Poder & Bastidores

Lancha, Rolex e Covaxin: o lobby com Flávio Bolsonaro na pandemia

Apuração da revista piauí reconstitui encontro do senador com lobistas da vacina indiana e garotas de programa no Lago Paranoá no mesmo dia em que o Brasil somava 76 mil mortos

Lancha, Rolex e Covaxin: o lobby com Flávio Bolsonaro na pandemia
📷 Miguel Schincariol/AFP
📋 Em resumo ▾
  • Apuração da revista piauí reconstitui passeio em lancha no Lago Paranoá em 17 de julho de 2020 reunindo Flávio Bolsonaro e cúpula da Precisa Medicamentos.
  • Encontro com garotas de programa de São Paulo e presente de relógio de luxo coincidiu com marco de 76 mil óbitos por Covid-19 no país.
  • Executivos da Precisa buscavam abrir portas no governo federal para contrato bilionário da vacina Covaxin, com doses mais caras que Pfizer e AstraZeneca.
  • Desdobramentos posteriores incluíram intermediação de reunião do grupo no BNDES e defesas públicas da empresa pelo parlamentar na CPI.
  • Por que isso importa: O episódio materializa o abismo entre a tragédia sanitária nacional e a engrenagem subterrânea de lobby que cercava a aquisição de insumos estratégicos no Palácio do Planalto.
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Em 16 de julho de 2020, o consórcio de veículos de imprensa registrava a marca de 1.299 mortos por Covid-19 em 24 horas, elevando o total de vítimas fatais no Brasil a 76.822. Enquanto o país enfrentava a escalada do colapso hospitalar e o Ministério da Saúde travava a compra de imunizantes globais, os bastidores do poder em Brasília operavam em outra frequência. Uma apuração da revista piauí revelou que, exatamente naquele período, a cúpula da Precisa Medicamentos organizou uma operação de lazer privativo no Lago Paranoá para aproximar-se do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A empresa, então interessada em fechar contrato com o governo federal para distribuir a vacina indiana Covaxin, financiou o transporte de garotas de programa de São Paulo a Brasília em voo executivo, aluguel de embarcação e consumo de bebidas para recepcionar o parlamentar, que compareceu ao encontro acompanhado de seu ex-sócio Alexandre Santini.

A logística subterrânea e o mimo de luxo no Paranoá

A reconstrução jornalística aponta que, na noite de 16 de julho, o jatinho executivo decolou de Congonhas com os empresários Danilo Berndt Trento (diretor institucional da Precisa), Francisco Maximiano (dono da empresa), o operador de viagens Raphael Barão e três garotas de programa contratadas na capital paulista. No dia seguinte, 17 de julho, o grupo embarcou em uma lancha de 20 metros no Lago Paranoá.

Flávio Bolsonaro e Santini integraram o passeio náutico, que incluiu paradas em restaurante flutuante e isolamento em cabine privativa. De acordo com os relatos obtidos pela reportagem, ao término da confraternização na proa, Danilo Trento retirou do próprio pulso um relógio da marca Rolex e o entregou ao senador, que deixou o deck portando a peça de luxo.

O roteiro repete um padrão identificado em outras apurações sobre os bastidores da capital. Conforme investigações jornalísticas paralelas, o uso de encontros reservados em embarcações no lago — associados a revistas preventivas e retenção de aparelhos telefônicos de terceiros — servia como engrenagem informal para consolidar pontes de influência com agentes públicos e autoridades em processos de alta repercussão financeira.

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"A Precisa Medicamentos já era uma fornecedora do governo, mas via a oportunidade de aumentar seus laços (...) Para azeitar a perspectiva de bons negócios, Danilo Trento e Francisco Maximiano decidiram promover um passeio cujo objetivo era agradar ao primogênito."
— Trecho da reportagem investigativa da revista piauí.

O contrato da Covaxin e a blindagem na CPI

O interesse econômico em torno do senador não era fortuito. A Precisa Medicamentos figurava como representante formal do laboratório Bharat Biotech para o fornecimento de 20 milhões de doses da Covaxin ao Ministério da Saúde. O negócio projetava o custo de 80 reais por dose — patamar consideravelmente superior aos cerca de 56,30 reais da Pfizer e aos 18 reais da AstraZeneca —, despertando alertas técnicos internos que culminaram em denúncias de servidores e na instauração da CPI da Pandemia.

No âmbito da comissão parlamentar, instaurada em 2021, Flávio Bolsonaro atuou ostensivamente na blindagem do grupo econômico, chegando a parabenizar publicamente diretoras da empresa e a ironizar as suspeitas levantadas pela oposição sob o argumento de que nenhum desembolso financeiro havia sido concluído antes do cancelamento do contrato.

O relatório final da CPI, contudo, apontou indícios consistentes de favorecimento e recomendou formalmente o indiciamento de 78 pessoas, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.

Abertura de portas no BNDES e conexões preexistentes

A influência decorrente das tratativas no Paranoá estendeu-se para além da seara sanitária. Apenas três meses após o encontro náutico, em outubro de 2020, o senador viabilizou e participou diretamente de uma reunião virtual entre Maximiano e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, com a finalidade de tratar de linhas de financiamento público para uma subsidiária privada de telecomunicações.

O histórico de aproximação também registrava passagens prévias: em janeiro de 2020, Flávio e Danilo Trento cumpriram agendas simultâneas em Las Vegas, nos Estados Unidos, onde o parlamentar viajou com diárias custeadas pelo Senado sob justificativa de atração de investimentos para resorts e cassinos. Na CPI, Trento exerceu direito ao silêncio quando questionado se esteve na companhia do congressista na ocasião.

O retrato consolidado pela reportagem não trata apenas de relações privadas ou deslizes de decoro em ambiente reservado. Ele expõe a mecânica de promiscuidade entre interesses corporativos bilionários e o núcleo decisório do poder central no momento mais agudo de uma crise humanitária nacional. Enquanto a sociedade contava seus mortos nas estatísticas públicas da saúde, o acesso ao orçamento do Estado era construído a bordo de passeios recreativos e relógios de ouro no espelho d’água de Brasília.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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