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Lula sobre Lulinha: "não usarei cargo" e filho "terá que provar" inocência

Presidente reage à abertura de inquérito da PF contra o filho por suspeita de tráfico de influência na liberação de cannabis medicinal

Lula sobre Lulinha: "não usarei cargo" e filho "terá que provar" inocência
📷 divulgação
📋 Em resumo
  • STF autorizou nesta quinta-feira (30/7) novo inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suspeita de corrupção e tráfico de influência
  • PF investiga se ele atuou junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência em favor da World Cannabis, empresa ligada ao lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS
  • Lula disse em podcast que "não haverá nenhum privilégio" e que "não vou utilizar o cargo para proteger" o filho
  • Defesa de Lulinha classificou a decisão como fruto de "perplexidade", argumentando que o processo não existiria se ele não fosse filho do presidente
  • Por que isso importa: o caso testa o discurso de Lula sobre isonomia da Justiça às vésperas da eleição de 2026 e reabre a discussão sobre uso político de investigações envolvendo familiares de autoridades
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda nesta quinta-feira (30/7), que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, terá de provar sua inocência no inquérito da Polícia Federal que passou a investigá-lo por suspeita de corrupção e tráfico de influência. O petista afirmou que "não haverá nenhum privilégio" no julgamento do filho e que "eu jamais pedirei para um delegado ou para um juiz não fazer as coisas corretas". Completou dizendo que, "se for julgado, ele virá para cá, não vai ficar escondido não" e que "não vou utilizar o cargo para proteger".

A fala ocorre no mesmo dia em que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a abrir formalmente o procedimento contra Lulinha. A abertura do inquérito investiga o empresário por supostos crimes de corrupção e tráfico de influência no Ministério da Saúde.

O que apura o novo inquérito

A Polícia Federal pediu ao STF a abertura de um inquérito para investigar suspeitas envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, sendo que a solicitação feita na sexta-feira 24/7 foi distribuída na quarta-feira 29/7 ao ministro André Mendonça, que decidiu pela instauração no dia seguinte. Os investigadores querem apurar os crimes de corrupção e tráfico de influência na autorização da comercialização de cannabis medicinal, em programas ligados ao Ministério da Saúde.

O caso nasceu dentro de outra investigação. A PF remeteu o caso à presidência do Supremo por considerar que os fatos não são relacionados à Operação Sem Desconto, que envolve fraudes no INSS e que está sob relatoria de Mendonça. O requerimento foi analisado por Alexandre de Moraes, que substituía Edson Fachin na presidência da corte em regime de plantão, e no mesmo dia o ministro pediu um parecer da PGR, que afirmou que as quebras de sigilo apresentadas pelos investigadores "revelaram a prática de crime" sem relação com a Operação Sem Desconto. Sorteado o novo relator, coube a Mendonça decidir sobre o caso — e ele próprio foi o escolhido.

A Polícia Federal deverá agora verificar se houve influência indevida sobre decisões do Ministério da Saúde ou do gabinete presidencial, além de apurar eventual participação de agentes públicos, estabelecendo se os repasses e contatos identificados tinham finalidade lícita. O inquérito deixou a Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários e passou a correr na Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores, e Mendonça aumentou a supervisão sobre o caso.

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Os personagens: lobista preso, empresária e a World Cannabis

Lulinha tem atuação no ramo em parceria com a empresária Roberta Luchsinger, sua amiga, e o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Antunes é apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de fraudes nos descontos de aposentadorias e está preso desde setembro do ano passado, negando qualquer irregularidade por meio de sua defesa.

"Em depoimento à CPI do INSS no ano passado, ele disse ser um empresário cuja prosperidade é 'fruto de trabalho honesto e dedicado'" (segundo apuração do O Tempo/Folha).
A empresa apontada como beneficiada, a World Cannabis, chamou a atenção do órgão de controle financeiro antes mesmo do inquérito contra Lulinha. Constituída em abril de 2023 com capital social de R$ 10 mil, a World Cannabis registrou uma receita de R$ 4,28 milhões em 2024, sem identificação clara da origem dos recursos, em operação considerada atípica pelo Coaf.

