Jorge Messias deve deixar AGU após rejeição histórica no Senado
Ministro comunica a Lula decisão de sair do cargo; bastidores revelam articulações de Moraes, Alcolumbre e Dino, com o caso Banco Master no centro da disputa
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- Jorge Messias informou ao presidente Lula que deixará a Advocacia-Geral da União após ter indicação ao STF rejeitada por 42 votos contra e 34 a favor
- Ministro disse não ter condições de lidar com autoridades que atuaram contra sua nomeação, incluindo membros do STF e do Congresso
- Alexandre de Moraes e Davi Alcolumbre são apontados como principais articuladores da derrota, com motivações ligadas ao caso Banco Master
- Flávio Dino também integra a lista de desafetos, após disputa pela vaga de Rosa Weber em 2023
- Por que isso importa: a saída de Messias expõe fissuras profundas no governo e reacende tensões entre os Poderes em ano pré-eleitoral
Jorge Messias (ministro-chefe da Advocacia-Geral da União) comunicou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que deixará o comando da pasta após o Senado rejeitar sua indicação para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). A conversa ocorreu no Palácio da Alvorada, poucas horas depois da derrota histórica no plenário da Casa, com 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis.
Segundo fontes que acompanharam o diálogo, Messias disse a Lula que não terá condições de lidar diretamente com integrantes do Congresso e do Supremo que trabalharam ativamente contra sua nomeação. É função inerente ao advogado-geral da União despachar frequentemente com ministros do STF e manter interlocução com senadores, além de deputados e outras autoridades da República.
Em bom português, Messias quis dizer ao presidente que não quer ver mais essas pessoas nem se estiverem pintadas de ouro. Segundo relatos feitos sob reserva, Lula pediu a Messias que pensasse melhor sobre a ideia de deixar a Advocacia-Geral da União durante o feriado e o final de semana. Mas aliados próximos dizem que o ministro segue resoluto."Jesus Cristo nos ensinou o valor da gratidão. Agradeço profundamente aos meus amigos @jaqueswagner e @ottoalencar, e aos 32 senadores que me apoiaram incondicionalmente ao longo deste processo. Que Deus os abençoe grandemente", escreveu Messias em rede social.
Agradecimento público e bastidores da derrota
A manifestação de gratidão de Messias nesta sexta-feira contrasta com os bastidores tensos que levaram à primeira rejeição de um indicado ao Supremo pelo Senado desde 1894, durante o governo Floriano Peixoto. O episódio impôs a Lula uma humilhação histórica: o petista torna-se o único presidente, além do marechal, a ter um nome barrado pela Casa para a Corte Suprema.
A derrota foi orquestrada, segundo governistas, pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-Amapá), que ficou contrariado com a indicação de Messias e passou a trabalhar contra o ministro. Alcolumbre nega publicamente ter atuado contra, mas relatos de parlamentares indicam que o senador do Amapá contatou colegas de centro e oposição ao longo do dia da votação, pedindo votos contrários.
A articulação encontrou eco especialmente nas bancadas do MDB, PP e PSD, partidos que integram a base governista mas mantêm autonomia decisória. No PP, a inflexão decisiva ocorreu no dia da votação, quando Alcolumbre consolidou o apoio da bancada. No MDB, a leitura no Planalto é que a articulação explorou insatisfações pré-existentes com a escolha de Lula."Especulação de perdedor", reagiram fontes do MDB às acusações de traição.
Mágoas, traições e a lista de desafetos
A lista de desafetos de Messias e as traições que o Palácio do Planalto tenta mapear são extensas. Mas as principais mágoas são com o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, e os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, seu ex-colega de Esplanada no governo Lula.
Além de Alcolumbre, apontado como principal operador da derrocada de Messias e do presidente da República, Moraes articulou ativamente contra o advogado-geral da União. A motivação: temer que sua ida para o Supremo empoderasse demais o relator do inquérito do Banco Master, André Mendonça, que fez forte campanha pela candidatura de Messias.
Moraes acionou emissários para mandar recados a senadores que tinham processos no Supremo ou alguma ligação com seus aliados no Congresso para que votassem "não". Já Dino e Messias têm péssima relação desde que os dois disputaram a preferência de Lula na indicação para a vaga de Rosa Weber. O então ministro da Justiça e ex-governador do Maranhão venceu a briga e acabou nomeado para a Corte, mas nunca perdoou o empenho do advogado-geral pela cadeira.
