Painel Econômico

Maior banco digital do Paraguai é tomado pelo Estado após índice de solvência despencar abaixo do limite legal

Banco Central do Paraguai decretou, na madrugada de terça-feira, a intervenção do Ueno Bank após constatar solvência abaixo de 50% do mínimo exigido; fundador e seis executivos se entregaram à Justiça

Maior banco digital do Paraguai é tomado pelo Estado após índice de solvência despencar abaixo do limite legal
📷 Reuters
📋 Em resumo ▾
  • O Banco Central do Paraguai (BCP) decretou, por unanimidade, o início do processo de resolução bancária do Ueno Bank na madrugada de 3 de novembro, após identificar que o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo legal exigido
  • As agências do banco foram fechadas e ativos e passivos ficaram congelados; cerca de 120 funcionários do BCP foram deslocados para iniciar o processo de conciliação nas unidades
  • Miguel Vázquez, maior acionista e um dos fundadores do Ueno Bank, e seis diretores se entregaram à Justiça depois que o Ministério Público abriu investigação criminal a partir de denúncia apresentada pelo próprio Diretório do Banco Central
  • Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, presidiu a então Financeira Ueno (depois convertida em Ueno Bank) até agosto de 2023 — um conflito de interesse que já vinha sendo questionado por senadores antes da intervenção, e que levou o presidente Santiago Peña a pedir sua renúncia
  • O Instituto de Previsão Social (IPS), fundo estatal de pensões do Paraguai, tem US$ 355 milhões investidos no Ueno e administra o pagamento de aposentadorias de cerca de 32 mil beneficiários através do banco
  • O BCP estima que 97% dos correntistas terão seus depósitos totalmente cobertos pela garantia de depósitos prevista na Lei 2.334/03, que rege o processo de resolução
  • Por que isso importa: é a maior crise bancária do Paraguai em décadas, atingindo uma instituição com 2,9 milhões de clientes — mais de 40% da população do país. O caso expõe um conflito de interesse direto na cúpula do órgão responsável por fiscalizar o sistema financeiro paraguaio, já que o presidente do Banco Central comandou o banco que acabou de ser tomado pelo Estado. A combinação de recursos públicos represados (IPS, pensões, fundos do Ministério da Economia), abertura de inquérito criminal contra os controladores e pedidos de renúncia que atravessam governo e oposição faz do episódio, simultaneamente, uma crise financeira, institucional e política.
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Na madrugada da última terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai (BCP) decretou a intervenção do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país, com quase 2,9 milhões de clientes. A decisão, tomada por unanimidade pelo Diretório do BCP em resolução datada de 2 de novembro, decorre da constatação de que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei.

O que o Banco Central constatou

Segundo o comunicado oficial do BCP, divulgado pouco depois das 3h, a autarquia verificou tecnicamente que o Ueno Bank “já não contava com o capital mínimo necessário para garantir sua solvência” — ou seja, o respaldo financeiro legal exigido para operar como instituição bancária. A resolução formal classifica a situação como “insuficiência no índice de solvência abaixo de cinquenta por cento (50%) do mínimo requerido”.

Com base nessa constatação, o BCP decidiu iniciar o procedimento de resolução bancária do Ueno, nos termos da Lei nº 2.334/03, que regula a garantia de depósitos e os processos de resolução de instituições financeiras no Paraguai. Na prática, isso significou o fechamento imediato das agências do banco e o congelamento de todos os seus ativos e passivos a partir do anúncio. Cerca de 120 funcionários do BCP foram deslocados para as unidades do Ueno para iniciar o processo de conciliação contábil.

A autoridade monetária estima que 97% dos correntistas terão seus depósitos totalmente cobertos pela garantia prevista na legislação — o que significa, na prática, que uma fração dos clientes, provavelmente aqueles com saldos mais altos, pode ficar exposta a perdas, embora o BCP não tenha detalhado publicamente esse grupo nem os valores envolvidos.

A tentativa de salvamento que não chegou a tempo

Dias antes da intervenção, o grupo controlador do Ueno havia anunciado um plano de capitalização de emergência de US$ 100 milhões — com desembolso imediato de US$ 50 milhões já em novembro — na tentativa de elevar o índice de solvência do banco ao mínimo regulatório exigido. A medida não foi suficiente para evitar a intervenção.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

Esse movimento foi a reação mais recente a semanas de escrutínio público sobre a instituição. Desde outubro, documentos supostamente vazados de dentro da própria Superintendência de Bancos do BCP vinham apontando concessão excessiva de empréstimos do Ueno a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, conglomerado controlador do banco. Essa pressão já havia provocado uma venda acentuada dos bônus internacionais do Ueno nos mercados globais — o título com vencimento em 2031, que debutara em março a 99 centavos por dólar, chegou a cair para 87 centavos.