A PF também identificou pagamentos do Careca do INSS para Roberta Luchsinger que somam R$ 1,5 milhão. Um ex-funcionário da empresa foi além nas suspeitas: um ex-funcionário de uma empresa ligada ao lobista afirma que os supostos pagamentos ao filho mais velho do presidente teriam sido feitos no exterior, passando por uma empresa de maconha medicinal em Portugal. Esse relato, de Edson Claro, chegou à CPMI do INSS, tendo se reunido com o deputado Alfredo Gaspar (União-AL), relator da comissão, e com o senador Carlos Vianna (Podemos-MG), presidente do colegiado.

O rastro que leva ao gabinete presidencial

O pedido de abertura de inquérito também cita contatos entre os alvos e servidores, inclusive do gabinete de Lula. Segundo apuração da coluna Tácio Lorran, do Metrópoles, o lobista fez lobby no Ministério da Saúde junto a Roberta Luchsinger, estando ambos no mesmo dia e horário na secretaria-executiva da pasta, então comandada por Swedenberger Barbosa, o Berger, hoje chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do Gabinete Pessoal do Presidente da República.

A defesa de Fábio Luís já havia admitido um episódio anterior ligado ao lobista. Em março, a defesa de Fábio Luís admitiu que Careca pagou as despesas de uma viagem que o filho do presidente Lula fez a Portugal em 2024. Roberta Luchsinger, por sua vez, disse que apresentou Lulinha ao Careca do INSS antes da deflagração da Operação Sem Desconto e que o filho do presidente não prestou qualquer serviço relacionado à regulação de canabidiol nem foi remunerado por isso, direta ou indiretamente, negando ainda ter repassado qualquer valor a ele.

Defesa fala em "perplexidade"

A reação do entorno jurídico de Lulinha foi de contestação. O advogado Marco Aurélio de Carvalho ressaltou que a defesa recebeu a decisão de Mendonça com "absoluta tranquilidade", mas também com "perplexidade", apontando que "se o Fábio não fosse filho do presidente Lula, o inquérito anterior já teria sido arquivado e este sequer havia sido instaurado, porque não há elementos que justifiquem".

O procedimento não é o primeiro a mirar o empresário. Mendonça já havia autorizado as quebras de sigilo fiscal, bancário e telemático de Lulinha em janeiro de 2026, mas nos autos da investigação de supostos descontos ilegais de aposentadorias e pensões do INSS — a Operação Sem Desconto, deflagrada pela PF em 23 de abril de 2025 contra fraudes no instituto.

O discurso da isonomia, posto à prova

Lula já vinha sinalizando publicamente que não interferiria caso o filho fosse alvo de apuração. Em discurso no ano passado, chegou a dizer que o filho deveria ser investigado caso se apresentassem provas suficientes, afirmando "ninguém ficará livre", "se tiver filho meu metido nisso será investigado", citando ainda que o ex-ministro Haddad e o ministro Rui Costa também seriam investigados "com essa seriedade".

O padrão de resposta do presidente diante de processos judiciais já havia aparecido em outro contexto recente, quando questionado sobre o julgamento de Jair Bolsonaro (PL). Disse então que "tem o processo, tem os autos, tem delações, tem provas" e defendeu que "a pessoa que está sendo acusada tenha o direito à presunção de inocência, que ele possa se defender" — argumento que hoje aplica também ao próprio filho.

O inquérito autorizado nesta quinta-feira ainda está em fase inicial: cabe à PF colher depoimentos, cruzar as quebras de sigilo já obtidas na Operação Sem Desconto — cujo compartilhamento foi pedido ao Supremo — e apurar se os contatos entre Lulinha, Roberta Luchsinger e servidores do Ministério da Saúde e da Presidência configuram, de fato, tráfico de influência. O desfecho, e o teste real da promessa presidencial de não usar o cargo para proteger o filho, ainda depende de meses de apuração sob supervisão direta de Mendonça.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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