" sobre as eleições presidenciais brasileiras marcadas para outubro. Em publicação nas redes sociais, os senadores afirmaram que disseminar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro prejudica a própria democracia norte-americana.

"Propagar teorias da conspiração sobre as eleições não torna os Estados Unidos mais seguros. Isso mina a confiança em nossa democracia internamente e afasta nossos aliados no exterior", diz a mensagem.

"Propagar teorias da conspiração sobre as eleições não torna os Estados Unidos mais seguros. Isso mina a confiança em nossa democracia internamente e afasta nossos aliados no exterior."

A nota foi publicada no perfil oficial da ala democrata do Comitê de Relações Exteriores, administrado pela senadora Jeanne Shaheen, de New Hampshire. Assinam também Chris Coons, Chris Murphy, Tim Kaine, Jeff Merkley, Cory Booker, Brian Schatz, Chris Van Hollen, Tammy Duckworth e Jacky Rosen. Embora integrem o comitê, os dez parlamentares pertencem à bancada democrata, hoje minoria diante dos 12 senadores republicanos que compõem o colegiado — a manifestação reflete a posição da minoria, não do comitê como um todo.

A viagem barrada pelo Itamaraty

O Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado americano, Riley M. Barnes e Samuel Samson, que planejavam visitar o Brasil entre 27 e 30 de julho, antes das eleições presidenciais de outubro. A rejeição dos pedidos ocorreu na sexta-feira, dia 24. O governo brasileiro argumentou que a missão poderia levantar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral e interferir no processo.

Segundo o jornal The Washington Post, os dois oficiais viriam ao país para deslegitimar o sistema eleitoral brasileiro a pedido de Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio. O Departamento de Estado, por sua vez, afirmou que a visita fazia parte da agenda regular e negou qualquer intenção de influenciar as eleições.

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Barnes, nascido em Uvalde, no Texas, formou-se em Ciência Política e ocupa o cargo de subsecretário do Departamento de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho desde 2025. Samson, por sua vez, foi indicado por Trump em janeiro de 2025 e tornou-se um dos principais defensores da reorientação do discurso de direitos humanos para um enfoque em direitos naturais, conforme articulado nos documentos fundadores dos EUA. Sua biografia oficial no Departamento de Estado descreve sua missão como a defesa do "patrimônio civilizacional ocidental" dos Estados Unidos e o avanço da agenda "America first".

Reportagem da ProPublica publicada em julho de 2026 apontou que Samson foi figura-chave no redirecionamento de verbas de direitos humanos do Departamento de Estado para causas de direita, incluindo programas voltados a sul-africanos brancos e movimentos de extrema-direita europeus.

Bastidores de descontentamento interno

Os senadores democratas também divulgaram trechos de reportagem do Washington Post que revelavam descontentamento dentro do próprio governo americano, citando a declaração de um alto funcionário do Departamento de Estado: "Costumávamos usar o poder em situações perigosas para a democracia. Agora enviamos indicados políticos para desacreditar o sistema eleitoral de outro país."

Tarifaço de 50% e o precedente de 2022

O episódio ocorre em meio à escalada de pressão comercial e diplomática de Washington sobre Brasília. O governo dos Estados Unidos confirmou na quarta-feira (28/7) a renovação, por mais 12 meses, da ordem executiva que mantém a sobretaxa de 50% sobre mercadorias brasileiras, com a emergência nacional da Ordem Executiva 14323 permanecendo ativa após 30 de julho de 2026, conforme publicação destinada ao Federal Register e comunicação ao Congresso.

A tarifa original, anunciada em 2025, está ligada ao processo do Brasil contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, julgado por supostamente planejar um golpe após a derrota nas eleições de 2022, motivo citado pela Casa Branca em ordem executiva e comunicado oficial.

Quando Jair Bolsonaro convocou diplomatas estrangeiros antes da eleição de 2022 para expor alegações sem comprovação sobre as urnas, o TSE entendeu que ele havia abusado do cargo e o inelegibilizou até 2030. A tentativa de envio de Barnes e Samson repete, segundo os democratas, o mesmo roteiro — agora promovido pelo próprio governo dos EUA.

Moraes, a Lei Magnitsky e a expectativa de Flávio Bolsonaro

O pacote de sanções aplicado em 2025 incluiu o cancelamento de vistos de autoridades ligadas a Lula e o enquadramento do ministro do STF Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky, o que proibiu cidadãos e empresas americanas de realizar transações envolvendo bens do magistrado e de sua esposa, bloqueando temporariamente eventuais ativos do casal em território americano. O governo dos EUA recuou e retirou Moraes da lista de sancionados em dezembro do ano passado, após período de aproximação diplomática entre Lula e Trump.

Agora, a cúpula da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, aguarda com expectativa a adoção de novas medidas punitivas contra Moraes, projeção que ganhou força após o governo Trump prorrogar a tarifa de 50%.

A tensão em torno do ministro já provocou reação de outras lideranças democratas. As senadoras Elizabeth Warren e Jeanne Shaheen classificaram como "absurdo" o governo Trump ter sancionado um ministro em exercício da Suprema Corte brasileira usando o programa de sanções financeiras destinado a combater abusos graves de direitos humanos, afirmando que a medida mira "um ministro que atualmente supervisiona o julgamento de um ex-presidente acusado de planejar um golpe para desfazer o resultado de uma eleição democrática no Brasil".

"E este movimento vem em cima da tarifa de 50% que Trump impôs ao Brasil pela mesma suposta causa, o que significa que os americanos vão pagar mais caro por carne, café e outros itens essenciais em um momento em que os preços já estão altos" (Warren e Shaheen).

Um padrão que remonta a 2021

A postura crítica da bancada democrata em relação ao Brasil não é nova. Em 2021, o então presidente do Comitê de Relações Exteriores, Bob Menendez, ao lado de Dick Durbin, Ben Cardin e Sherrod Brown, já alertava para o "declínio democrático" sob Jair Bolsonaro e seus "desafios frequentes ao Estado de Direito". Na ocasião, os senadores destacaram que Bolsonaro afirmava, sem provas, que as eleições seriam uma farsa marcada por fraude caso não houvesse reforma substancial do sistema de votação.

Em janeiro de 2023, Menendez e Tim Kaine lideraram outros nove colegas democratas em resolução condenando o cerco ao Congresso, ao Palácio do Planalto e ao STF por apoiadores de Bolsonaro, traçando paralelos com a invasão do Capitólio americano em 6 de janeiro de 2021.

O que está em jogo até outubro

O choque diplomático se soma a outro fator observado por analistas americanos: a disputa chega 70 dias antes do pleito de outubro, com a vantagem de Lula nas pesquisas se ampliando e a tarifa de 25% parecendo ajudar, e não prejudicar, sua campanha — cenário que contraria a aposta original da Casa Branca de que a pressão econômica enfraqueceria o governo petista.

O governo Lula tem enquadrado toda a escalada — tarifas, designações de organização terrorista estrangeira e agora a missão de vistos — como uma tentativa coordenada de inclinar a eleição de outubro em favor do campo bolsonarista. A confirmação, ou não, de novas sanções contra Moraes nas próximas semanas deve funcionar como termômetro de até onde Washington está disposto a ir antes das urnas.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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