Deputados argentinos apresentam repúdio formal a Milei por ataques a Lula
Mais de 20 parlamentares assinam projeto de Jorge Taiana contra falas do presidente argentino em ato do PL em São Paulo; Casa Rosada descarta desculpas
📋 Em resumo ▾
- Deputado Jorge Taiana (Unión por la Patria) apresentou nesta segunda (27/7) projeto de declaração na Câmara argentina repudiando ofensas de Milei a Lula e Alexandre de Moraes.
- Milei chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" e Moraes de "lixo careca" durante convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência.
- Itamaraty convocou o embaixador argentino e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas; Casa Rosada já descartou pedido de desculpas.
- Episódio ocorre em meio a fragilidade política de Milei, após derrota eleitoral em Buenos Aires e escândalo de corrupção envolvendo sua irmã Karina.
- Por que isso importa: a crise expõe o esgarçamento das relações Brasil-Argentina às vésperas das eleições presidenciais brasileiras de 2026 e das legislativas argentinas de outubro.
O deputado argentino Jorge Taiana (Unión por la Patria), ex-chanceler do país, apresentou nesta segunda-feira (27) na Câmara dos Deputados, em Buenos Aires, um projeto de declaração de repúdio às falas do presidente Javier Milei contra autoridades brasileiras. O ex-ministro de Relações Exteriores da Argentina apresentou um projeto de declaração na Câmara Baixa para repudiar as expressões que o presidente Javier Milei pronunciou contra seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sua visita ao Brasil no fim de semana.
O projeto apresentado pelo ex-chanceler foi acompanhado por mais de 23 deputados, entre os quais Eduardo Valdés, Hugo Moyano, Diego Giuliano, Nicolás Trotta, Kelly Olmos, Lorena Pokoik, Blanca Osuna, Caren Tepp, Santiago Roberto, Hugo Yasky, Juan Carlos Molina, Santiago Cafiero, Juan Marino, Fernanda Miño, Guillermo Michel, Jorge Neri Araujo Fernández, Nancy Sand, Victoria Tolosa Paz, Agustín Rossi, Horacio Pietragalla Corti, Carlos Castagneto, Sebastian Galmarini, Roxana Monzón, Claudia Palladino e Adriana Serquis. A movimentação partidária reforça o caráter peronista da iniciativa, articulada por bancada opositora ao governo libertário.
O que disse Milei em São Paulo
O presidente da Argentina fez duas declarações direcionadas a autoridades brasileiras durante o comício que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Senado — na verdade, ao Palácio do Planalto, já que o evento foi a convenção nacional do Partido Liberal (PL) que declarou apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto, realizada em São Paulo no sábado (25).
Ao criticar a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que impediu uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar, Milei chamou o magistrado de "lixo careca". No mesmo evento, também se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "presidiário".
De acordo com apuração da agência EFE, replicada pela Infobae, durante seu discurso na convenção do PL em apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, o mandatário argentino qualificou Lula de "ladrão" e o acusou de "disseminar o socialismo" na América Latina e de ter levado o Brasil a uma crise fiscal.
"Sus declaraciones dañan las relaciones bilaterales y la política exterior argentina, por la manifiesta injerencia en asuntos internos de otro Estado, en violación de los principios de no intervención y autodeterminación de los pueblos" — Jorge Taiana, ao anunciar o projeto.
Traduzindo: o texto de Taiana argumenta que as declarações danificam as relações bilaterais e a política externa argentina, por configurarem ingerência manifesta nos assuntos internos de outro Estado, em violação aos princípios de não intervenção e autodeterminação dos povos. O parlamentar advertiu que a afronta e os agravos ao governo do Brasil em seu próprio país colocam em risco os laços históricos de irmandade, cooperação estratégica e integração que unem as duas nações.
Reação imediata do Itamaraty e do STF
A resposta brasileira veio ainda no fim de semana. O chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para manifestar a repulsa do governo brasileiro e exigir explicações sobre a conduta do mandatário em território nacional. Simultaneamente, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado de volta ao país para consultas por determinação do próprio ministro.
