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“Escravas” e “kengas”: Vorcaro pode ter financiado rede internacional de prostituição, revelam mensagens

Mensagens obtidas pelo UOL mostram o ex-controlador do Banco Master organizando, segundo a reportagem, uma estrutura de recrutamento de mulheres estrangeiras para suas festas. PF investiga

“Escravas” e “kengas”: Vorcaro pode ter financiado rede internacional de prostituição, revelam mensagens
📷 Reprodução
📋 Em resumo ▾
  • Mensagens obtidas pelo UOL indicam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, financiou desde 2023 uma estrutura de recrutamento de mulheres — muitas estrangeiras, algumas refugiadas — para eventos privados com autoridades e convidados.
  • A Polícia Federal abriu inquérito em maio para apurar possível cafetinagem e irregularidades na contratação; no Brasil, prostituição não é crime, mas lucrar com o trabalho de terceiros nesse contexto é.
  • Os dois principais citados como operadores do esquema, Leonardo Serrano e Diogo Batista, não responderam aos contatos do UOL; Felipe Nisti, apontado como vendedor de uma agência de modelos a Vorcaro, negou o acerto.
  • Por que isso importa: o caso soma mais uma frente de investigação contra Vorcaro, já sob apuração da PF por outros esquemas financeiros ligados ao colapso do Banco Master, e levanta suspeita de exploração de mulheres em situação de vulnerabilidade, incluindo refugiadas de guerra.
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Mensagens obtidas pelo UOL indicam que o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, financiou, a partir de 2023, uma estrutura de recrutamento de mulheres — muitas estrangeiras — para eventos privados que reuniam autoridades e convidados do banqueiro. Segundo a reportagem, o esquema envolvia intermediários, uma casa noturna em São Paulo e investimentos de ao menos R$ 4,3 milhões. Vorcaro é investigado pela Polícia Federal (PF) desde maio, em inquérito aberto para apurar possível cafetinagem e irregularidades na contratação dos serviços.

É importante fixar o que está provado e o que é apuração: no Brasil, prostituição em si não é crime — mas cafetinagem (terceiro lucrando com o trabalho sexual de outra pessoa) e manter estabelecimento para explorar a atividade são crimes previstos em lei. Segundo o UOL, as mensagens apontam exatamente nesse sentido. Já a hipótese de tráfico internacional de pessoas é mais grave e exige, segundo a própria reportagem, comprovação de violência ou coação — elemento que as autoridades ainda apuram se existiu.

Quem são os citados e o que dizem

As mensagens, segundo o UOL, mostram Vorcaro não apenas como consumidor dos serviços, mas selecionando mulheres, dando ordens e investindo diretamente no negócio. Os dois principais apontados como operadores do esquema são Leonardo Serrano, dono de uma empresa de eventos nos Estados Unidos, e Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo que, segundo a reportagem, recebia R$ 120 mil por mês de Vorcaro. Nenhum dos dois respondeu aos contatos do UOL até a publicação da matéria original.

“Chefe manda e a gente executa” — mensagem atribuída a Diogo Batista, segundo o UOL.

A estrutura: agência de modelos como fachada

Segundo as mensagens, a ideia de usar uma agência de modelos como canal de recrutamento partiu do grupo de Diogo Batista. Em outubro de 2023, o empresário Tiago Polo teria explicado a Vorcaro que “a ideia da agência seria uma forma de ajustar as meninas indiretamente”, oferecendo duas opções: a Allure Eventos, de Felipe Nisti Cataldo, e a agência internacional Ford Models, que pediria cerca de US$ 6,7 milhões pelo negócio.

Em dezembro de 2023, Vorcaro teria recebido um contrato para comprar 50% da Allure por R$ 1,5 milhão. Diogo Batista confirmou a assinatura em janeiro de 2024 (“Assim estamos blindados!”, teria escrito). Um comprovante encontrado no celular de Vorcaro mostra o pagamento da última parcela por Pix de uma empresa ligada ao banqueiro, a Super Empreendimentos, para Nisti.

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Procurado pelo UOL, Felipe Nisti disse que Vorcaro se interessou pelo negócio, mas que a tratativa não avançou — negou o acerto descrito nas conversas e afirmou que os interlocutores de Vorcaro é que teriam de explicar a transação. Sobre o Pix recebido, Nisti disse ter uma empresa de TI e um imóvel alugado, e que “precisaria verificar” o motivo da transferência de R$ 500 mil para sua conta.

Após os pagamentos, segundo o UOL, Vorcaro passou a tratar a agência como canal de recrutamento para suas festas, chegando a pedir que fossem buscar mulheres no Sul do país para “cadastramento”.

