Painel Rondônia

Falhas em laudo reduzem em R$ 10 milhões valor de hospital em Porto Velho

Tribunal aponta falhas metodológicas em laudo da Prefeitura e reduz valor justo do imóvel em R$ 10,6 milhões; gestor tem 15 dias para corrigir documento sob pena de multa

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Em resumo

  • O TCE-RO identificou inconsistências técnicas no laudo de avaliação do imóvel do futuro Hospital Universitário de Porto Velho, adquirido por R$ 39,3 milhões pela Prefeitura

  • Auditoria recalculou o valor justo em R$ 28,6 milhões, apontando superfaturamento de terrenos (R$ 1.796/m² vs. R$ 980/m²) e equipamentos (R$ 7,1 mi vs. R$ 3,6 mi)

  • Metodologia usada pela Secretaria de Saúde utilizou custo de prédios comerciais para avaliar estrutura hospitalar, ignorando especificidades de alta complexidade

  • Por que isso importa: A decisão afeta uma parceria estratégica entre Município, UNIR e Governo Federal, com impacto direto nos cofres públicos e na implantação de serviço essencial de saúde na capital rondoniense


O Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCE-RO) determinou que a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Velho (SEMUSA) revise urgentemente o laudo de avaliação do imóvel adquirido para o futuro Hospital Universitário, após auditoria identificar falhas metodológicas que inflaram o valor da transação em mais de R$ 10 milhões. A decisão monocrática, proferida pelo conselheiro Paulo Curi Neto, fixa prazo de 15 dias para correção sob pena de multa ao secretário Jaime Gazola Filho.

“O laudo revelou-se insuficiente para valorar adequadamente unidade hospitalar em funcionamento”

O que a auditoria encontrou: números que não fecham

A Prefeitura de Porto Velho firmou contrato de aquisição do antigo Hospital das Clínicas em 18 de novembro de 2025, pelo valor de R$ 39.300.000,00, com o objetivo de implantar unidade universitária em parceria com a Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH). Contudo, a análise técnica do TCE-RO recalculou o valor justo do imóvel em R$ 28.616.839,51 — uma redução de 31%.

As inconsistências identificadas pela Secretaria-Geral de Controle Externo (SGCE) do Tribunal foram detalhadas em três eixos principais:

  1. Terrenos superfaturados: o laudo municipal estimou o metro quadrado em R$ 1.796,22, enquanto a auditoria, com amostragem de mercado ampliada, calculou R$ 980,99 — diferença de aproximadamente R$ 3,8 milhões apenas nesta rubrica

  2. Equipamentos superavaliados: itens médicos avaliados em R$ 7,1 milhões pela Prefeitura foram recalculados em R$ 3,6 milhões pelo TCE, devido à ausência de comprovação sobre idade real e estado de conservação

Erro metodológico estrutural: a Secretaria de Saúde utilizou o Custo Unitário Básico da Construção Civil (CUB) referente a prédios comerciais para avaliar edificação hospitalar de alta complexidade, ignorando especificidades como redes de gases medicinais, blindagem de salas e sistemas elétricos redundantes.

Por que a metodologia importa mais do que o preço

A decisão do conselheiro Paulo Curi Neto vai além da simples divergência numérica. O relatório técnico acolhido pelo relator destaca que o objeto da aquisição “consiste em unidade hospitalar em funcionamento, caracterizada como ativo operacional, cujo valor não se limita à soma de seus componentes físicos”.

Para ilustrar a fragilidade da abordagem municipal, o TCE-RO comparou os custos por metro quadrado com outras obras hospitalares no estado:

A auditoria ressaltou que, embora o valor por metro quadrado do Hospital Universitário pareça inferior ao do Novo HEURO (Hospital de Urgência e Emergência de Rondônia), o problema central reside na métrica equivocada: utilizar parâmetro de edificação comercial para avaliar infraestrutura de saúde especializada gera distorção que pode comprometer tanto a transparência da despesa quanto a sustentabilidade do projeto.

“A infraestrutura física representa parcela reduzida do custo total do empreendimento. No caso do HEURO, por exemplo, o custo de construção foi apenas 10% do total investido”

🔓 Acesso temporário liberado

O Painel Político está passando por uma fase de expansão para trazer ainda mais profundidade e exclusividade às análises que você acompanha por aqui. Como não trabalhamos com publicidade online (adsense e outras plataformas) apresentamos textos limpos, sem janelinhas pulando. Ajude-nos a manter esse visual clean.

Informamos que este conteúdo (e nossos relatórios especiais) estará aberto para todos os leitores apenas até o dia 28/03. A partir desta data, o acesso integral será exclusivo para os nossos assinantes Premium.

O contexto político e institucional da decisão

A aquisição do Hospital das Clínicas integra um projeto de longo prazo que envolve três esferas de governo. O plano é que o Município de Porto Velho assuma a propriedade do imóvel, enquanto o Governo Federal, por meio da EBSERH, custeie a operação — incluindo salários de profissionais, insumos e gestão. Essa divisão de responsabilidades torna a avaliação patrimonial inicial crítica: um valor inflado na compra do imóvel pode comprometer a alocação futura de recursos operacionais federais.

O processo PCE nº 03777/25, que tramita no TCE-RO, não identificou, nesta fase preliminar, indícios de dolo ou má-fé na conduta dos gestores municipais. O relatório técnico registra que “não se identificam, em princípio, indícios de que o valor pactuado represente, por si só, risco ao erário municipal”. Contudo, a exigência de revisão metodológica reflete o papel preventivo do controle externo: garantir que decisões de alto impacto fiscal sejam lastreadas em critérios técnicos robustos e auditáveis.

O que acontece agora: prazos, riscos e próximos passos

O secretário municipal de Saúde, Jaime Gazola Filho, tem 15 dias, contados da ciência da decisão, para encaminhar ao Tribunal documentação comprobatória das medidas adotadas para corrigir o laudo. A revisão deve ocorrer “mediante a utilização de metodologia compatível com a natureza do ativo”, sob pena de aplicação de multa e possível suspensão do processo de aquisição.

Caso a Secretaria de Saúde opte por manter a metodologia original ou apresente justificativas insuficientes, o TCE-RO poderá escalar a fiscalização para outras fases do projeto, incluindo a análise dos contratos operacionais futuros com a EBSERH. Para o Painel Político, este episódio ilustra um desafio recorrente na gestão pública brasileira: a tensão entre a urgência política de anunciar investimentos e a necessidade técnica de fundamentar decisões com rigor metodológico.

Uma pergunta que fica para além do laudo

A decisão do TCE-RO sobre o Hospital Universitário de Porto Velho reacende um debate estrutural: como equilibrar agilidade na implantação de serviços essenciais com o rigor necessário na aplicação de recursos públicos? Enquanto a Secretaria de Saúde prepara a revisão do laudo, o projeto do hospital — estratégico para a formação médica e o atendimento de alta complexidade na região Norte — aguarda definição que pode impactar não apenas os cofres municipais, mas a própria viabilidade operacional da parceria com o Governo Federal.

O prazo de 15 dias é curto. A metodologia, complexa. E o interesse público, inegociável.


SEO — Metadados

Palavras-chave:

  1. TCE-RO Hospital Universitário Porto Velho

  2. laudo avaliação hospital Porto Velho TCE

  3. Paulo Curi Neto decisão hospital

  4. Secretaria Municipal de Saúde Porto Velho

  5. sobrepreço hospital público Rondônia

  6. auditoria TCE-RO imóvel saúde

  7. parceria UNIR EBSERH Porto Velho

  8. controle externo saúde pública

Hashtags: