Deslizamento no Nepal mata 392, deixa 1.500 desaparecidos e expõe fragilidade do Himalaia
Colapso de geleira na fronteira com o Tibete gerou avalanche e enchente repentina. Cientistas alertavam para risco crescente na região há pelo menos um ano
📋 Em resumo ▾
- Uma geleira desabou na encosta da montanha Langtang Lirung, desencadeando uma avalanche de detritos que varreu vilas na fronteira entre Nepal e Tibete
- O balanço de vítimas supera 95 mortos confirmados, com agências internacionais reportando mais de 350 fatalidades; mais de 900 pessoas seguem desaparecidas
- O evento foi inicialmente confundido com um terremoto de magnitude 5,2; o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) corrigiu: o abalo sísmico foi causado pelo colapso glacial
- Autoridades temem uma segunda inundação por conta de um bloqueio natural a montante do rio Bhote Koshi
- Por que isso importa: A tragédia reacende o debate sobre a vulnerabilidade do Himalaia às mudanças climáticas e expõe a fragilidade de sistemas de alerta em uma das regiões mais povoadas e turísticas da cordilheira
Um colapso glacial na encosta da montanha Langtang Lirung, a cerca de 5 quilômetros da fronteira entre o Nepal e o Tibete, desencadeou na manhã desta quarta-feira (26) uma avalanche de detritos e uma enchente repentina que varreu vilas inteiras, destruiu pontes e deixou um rastro de destruição na região do distrito de Rasuwa. O desastre, que ocorreu por volta das 8h37 no horário local (2h52 UTC), é considerado a pior tragédia na área em mais de uma década e expõe a fragilidade crônica de comunidades instaladas em um dos corredores de maior risco geológico do planeta.
O abalo foi tão intenso que sismômetros ao redor do mundo registraram uma magnitude de 5,2, segundo o USGS. Inicialmente reportado como terremoto, o evento foi reclassificado após análise de ondas sísmicas de longo período: a energia liberada veio do desprendimento de milhões de toneladas de gelo, rocha e sedimentos, não de uma falha tectônica. O Centro Alemão de Pesquisa em Geociências (GFZ), por sua vez, registrou um tremor de magnitude 4,4 cerca de sete minutos antes do horário do colapso, mas ainda não foi possível determinar se houve relação de causa e efeito entre os dois eventos.
Como o colapso transformou uma geleira em uma parede de água
A região atingida não é desconhecida da ciência. Imagens de satélite da Planet Labs, analisadas pela Reuters, mostram a encosta verdejante da montanha soterrada sob uma mancha marrons de detritos. O professor Dan Shugar, geólogo da Universidade de Calgary, identificou que a parte inferior de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e desabou no fundo do vale, 1.200 metros abaixo.
O que transformou a avalanche em uma enchente devastadora foi a quantidade de água liberada. Ao contrário do senso comum, geleiras no Himalaia não são blocos maciços de gelo: elas funcionam como reservatórios, com camadas de água líquida armazenada entre o gelo e a rocha.
Somado a isso, a região vivia dez dias de chuva persistente durante a monção de verão — período de precipitação intensa que vai de junho a setembro no subcontinente indiano. A combinação de água em suspensão na geleira e precipitação acumulada criou as condições para que o colapso se transformasse em um fluxo de detritos e água capaz de varrer tudo pelo caminho.
"A gente tinha um registro de chuva anterior que pode ter feito acumular água nessas geleiras. Isso transbordou e desceu com muita intensidade", afirma Aderson Farias, sismólogo e coordenador do laboratório sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O balanço de vítimas e o drama dos desaparecidos
Os números ainda são preliminares e divergem entre fontes oficiais e agências internacionais. A Reuters reportou pelo menos 392 mortos confirmados.
Já agências como a ABC News e a BBC citam balanços que superam 392 fatalidades, com mais de 1.500 pessoas desaparecidas. A disparidade reflete a dificuldade de acesso à região e a destruição de infraestrutura de comunicação.
