Fechamento do Ueno Bank gera “semiparalisação” no comércio paraguaio; prisões e renúncia agravam crise
O fechamento do Ueno Bank, no Paraguai, já afeta o comércio do país — dois terços das transações eletrônicas no varejo passavam pelo banco — enquanto a crise leva a prisões de dirigentes e à renúncia do presidente do Banco Central
📋 Em resumo ▾
- A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou para uma “semiparalisação” do comércio: dois terços das transações eletrônicas em grandes redes de varejo eram feitas por contas do Ueno Bank
- O Banco Central do Paraguai (BCP) colocou o Ueno em processo de resolução na madrugada de terça-feira (3/11), após o índice de solvência cair abaixo do mínimo exigido
- O Ministério Público paraguaio determinou a prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes do banco, incluindo o presidente Juan Manuel Gustale Cardoni e o fundador Federico Vázquez Villasanti
- O presidente do BCP, Carlos Carvallo, renunciou nesta terça-feira em meio à crise — ele já havia presidido o próprio Ueno até 2023
- O governo garante depósitos de até 228 milhões de guaranis (cerca de US$ 37,4 mil), com prazo de 15 dias para devolução; 97% dos depositantes estariam dentro desse limite
- Por que isso importa: o Ueno processava mais de 3 milhões de transações por dia em um país de 6,1 milhões de habitantes, e sua paralisação já reverbera no comércio de fronteira com o Brasil, especialmente em Ciudad del Este.
O fechamento do Ueno atingiu diretamente empresas que passaram a depender do banco digital para suas vendas. A Asimcopar, associação de importadores e comerciantes do Paraguai, alertou para uma “semiparalisação” do mercado: segundo a entidade, duas em cada três operações eletrônicas realizadas em grandes redes de varejo do país passavam por contas do Ueno. A dimensão do problema fica clara em números: o banco processava, em média, mais de 3 milhões de transações diárias em um país de cerca de 6,1 milhões de habitantes, e atendia quase 3 milhões de clientes — por volta de 63% da população adulta paraguaia.
O impacto já preocupa também o comércio de fronteira com o Brasil: analistas apontam que operações em Ciudad del Este, polo comercial que depende fortemente de brasileiros, podem sentir os primeiros efeitos da paralisação, assim como empresas ligadas a operações de maquila entre os dois países. Para tentar amenizar o problema do lado do consumidor, a estatal paraguaia de saneamento (Essap) informou que clientes com pagamentos automáticos ou feitos via Ueno não terão o abastecimento de água cortado por falta de pagamento durante a crise.
Prisões e renúncias
O Ministério Público do Paraguai determinou a prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes do Ueno na própria terça-feira (3/11), um dia depois do início da resolução bancária. Entre os detidos estão Juan Manuel Gustale Cardoni, presidente do banco, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador e primeiro vice-presidente do conselho de administração — ligado ao Grupo Vázquez, acionista controlador da instituição. Segundo o promotor Francisco Cabrera, a investigação foi aberta a partir de denúncia apresentada pelo próprio Banco Central.
No mesmo dia, o presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo em meio à repercussão da crise. A situação tem um componente sensível: Carvallo presidiu o próprio Ueno até agosto de 2023, antes de assumir o Banco Central — o BCP já havia afirmado à Reuters que ele se absteve de todas as decisões relacionadas ao banco, sem conflito de interesse. Um dia antes, na quinta-feira (29/10), outra conselheira do BCP, a economista Carmen Marín, também havia renunciado, sem justificativa divulgada — renúncia que ocorreu no mesmo dia em que o próprio Ueno anunciou um plano de capitalização de US$ 100 milhões, já tentando reagir ao escrutínio sobre suas contas.
O que vem antes da intervenção
A crise do Ueno não surgiu do nada: nas semanas anteriores, documentos supostamente vazados do Banco Central já apontavam excesso de empréstimos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, levando a uma queda nos bônus globais do banco e à promessa da diretoria de um reforço de capital. A intervenção veio na madrugada de terça-feira, quando o BCP constatou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido, após ajustes nos balanços patrimoniais.
O governo garantiu os depósitos de até 228 milhões de guaranis (aproximadamente US$ 37,4 mil) por cliente, com prazo de 15 dias para a devolução dos valores — segundo as autoridades, 97% dos depositantes do Ueno estariam dentro desse limite de garantia. O Banco Central afirma que a situação é isolada e que o restante do sistema financeiro paraguaio permanece saudável.
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