“Não é um reconhecimento a mim, é à equipe de trabalho que está no Banco Central”

(Essa frase é de outubro de 2025, quando Carvallo recebeu o prêmio de melhor banqueiro central do mundo pela revista Global Finance — um contraste que ganhou ainda mais peso diante da crise atual.)

O conflito de interesse na cúpula do Banco Central

O caso tem um ingrediente que já vinha sendo questionado antes mesmo da intervenção: Carlos Carvallo, atual presidente do Banco Central do Paraguai, presidiu a então Financeira Ueno — posteriormente convertida em Ueno Bank — entre 2021 e agosto de 2023, pouco antes de assumir a presidência do próprio BCP, órgão responsável por fiscalizar o banco que viria a dirigir.

Em outubro, com a crise já em curso, o Banco Central havia negado, em resposta escrita à agência Reuters, qualquer conflito de interesse, afirmando que Carvallo “se inibiu em cada decisão vinculada ao Ueno Bank”. Ainda assim, a Associação Bancária do Paraguai — que reúne 14 bancos privados, entre eles o Itaú — publicou nota classificando as respostas do Banco Central ao Senado como “incompletas”, e parlamentares da base governista e da oposição já pediam a saída da cúpula do BCP para restabelecer a credibilidade da supervisão.

Com a intervenção decretada, a pressão sobre Carvallo se intensificou: o presidente Santiago Peña pediu publicamente sua renúncia horas após o anúncio do BCP. Carvallo, por sua vez, afirmou ter colocado seu cargo à disposição da instituição — formulação que, até a publicação desta reportagem, não confirma se a saída já foi efetivada ou aceita formalmente.

Fundador e executivos se entregam à Justiça

A crise também avançou para o campo criminal. O Ministério Público paraguaio abriu uma causa penal e montou uma equipe de investigação depois que o próprio Diretório do Banco Central apresentou denúncia contra dirigentes do Ueno. Em resposta, Miguel Vázquez, maior acionista e um dos fundadores do banco, e seis de seus principais diretores se entregaram voluntariamente à Justiça.

É importante marcar a diferença entre o que está provado e o que está sob investigação: a intervenção do BCP tem base técnica declarada — o índice de solvência abaixo do mínimo legal — e isso é fato constatado pelo próprio regulador. Já a origem dessa insolvência, incluindo as suspeitas de empréstimos irregulares a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, é objeto de apuração criminal em curso, e nenhum dos investigados foi condenado ou teve responsabilidade criminal estabelecida até o momento. O Ueno Bank, em comunicados anteriores à intervenção, afirmou repetidamente estar em “pleno cumprimento dos limites e requerimentos legais e regulatórios aplicáveis” e que os procedimentos em curso “não constituem constatação de irregularidade nem sanção”. Até a publicação desta reportagem, não havia nova manifestação pública de Vázquez, de Carvallo ou da defesa dos demais executivos especificamente sobre a entrega à Justiça — pontos que devem ser buscados antes de qualquer nova publicação sobre o avanço do processo penal.

Em paralelo, o advogado paraguaio Óscar Tuma anunciou que prepara uma denúncia penal distinta, dirigida tanto contra dirigentes do Ueno quanto contra autoridades do próprio Banco Central, por supostas irregularidades que teriam levado à crise atual.

Quem é afetado: do aposentado ao Tesouro paraguaio

A dimensão social da intervenção vai além dos 2,9 milhões de correntistas do Ueno. O Instituto de Previsão Social (IPS), fundo estatal de aposentadorias do Paraguai, mantém US$ 355 milhões investidos na instituição — e é também responsável por processar o pagamento de pensões de aproximadamente 32 mil aposentados por meio do banco, pagamentos que ficam em situação de incerteza enquanto durar o congelamento de ativos e passivos. Fundos do Ministério da Economia paraguaio também ficaram represados pela medida, segundo apuração da imprensa local.

O que vem a seguir

Com o processo de resolução bancária em curso, o desfecho mais provável envolve a liquidação ordenada dos ativos do Ueno, a cobertura dos depósitos garantidos por lei e, possivelmente, a venda de parte da carteira a outra instituição financeira — caminho comum em processos desse tipo na região, embora o BCP ainda não tenha detalhado publicamente qual dos cenários prevalecerá no caso paraguaio. A recuperação integral dos valores acima do limite de garantia, e o desfecho das investidas penais contra os controladores e a cúpula do próprio Banco Central, devem se arrastar por meses.

O episódio chega em um momento delicado para a credibilidade financeira do Paraguai, justamente o país que, entre os vizinhos sul-americanos, mais cresceu no primeiro semestre de 2026 e que havia conquistado grau de investimento junto a Moody’s e S&P nos últimos dois anos — classificações que agora podem ser pressionadas pelo abalo na supervisão bancária que o caso Ueno deixou à vista.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

Gostou? Compartilhe: WhatsApp X LinkedIn
💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #BancoCentral #FraudeFinanceira #corrupcao #crise