Entre os desaparecidos, há pelo menos 384 viajantes de diferentes nacionalidades, segundo a autoridade de turismo do Nepal: 105 indianos, 93 nepaleses, 12 britânicos, 3 norte-americanos e cerca de 8 sul-coreanos, segundo a agência Yonhap.
A passagem de fronteira de Gyirong, ponto estratégico de comércio entre Nepal e China, foi obliterada. Casas, estradas, pontes e projetos de energia foram arrastados pelo rio Bhote Koshi, que deságua no Trishuli e segue para a Índia como rio Gandak.
"Com um bloqueio ainda presente rio acima, na fronteira entre o Nepal e a China, as autoridades alertam que uma segunda inundação pode ocorrer", afirmou Qianggong Zhang, chefe de riscos climáticos do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas, com sede em Katmandu.
Resgate travado e alerta internacional
As operações de resgate enfrentam obstáculos logísticos severos. Helicópteros não conseguiram pousar nas áreas mais atingidas de Syapru Besi e Timure devido às condições do terreno. No lado chinês, 574 socorristas foram mobilizados, mas uma camada de 1,5 metro de sedimentos bloqueia as vias de acesso ao porto de Gyirong, exigindo pelo menos quatro horas de travessia para chegar aos sobreviventes.
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, ordenou a evacuação de áreas baixas e mobilizou policiais e militares.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, ofereceu assistência humanitária e alertou os estados de Uttar Pradesh e Bihar, que recebem as águas dos rios que descem do Himalaia.
A tragédia que a ciência já previa
O desastre de 26 de agosto não é um evento isolado. Em julho de 2025, uma inundação provocada pelo rompimento de um lago glacial atingiu a mesma bacia do Bhote Koshi, matando 9 pessoas e deixando 24 desaparecidas.
Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da província chinesa de Sichuan já havia mapeado 86 massas rochosas instáveis e 12 áreas de queda de pedras ao longo da rodovia G216, na região de Gyirong.
Outra análise identificou 55 lagos glaciais na bacia a montante da Ponte da Amizade, alertando para o risco de novos rompimentos em cenários de terremotos ou eventos climáticos extremos.
A comunidade científica já aponta para as mudanças climáticas como fator agravante. O professor Vikram Gupta, da Universidade de Sikkim (Índia), confirmou à Reuters que uma parte substancial da ponta da geleira desabou, provavelmente arrastando rochas e sedimentos.
Cientistas do EOS (American Geophysical Union) e da Universidade de Calgary observam que as geleiras do vale de Langtang estavam em acelerado processo de recessão e que a neve derretida nas 24 horas anteriores ao colapso expôs grandes áreas de gelo.
"A raiz deste desastre já é conhecida, embora haja muita desinformação. A interpretação de que um terremoto teria sido o gatilho é provavelmente um erro; o sinal sísmico é quase certamente a avalanche de rocha e gelo, e não um evento tectônico", escreveu Dave Petley, um dos principais especialistas mundiais em deslizamentos, no blog da EOS.
O Himalaia como termômetro de um risco global
O colapso na Langtang Lirung reacende uma questão incômoda: o Himalaia abriga a maior concentração de gelo fora dos polos, mas seus sistemas de monitoramento glacial e de alerta precoce permanecem desarticulados em relação à escala da ameaça. O Nepal, país encaixado entre duas potências e dependente do turismo de aventura, não tem infraestrutura para conter desastres que se originam a mais de 5 mil metros de altitude e atingem comunidades em questão de minutos.
A tragédia também coloca em xeque a lógica de desenvolvimento da região. Estradas, passagens de fronteira e projetos hidrelétricos foram erguidos em um corredor que a ciência já havia mapeado como de alto risco. A pergunta que fica não é se outro colapso vai acontecer, mas quando — e se haverá tempo para evacuar as próximas vilas. Enquanto isso, o bloqueio a montante do Bhote Koshi mantém autoridades e moradores em alerta máximo.
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