Segundo o Itamaraty, os ataques do chefe de Estado argentino se dirigiram ao chefe de Estado brasileiro, às instituições democráticas — incluindo o Poder Judiciário — e ao próprio povo brasileiro. A pasta enfatizou a gravidade inédita do episódio, ressaltando não haver precedente de um líder estrangeiro atacar dessa forma as lideranças e os poderes constituídos do país anfitrião durante uma visita a solo nacional.
O presidente do STF também reagiu por nota. Edson Fachin criticou as declarações de Milei direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes e afirmou que a manifestação representou uma "referência desrespeitosa": "Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados".
Casa Rosada descarta retratação
A Argentina sinalizou que não recuará. Integrantes do governo argentino descartaram qualquer gesto formal para conter a crise diplomática, e uma fonte da Casa Rosada afirmou categoricamente ao jornal La Nación: "Não haverá pedido de desculpas". Outro auxiliar do governo avaliou que "talvez não dizer mais nada seja uma forma de desescalar a situação" — estratégia que durou poucas horas.
Em vez de recuar, Milei voltou a atacar o Brasil no domingo (26). O presidente argentino acusou o Brasil de financiar uma suposta campanha antiargentina, afirmando que o governo Lula bancou pelo menos 25% de uma campanha de difamação contra a Argentina, impulsionada também pelo México e pelo Partido Democrata dos Estados Unidos. O próprio chefe de Gabinete argentino, Diego Santilli, também fez críticas ao Brasil em entrevistas no domingo.
Repercussão política em ambos os países
Na Argentina, a fala teve repercussão até entre adversários internos de Milei. O governador da província de Buenos Aires e principal opositor do presidente, Axel Kicillof, disse ter visto com "vergonha alheia" o discurso do argentino. No Brasil, as falas de Milei foram repudiadas também pelo presidente do PT, Edinho Silva.
Na esfera econômica, o episódio ganhou outro capítulo: segundo fontes do Ministério da Fazenda, o ministro da Fazenda afirmou que a economia brasileira supera a argentina, rebateu o discurso do presidente vizinho e descartou recessão para o Brasil em 2027.
Antecedentes: uma rivalidade que já dura três anos
O atrito entre os dois presidentes não é novo. Durante a campanha presidencial que o levou à Casa Rosada, em 2023, Milei chamou Lula de "comunista" e "corrupto" e disse que não pretendia se encontrar com ele caso eleito, além de acusá-lo de ajudar na campanha de seu adversário no segundo turno, Sergio Massa.
Em 2024, o desgaste já havia motivado cobrança direta do brasileiro. Em entrevista de junho daquele ano, Lula disse que Milei lhe devia "desculpas" por ter falado "muita bobagem" sobre ele durante a campanha presidencial argentina, mas o mandatário argentino se negou a pedir desculpas em outra entrevista.
Milei fragilizado internamente
A ofensiva verbal contra o Brasil ocorre em momento de vulnerabilidade doméstica para o presidente argentino. Seu governo vem de derrota nas eleições legislativas da província de Buenos Aires e enfrenta desde meados de 2025 um escândalo de corrupção que atinge diretamente sua irmã, Karina Milei, apontada em investigação sobre suposta cobrança de propinas em contratos da Agência Nacional de Deficiência (Andis). O caso resultou em sucessivas derrotas do Executivo no Congresso, inclusive na derrubada de vetos presidenciais a leis de financiamento de universidades e do hospital pediátrico Garrahan.
É nesse cenário de fragilidade parlamentar que a oposição peronista tenta capitalizar politicamente o episódio diplomático, poucos meses antes das eleições legislativas nacionais argentinas.
O que vem a seguir
O projeto de Taiana ainda depende de tramitação nas comissões da Câmara argentina para eventual votação em plenário — mero projeto de declaração não tem efeito vinculante, mas sinaliza desgaste do governo Milei mesmo entre pares legislativos. Do lado brasileiro, o embaixador Julio Bitelli deveria se reunir com o chanceler Mauro Vieira nesta segunda-feira (27) para relatar o estado da relação bilateral.
Resta saber se o desgaste ficará restrito ao campo retórico ou se afetará agendas concretas do Mercosul, bloco do qual Brasil e Argentina são os dois maiores sócios — e cuja pauta de integração já vinha sob pressão desde o início do governo Milei.
Versão em áudio disponível no topo do post.