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Do INSS às apostas: a terceira frente que mira Nelson Wilians

Operação Arena cumpre 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados, com quebra de sigilos e sequestro de até R$ 1,1 bilhão. Advogado já era investigado por fraudes no INSS e por esquema de R$ 3,8 bilhões em créditos falsos de ICMS

Do INSS às apostas: a terceira frente que mira Nelson Wilians
📷 WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
📋 Em resumo
  • A Operação Arena, deflagrada nesta quinta-feira (13), é a terceira frente de investigações contra o advogado Nelson Wilians em menos de um ano
  • A PF cumpre 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados, além de quebra de sigilos telemático e bancário e sequestro de até R$ 1,1 bilhão
  • A apuração mira a suposta ocultação de recursos de jogos de azar e apostas esportivas, com uso de estruturas societárias no exterior
  • Anne Wilians, esposa e sócia do advogado, e a advogada Mayra de Paula, apontada como "sócia" nas fraudes, também estão entre os alvos
  • Por que isso importa: O caso revela um padrão de suspeitas que transcende áreas distintas do direito — da Previdência ao tributário, das apostas à lavagem de dinheiro — e coloca em xeque a separação entre atuação jurídica e suposta operação financeira ilícita
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A Polícia Federal cumpre, na manhã desta quinta-feira (13), 17 mandados de busca e apreensão contra o advogado Nelson Wilians e outros investigados ligados a um grupo empresarial suspeito de utilizar estruturas societárias e financeiras no exterior para ocultar a origem e a destinação de recursos obtidos com a exploração de jogos de azar e apostas esportivas. As medidas, expedidas pela 4ª Vara Federal da Paraíba, atingem endereços nos estados da Paraíba, São Paulo, Sergipe, Rio de Janeiro e Paraná, e incluem ainda quebra de sigilo telemático e bancário e o sequestro de até R$ 1,1 bilhão em bens e valores.

A ação — batizada de Operação Arena — é conduzida pela PF em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), a Receita Federal e a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Segundo a corporação, os investigados poderão responder, conforme a participação individual de cada um, pelos crimes de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e outros delitos contra o Sistema Financeiro Nacional.

A terceira frente de um mesmo nome

A Operação Arena não é a primeira vez que Nelson Wilians vê sua residência e seus escritórios vasculhados por agentes federais. Em 15 de julho deste ano, endereços ligados ao seu grupo econômico foram alvo da Operação Distrato, deflagrada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (CIRA-SP) — órgão formado pela Secretaria da Fazenda, pelo Ministério Público estadual e pela Procuradoria-Geral do Estado. Naquela ocasião, a investigação apurava um esquema de comercialização fraudulenta de créditos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que, segundo as autoridades, teria causado prejuízo superior a R$ 3,8 bilhões aos cofres públicos.

Antes disso, em setembro de 2025, o advogado já havia sido ouvido na CPMI do INSS como testemunha — e saiu dela como "provável investigado", nas palavras do relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). O escrutínio recaía sobre sua relação com o empresário Maurício Camisotti, apontado como um dos principais operadores do esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões. Relatórios de inteligência financeira citados na CPMI apontavam movimentações de R$ 4,3 bilhões envolvendo o escritório de Wilians, incluindo cerca de R$ 28 milhões em transações diretas com empresas e pessoas ligadas a Camisotti.

Em março de 2026, o relatório final da CPMI chegou a pedir o indiciamento de Wilians e de sua esposa, Anne Wilians, pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.

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"O silêncio do senhor Nelson ou suas frases são tão ensurdecedores quanto sua culpa moral. E a sociedade precisa dar nome a essa postura: o advogado dos bilhões que enriqueceu enquanto aposentados empobreciam."

— Senador Jorge Seif (PL-SC), durante depoimento de Wilians na CPMI do INSS, em setembro de 2025

Como funcionava o esquema de apostas segundo a PF

A Operação Arena tem como alvo central a PixBet, empresa sediada na Paraíba. Segundo a investigação, o grupo teria utilizado a PixStar, apontada como empresa de fachada localizada em Curaçao, no Caribe, para movimentar recursos provenientes das apostas. Os investigadores identificaram pagamentos entre as duas companhias.

A dinâmica, conforme apurado, funcionava assim: recursos gerados no Brasil eram enviados ao exterior por intermédio de empresas de compensação financeira e chegavam à PixStar, em Curaçao. Na sequência, valores retornavam ao país como pagamentos por supostos serviços, amparados por notas fiscais. Para a PF, o mecanismo buscava conferir aparência de legalidade ao dinheiro e direcioná-lo a empresas e pessoas físicas no território nacional.

