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FBI investiga a AFA por suspeita de lavado de dinheiro nos EUA

Em meio à Copa do Mundo, agentes federais americanos tomam depoimentos sobre centenas de milhões movimentados pela federação argentina através de bancos dos Estados Unidos.

FBI investiga a AFA por suspeita de lavado de dinheiro nos EUA
📷 Montagem
📋 Em resumo
  • FBI e Departamento de Justiça dos EUA apuram se operações financeiras da AFA, presidida por Claudio "Chiqui" Tapia, configuram lavado de dinheiro ou fraude bancária.
  • O empresário Guillermo Tofoni, denunciante original do caso, prestou depoimento sobre o esquema que envolve a empresa TourProdEnter LLC.
  • A companhia, ligada ao produtor Javier Faroni, recebia 30% de toda a receita internacional da AFA descontados impostos, além de comissão de 10% sobre despesas logísticas.
  • A AFA também responde a processos na Justiça argentina por fraude fiscal e retenção indevida de contribuições previdenciárias.
  • Por que isso importa: o caso expõe como entidades esportivas internacionais podem usar o sistema financeiro americano para movimentar somas bilionárias sem fiscalização efetiva, tema que ultrapassa fronteiras e interessa a órgãos de controle em todo o continente.
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O Federal Bureau of Investigation (FBI) e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos deram início a uma etapa decisiva na apuração sobre as operações financeiras da Associação do Futebol Argentino (AFA) em território americano. A informação, revelada pelo jornal argentino La Nación, ganhou repercussão justamente no momento em que a seleção argentina disputa as quartas de final da Copa do Mundo sediada nos Estados Unidos. Fiscais e agentes do FBI radicados em Washington e Miami analisam se determinadas operações vinculadas com a AFA podem configurar delitos como lavado de ativos ou fraude por meio do sistema bancário estadunidense. A apuração, segundo o mesmo veículo, começou em 2025 e busca determinar se alguma das operações da AFA nos Estados Unidos representa crime, com foco especial no mecanismo de cobrança de contratos por centenas de milhões de dólares com patrocinadores e outras empresas.A empresa que centralizava os contratos internacionais

No centro da investigação está a TourProdEnter LLC, sociedade que administrava a cobrança de contratos comerciais internacionais da AFA. O interesse das autoridades americanas pelas operações financeiras da entidade teve um antecedente meses antes do início desta investigação preliminar: de acordo com o contrato, vigente até dezembro deste ano, a empresa de Faroni e Gillette recebeu 30% de todas as receitas internacionais da AFA, já descontados os impostos, durante os últimos quatro anos. Além disso, cobrou comissão equivalente a 10% das despesas vinculadas à logística dessas operações. Os valores movimentados são vultosos. Segundo documentos financeiros, Faroni e sua esposa movimentaram mais de 260 milhões de dólares referentes à AFA através de cinco bancos, entre eles Citibank, JP Morgan e Bank of America. Parte da apuração se concentra em uma fração específica desse fluxo: os investigadores detectaram cerca de 57 milhões de dólares distribuídos entre sociedades e beneficiários sem justificativa econômica clara, entre os quais figurariam firmas ligadas ao tesoureiro da AFA, Pablo Toviggino, e seu entorno familiar.O depoimento de Guillermo Tofoni e a origem do material bancário

Um dos nomes centrais na apuração é o do empresário Guillermo Tofoni, identificado pela imprensa argentina como um dos principais divulgadores do "AFAGate", termo que se refere à rede de empresas, financeiras e dirigentes do futebol argentino que teriam esvaziado os cofres da AFA. Segundo o levantamento do La Nación, ele participou de uma reunião por videoconferência que durou cerca de três horas com fiscais e agentes federais. A origem dos documentos bancários que hoje embasam a investigação remonta a uma disputa comercial anterior. Tofoni promovia reclamações judiciais decorrentes da rescisão do contrato que mantinha com a AFA para a organização de amistosos internacionais da seleção argentina, e foi nesse contexto que obteve, por meio de procedimentos de "discovery" autorizados por tribunais americanos, boa parte da documentação bancária que depois deu origem às investigações jornalísticas. Consultado pela reportagem, Tofoni preferiu não confirmar nem desmentir a reunião reservada a partir de Miami."As medidas de investigação por si só não determinam responsabilidade nem culpabilidade", afirmou Tomás Regalado, representante da AFA na América do Norte, segundo o La Nación.