A articulação de Moraes e o fantasma do Banco Master
Embora tenha sido um dos principais alvos do bolsonarismo na sabatina de Messias, Alexandre de Moraes trabalhou contra o advogado-geral para enfraquecer Mendonça. Caberá ao colega de plenário a homologação da delação premiada do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A colaboração pode trazer implicações para o próprio Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, que fechou um contrato com o Master que previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais ao longo de três anos.
Além disso, o ministro até hoje não aceitou a decisão do presidente Lula de preterir o senador Rodrigo Pacheco (Partido Socialista Brasileiro-Minas Gerais) em favor do chefe da Advocacia-Geral da União, que ele tentou emplacar junto com Alcolumbre. A atuação de Moraes também impôs a Lula uma amarga derrota, já que o Senado não enterrava uma indicação para o Supremo desde 1894.
Em entrevista ao portal ICL no início do mês, Lula revelou ter aconselhado o ministro a se declarar suspeito no julgamento do caso Banco Master para que o escândalo de Vorcaro não "enterrasse sua biografia".
O presidente disse ainda que Moraes "obviamente sabe" que o caso Banco Master prejudica a imagem do Supremo e que é preciso dar "uma explicação convincente para a sociedade", e não "jogar debaixo do tapete achando que o povo vai esquecer".
Rumores de recomposição ministerial
Desde o início da manhã da última quinta-feira circula em Brasília o rumor de que Messias poderia substituir o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, que até agora não teria dito a que veio. A ideia também chegou a ser apresentada a Messias. Mas, questionado por interlocutores ao longo do dia, o ministro da Advocacia-Geral da União negou ter sido sondado.
Homem de confiança de Lula, Messias integra o governo desde a posse do petista. Sua possível saída da pasta abre espaço para uma recomposição que pode servir tanto para acalmar ânimos no Congresso quanto para reforçar a base de sustentação do governo em um momento delicado, às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.
Quem apoiou, quem se absteve e quem mudou de posição
A votação secreta dificultou o mapeamento exato das adesões, mas governistas tentam reconstruir o placar com base em declarações prévias. O núcleo ideologicamente alinhado ao governo — Partido dos Trabalhadores, Partido Democrático Trabalhista e Partido Socialista Brasileiro — reúne 18 votos. Outros 13 senadores haviam declarado apoio público a Messias antes da votação, incluindo sete do MDB, quatro do PSD, além de nomes do PP e PSDB.
Na hipótese de fidelidade total, o placar chegaria a 31 votos — ainda insuficiente para os 41 necessários. O governo, porém, avalia que houve migração de votos no momento da decisão, impulsionada por articulações de bastidores e por gestos simbólicos, como o abraço entre Jaques Wagner (Partido dos Trabalhadores-Bahia) e Davi Alcolumbre após a proclamação do resultado.
Críticos apontaram o tom amigável do líder do governo com Flávio Bolsonaro (Partido Liberal-Rio de Janeiro), adversário de Lula nas eleições, no plenário momentos antes do placar ser revelado. O comportamento gerou contrariedade entre governistas que acompanhavam a votação.
O que muda para o governo e para o STF
A rejeição de Messias e sua consequente saída da Advocacia-Geral da União têm implicações que vão além da vaga no Supremo. Primeiro, expõe a fragilidade da articulação política do Planalto em um momento sensível. Segundo, sinaliza ao Supremo que o Senado pode exercer com mais rigor seu papel de freio e contrapeso nas indicações presidenciais. Terceiro, força o governo a repensar estratégias de nomeação para cargos de alto escalão.
A possível saída de Messias também pode abrir espaço para uma nova dinâmica na relação entre Executivo e Judiciário, especialmente em temas sensíveis como o inquérito do Banco Master, a regulamentação de plataformas digitais e a defesa de políticas públicas no STF.
Por que o leitor deve acompanhar os desdobramentos
A derrota de Messias não é apenas um episódio isolado. Ela reflete tensões estruturais entre os Poderes, disputas internas na base aliada e a complexidade de governar em um sistema político fragmentado. Para quem acompanha os rumos da política nacional, os próximos movimentos do Planalto — especialmente em relação à nova indicação para o Supremo e à condução da agenda institucional — serão termômetros essenciais da capacidade de governabilidade até 2026.
O último capítulo desta história ainda está sendo escrito. Resta saber se o governo optará por um gesto de força, uma negociação discreta ou uma pausa estratégica. Uma coisa é certa: o Senado acabou de enviar uma mensagem clara. Cabe ao Planalto decidir como responder.
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