Nesse contexto, Nelson Wilians é investigado por suspeita de atuar como operador financeiro do grupo — participando da movimentação e ocultação de recursos obtidos de forma ilícita. A relação profissional do advogado com a PixBet não é nova: em 2025, ele figurou como advogado da empresa em mandado de segurança ajuizado contra ato da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda que havia suspendido as atividades da companhia.

Os alvos da família e da "sócia" nas fraudes

A Operação Arena não atinge apenas Nelson Wilians. A advogada Anne Wilians, esposa, sócia e sócia dele no escritório, também figura entre os alvos das buscas. Em Londrina, no Paraná, a apuração inclui ainda a advogada Mayra de Paula, sediada na cidade e apontada pelos investigadores como "sócia" de Wilians nas supostas fraudes.

A conexão com Mayra de Paula já havia surgido na Operação Distrato, de julho. À época, o escritório Nelson Wilians Advogados (NWADV) emitiu nota afirmando que "a gestão das operações mencionadas era de responsabilidade exclusiva do escritório De Paula Advogados & Consultoria Jurídica, sem qualquer vínculo societário ou de controle com o NWADV". O comunicado acrescentava que, "ao identificar inconsistências, o escritório encerrou a parceria e comunicou seus clientes".

A mesma linha de defesa foi reiterada nesta quinta-feira. O NWADV afirmou que recebeu as autoridades e prestou "integral colaboração", colocando-se à disposição para esclarecimentos e reiterando compromisso com a legalidade, a ética e o devido processo legal.

O esquema de créditos falsos de ICMS

Para entender a gravidade do cenário, é preciso recapitular a segunda frente. A Operação Distrato apurava a comercialização de créditos de ICMS apresentados a empresas como legítimos instrumentos de planejamento tributário. Na prática, segundo o CIRA-SP, os créditos estavam vinculados a empresas inaptas, massas falidas e operações sem lastro econômico. Os intermediários do esquema recebiam honorários que chegavam a 70% dos valores negociados.

A Secretaria da Fazenda de São Paulo identificou ao menos 752 empresas que teriam utilizado os créditos irregulares. Foram abertas 874 Ordens de Serviço Fiscal para analisar cerca de 9.960 lançamentos suspeitos, envolvendo mais de 850 empresas no total.

"As suas respostas evasivas mostram uma ausência de explicação sobre coisas simples. Chega aqui como uma testemunha e sai daqui como um provável investigado pela CPMI."

— Deputado Alfredo Gaspar (União-AL), relator da CPMI do INSS, após depoimento de Wilians em setembro de 2025

O que une as três frentes

A questão que emerge do conjunto das investigações não é apenas a possível participação de Wilians em esquemas isolados. É o padrão: em todas as frentes, o que se repete é a suspeita de que o advogado teria utilizado — ou permitido que seu escritório fosse utilizado como — estrutura de legitimização de operações financeiras de alto risco. Seja na intermediação de descontos previdenciários, na oferta de créditos tributários inexistentes ou, agora, na movimentação de recursos de apostas esportivas, o denominador comum é a aparência de legalidade conferida por pareceres jurídicos, contratos e operações societárias.

A diferença, desta vez, é que a Operação Arena não é uma investigação estadual nem uma comissão parlamentar. É uma operação federal, com parceria entre PF, MPF, Receita Federal e órgão regulador de apostas, com mandados expedidos por uma vara federal fora de São Paulo — o que indica que a apuração transcendeu a esfera local e ganhou dimensão nacional.

O encerramento do ciclo — ou o início de outro

Nelson Wilians nega irregularidades em todas as frentes. Não há, até o momento, condenação em nenhuma das investigações. Mas a sequência de operações em menos de 12 meses — com mandados de busca em sua casa, em seu escritório e em endereços ligados a seus sócios — coloca em evidência uma pergunta incômoda: até onde vai a linha entre a advocacia empresarial de alto padrão e a operação financeira ilícita disfarçada de consultoria jurídica?

Se a Justiça Federal da Paraíba encontrar elementos que corroborem as suspeitas da Operação Arena, o advogado poderá enfrentar não apenas uma terceira investigação, mas uma acusação criminal que une, em um mesmo processo, recursos de apostas, estruturas no exterior e lavagem de dinheiro. E, desta vez, o valor em jogo — R$ 1,1 bilhão sob sequestro — fala por si.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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