Quem conduz a apuração do lado americano

A investigação preliminar é encabeçada pelos promotores federais Patrick Gushue, Christopher Ting e Michael Berger. Gushue integra a Unidade de Integridade Bancária do Departamento de Justiça, especializada em crimes financeiros; Ting tem experiência em investigações de fraude corporativa; enquanto Berger já atuou em casos internacionais de lavagem de ativos, incluindo o processo contra o ex-controlador do Equador, Carlos Ramón Polit Faggioni. A presença de um promotor com histórico em casos de corrupção transnacional sinaliza o tipo de arcabouço jurídico que pode ser aplicado caso a apuração avance para uma fase formal.

Um antecedente que ficou sem consequências em 2024

O caso já havia passado pelo radar americano antes, sem resultar em ação criminal. Em setembro de 2024, o Ministério de Segurança argentino, então conduzido por Patricia Bullrich, transmitiu a funcionários americanos informações sobre possíveis focos de risco vinculados à entidade esportiva, depois de uma reunião com Tofoni; na época, porém, os agentes do FBI concluíram que o conflito entre Tofoni, Tapia e a AFA não apresentava elementos suficientes para justificar a abertura de uma investigação criminal nos Estados Unidos. O cenário mudou apenas depois que o La Nación revelou, desde o fim de dezembro passado, um entramado de operações financeiras, bancárias e societárias mais amplo.Paralelo com processos na Justiça argentina

A pressão internacional sobre a cúpula da AFA não vem isolada. A entidade também é investigada pela Justiça argentina, onde um tribunal de segunda instância confirmou, em 26 de junho, o processamento tanto da organização quanto de seu presidente, Claudio Tapia, e do tesoureiro, Pablo Toviggino, em uma causa que apura fraude fiscal; os processamentos haviam sido decretados em 30 de março pela retenção indevida de contribuições previdenciárias de mais de 19 bilhões de pesos, o equivalente a cerca de 13 milhões de dólares. A investigação começou a partir de uma denúncia da Direção-Geral Impositiva, órgão vinculado à Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro argentina. Para viajar aos Estados Unidos e acompanhar a Copa do Mundo, Tapia precisou de autorização judicial.A defesa institucional e o cenário à frente

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Diante da repercussão, a AFA optou por uma resposta pública. Horas antes da citação de Tofoni, o Interamerican Institute for Democracy organizou em Miami o seminário "Futebol, corrupção e justiça", centrado no chamado "AFAgate"; a AFA respondeu enviando ao encontro Tomás N. Regalado e o advogado Mariano Lizardo, que rejeitaram as acusações, destacaram que as investigações não implicam culpa e sustentaram que qualquer controvérsia deve ser resolvida na Justiça argentina. Até o momento, não foram apresentadas acusações formais contra a AFA, Claudio Tapia ou qualquer um dos dirigentes mencionados. A apuração segue, portanto, em fase preliminar — mas com potencial de se transformar em um dos episódios mais sensíveis da história recente do futebol sul-americano. Enquanto a seleção argentina persegue mais um título mundial dentro de campo, a arquitetura financeira que sustenta seus contratos comerciais é dissecada, linha por linha, nos escritórios federais de Washington e Miami. O desfecho pode redefinir não apenas o futuro de Tapia à frente da AFA, mas o padrão de fiscalização internacional sobre entidades esportivas que operam bilhões de dólares fora do alcance de seus países de origem.

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