As refugiadas ucranianas

Um dos pontos mais sensíveis das mensagens, segundo o UOL, envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos que teria chegado ao grupo de Vorcaro em outubro de 2023, durante uma festa de Halloween, junto com outras estrangeiras. Em novembro daquele ano, o banqueiro avisou que não pagaria mais hospedagem nem passagem de quem quisesse permanecer no Brasil — e ela ficou.

As mensagens mostram Diogo Batista relatando a Vorcaro, em novembro de 2023, que a jovem “não pode voltar pra Ucrânia pq os pais dela acham melhor não”, e sugerindo incluí-la na agência “pra lavar as mãos”. Em dezembro, ao ser perguntado quantas estrangeiras ainda restavam no grupo, Diogo teria respondido que havia apenas uma, “sem pra onde ir”, relatando que a cidade dela natal estava sendo bombardeada e que a mãe da jovem enviava áudios dos ataques.

Esse é um ponto que a matéria precisa marcar com clareza: as próprias mensagens, tal como relatadas pelo UOL, descrevem uma mulher em situação de vulnerabilidade extrema — refugiada de guerra, sem rede de apoio no Brasil — sendo mantida dentro de uma estrutura que, segundo a reportagem, lucrava com sua presença em eventos. É exatamente esse tipo de cenário que orienta a hipótese de exploração investigada pela PF, embora a configuração do crime de tráfico de pessoas, como já dito, dependa de prova de coação.

Em abril de 2024, segundo as mensagens, Vorcaro teria decidido mandar embora as mulheres da Ucrânia e da Rússia, mas voltou atrás diante da informação de que o país da jovem seguia em guerra, determinando fazer uma “seleção” presencial de quem ficaria.

O caso da jovem de 19 anos

As mensagens também descrevem, segundo o UOL, uma festa organizada por Vorcaro e Diogo Batista em fevereiro de 2024 para uma jovem que completava 19 anos — maior de idade, portanto, mas tratada no grupo com um apelido infantilizado. Nas conversas, Vorcaro teria chegado a demonstrar preocupação com a idade dela antes do evento, escrevendo que a considerava “muito nova” e que estava “preocupado” — mensagem que, segundo a própria lógica da apuração, pode ser interpretada tanto como indício de consciência sobre uma situação problemática quanto como parte do contexto que a PF investiga.

O Painel optou por não reproduzir aqui a totalidade das mensagens de teor sexual e jocoso trocadas sobre esse episódio, por não acrescentarem fato relevante à apuração além do que já está registrado: que o evento ocorreu, que houve manifestação prévia de preocupação com a idade da jovem por parte do próprio Vorcaro, e que, segundo o UOL, ele cobriu despesas do evento, incluindo um presente avaliado em R$ 50 mil.

As viagens internacionais

Segundo o UOL, a logística das viagens internacionais — Paris, Londres, Roma e Dubai — ficava a cargo de Leonardo Serrano, por meio de sua empresa SL Consulting, sediada na Flórida. Serrano reservava voos, hotéis e repassava recursos às mulheres levadas aos eventos.

Em uma festa em Londres, de abril de 2024, que reuniria autoridades de Brasília segundo a reportagem, as mensagens indicam que 99 mulheres teriam sido levadas para trabalhar no evento. O UOL localizou 21 faturas da SL Consulting, de abril de 2024 a março de 2025, somando cerca de US$ 70 milhões, emitidas para a Moriah Asset, gestora de Belo Horizonte, sob a descrição de “eventos, hospitalidade, hospedagem e fretamentos” — valores que, segundo a reportagem, Vorcaro repassava ao financeiro do Banco Master.

Já as despesas das mulheres no Brasil, segundo as mensagens, eram faturadas para outra empresa ligada a Vorcaro, a Prime You.

Vale registrar uma tensão que aparece nas próprias mensagens, segundo o UOL: em fevereiro de 2024, Serrano teria tentado se distanciar de acusações mais graves atribuídas ao grupo de Diogo Batista, escrevendo “eu tô traficando é nada”, e voltou a reclamar, em outubro daquele ano, que não se responsabilizaria pelas mulheres enviadas pelo promoter.

O que ainda não se sabe

Até a publicação desta matéria, não há manifestação pública da defesa de Daniel Vorcaro especificamente sobre a acusação de financiamento de rede de prostituição e cafetinagem — lacuna que o Painel não pode preencher com as informações disponíveis. Também não há decisão da Justiça sobre o inquérito aberto pela PF em maio, nem indiciamento formal de qualquer um dos citados nesta matéria.

Fica igualmente em aberto, pelas próprias informações do UOL, se a situação das mulheres estrangeiras configurou o crime de tráfico de pessoas — que exige coação ou violência comprovada — ou se os fatos, caso confirmados, se limitam ao crime de cafetinagem, de natureza distinta.


🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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