Flávio deixa a Argentina de madrugada; Trump diz que aprova entrada
O governo argentino confirma que o senador entrou pela ponte de Foz do Iguaçu na terça à noite e embarcou com a família num jato particular. Ele descumpriu a ordem do STF
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- A Migraciones, órgão de migração do governo argentino, confirmou que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou na Argentina às 22h50 de terça (27/10), pela Ponte Tancredo Neves, com a esposa e as duas filhas.
- A família embarcou às 23h30 num jato particular, que decolou de Puerto Iguazú à 0h22 desta quarta (28/10). O plano de voo indica Guayaquil, no Equador, e o destino final seriam os EUA.
- Donald Trump disse que aprovaria a entrada de Flávio e da família. O Departamento de Estado vai emitir vistos, mas não falou em asilo.
- Lula disse que a saída é “vergonhosa”.
- Por que isso importa: Flávio deixou o Brasil descumprindo a ordem do STF que o proibia de sair do país. Ainda não há mandado de prisão contra ele.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou a América do Sul na madrugada desta quarta-feira (28/10) num jato particular que decolou de Puerto Iguazú, na Argentina, rumo aos Estados Unidos. A Dirección Nacional de Migraciones, órgão oficial do governo argentino, confirmou que Flávio entrou no país pela fronteira com Foz do Iguaçu na noite de terça-feira (27). É a primeira confirmação oficial da saída do senador, derrotado no 2º turno da eleição presidencial no domingo (25).
O passo a passo, segundo a Migraciones
Segundo a Migraciones, citada pelo jornal argentino Perfil:
- 22h50 de terça (27/10): Flávio cruzou a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, na província de Misiones;
- ele estava com a esposa e as duas filhas, e os quatro apresentaram documentos de viagem válidos;
- a Migraciones afirmou que “não existiam impedimentos legais” para a entrada da família na Argentina;
- 23h30: a família embarcou num voo particular;
- 0h22 de quarta (28/10): o avião decolou do aeroporto de Puerto Iguazú.
Por que a Argentina tinha negado antes: na manhã de terça, a Migraciones informou que não havia registro da entrada de Flávio. Segundo o Perfil, as duas informações não se contradizem: a entrada só aconteceu na noite de terça, horas depois da primeira resposta.
Os documentos: os passaportes de Flávio foram cancelados pela PF na terça. Pelas regras do Mercosul, porém, brasileiros podem entrar na Argentina apenas com a carteira de identidade. Isso explica como ele cruzou a fronteira sem passaporte. A ordem do STF, no entanto, proibia a saída do Brasil, qualquer que fosse o documento.
O avião
O jato é o mesmo apontado desde a madrugada de terça pelo portal Infobae: um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, da empresa argentina Baires Fly S.A. Ele tinha chegado a Puerto Iguazú vindo de Buenos Aires na noite de segunda e ficou mais de 24 horas parado no aeroporto.
Segundo o Infobae e a emissora C5N:
- havia oito pessoas a bordo, entre elas a família Bolsonaro;
- o plano de voo indicava uma escala em Guayaquil, no Equador, para reabastecer, numa rota que evita o espaço aéreo brasileiro;
- o destino final seriam os Estados Unidos. A cidade de chegada não foi informada oficialmente.
Trump: “Acho que são boa gente”
Questionado por jornalistas na base aérea de Andrews, em Maryland, se Flávio poderia entrar nos EUA com a família e receber asilo, o presidente Donald Trump respondeu:
“Bem, eu aprovaria. Acho que são boa gente.”
— Donald Trump, segundo o Infobae (tradução livre)
Trump também disse que tinha ouvido falar que Flávio estava na Argentina, mas que não sabia onde ele estava. Sobre a eleição brasileira, disse que o resultado final “está bem”, mas que a forma como se chegou a ele foi “terrível”.
Na terça, um funcionário do Departamento de Estado já tinha dito que os EUA vão emitir vistos para Flávio e a família. Visto não é asilo político. O governo americano não confirmou a concessão de asilo, que foi mencionada apenas pelo empresário mexicano Simón Levy, sem provas.
Lula: “vergonhoso”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comentou a saída na noite de terça, durante a comemoração do aniversário dele, que fez 81 anos.
“Esse ato de sair do Brasil é vergonhoso.”
— Lula, presidente da República
Lula também disse que “o Brasil é a segunda pátria” de Flávio e lembrou que, no último debate, desafiou o adversário a abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico.
A situação jurídica de Flávio
- Descumpriu duas ordens do STF: não entregou os passaportes no prazo, que terminou às 11h de terça, e saiu do país, o que o ministro Alexandre de Moraes tinha proibido.
- Não é foragido, por enquanto. Até a publicação, não havia mandado de prisão contra ele. Deputados do PT pediram a Moraes a prisão preventiva e a inclusão do nome dele no alerta vermelho da Interpol, mas não houve decisão.
- É investigado, não acusado. Flávio responde a inquéritos no STF sobre suposta lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e sobre o financiamento do filme Dark Horse. Ele não foi indiciado, denunciado nem condenado e nega irregularidades.
Se Moraes decretar a prisão, Flávio passa a ser foragido. O Brasil poderia então pedir a extradição aos EUA, mas a decisão final caberia ao governo americano, que já sinalizou que vai recebê-lo.
O outro lado
Flávio Bolsonaro não se manifestou sobre a saída. Segundo a C5N, o coordenador da campanha dele, Rogério Marinho (PL-RN), disse que a campanha ficou surpresa. Na terça de manhã, Marinho tinha negado a saída. O Painel Político procurou a assessoria do senador e aguarda resposta.
Depois de mais de 24 horas de versões desencontradas, a história tem agora um registro oficial: hora, ponte, documentos e decolagem, tudo confirmado pelo governo argentino. Flávio repetiu o caminho do pai, que foi para a Flórida depois da derrota de 2022, mas com uma diferença importante: Jair saiu do país sem nenhuma proibição judicial, e Flávio saiu contra uma ordem expressa do Supremo. A próxima decisão é de Alexandre de Moraes. Se ele mandar prender, o senador eleito pelo Rio de Janeiro passa a ser foragido sob a proteção declarada do presidente dos Estados Unidos, e a crise deixa de ser só judicial para virar diplomática.
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