Malas de dinheiro, um fundo no Texas e o "Escorpião do PCC": a teia do Dark Horse
Do áudio em que Flávio cobrava Vorcaro a um fundo no Texas, malas de dinheiro e um contrato de wi-fi com um empresário do PCC: entenda a teia de investigações em torno do financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro
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- O financiamento do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, é alvo de duas investigações no STF que se cruzam.
- Uma apura o dinheiro privado do banqueiro Daniel Vorcaro (caso Master); outra, o suposto desvio de emendas públicas via ONGs.
- O operador "Mineiro" fechou delação e detalhou US$ 12,3 milhões enviados a um fundo no Texas ligado a advogado de Eduardo Bolsonaro.
- Mendonça autorizou, em julho, a abertura de inquérito contra o senador Flávio Bolsonaro por lavagem, evasão de divisas e corrupção.
- Por que isso importa: o caso alcança um candidato à Presidência, o irmão autoexilado nos EUA e recursos públicos, a menos de um mês das eleições.
- Todos os citados negam irregularidades; as investigações seguem em curso, sem denúncia formal.
O filme "Dark Horse" foi concebido para contar a trajetória heroica de Jair Bolsonaro — a ascensão política e a facada de 2018, com o astro hollywoodiano Jim Caviezel no papel do ex-presidente. Mas o roteiro que interessa à Justiça não está na tela: é o do dinheiro que financiou a produção. Como esse dinheiro foi levantado, por onde passou e onde foi parar transformou a cinebiografia no centro de uma teia de investigações que hoje alcança um banqueiro preso, um candidato à Presidência, seu irmão autoexilado nos Estados Unidos, recursos públicos e até um empresário apontado como ligado ao PCC. Este texto reúne o que se sabe até aqui — e o que ainda está sob apuração.
Duas investigações, um só filme
Para entender o caso, é preciso separar duas frentes que correm no Supremo e se cruzam:
A primeira, sob relatoria do ministro André Mendonça, está dentro do caso Banco Master. Ela apura o dinheiro privado: os repasses que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master (hoje preso), teria feito para bancar o filme, a pedido de Flávio Bolsonaro.
A segunda, sob relatoria do ministro Flávio Dino, apura o dinheiro público: o suposto desvio de emendas parlamentares que, via ONGs ligadas à produtora, teriam abastecido a produção. É a Operação Make Up, deflagrada nesta semana.
São trilhas distintas — uma segue o dinheiro do banqueiro, a outra o dinheiro do contribuinte — que convergem no mesmo destino: os cofres de "Dark Horse".
O pedido: o áudio que o Intercept revelou
O ponto de partida público foi uma revelação do Intercept Brasil, em maio: áudios e mensagens em que Flávio Bolsonaro cobrava recursos diretamente de Vorcaro. Numa das gravações, o tom é de quem negocia um compromisso comercial: "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim." Segundo as apurações, Flávio teria pedido até US$ 24 milhões ao banqueiro, sob a justificativa de financiar a obra sobre o pai.
Do valor negociado, ao menos R$ 61 milhões (cerca de US$ 10,6 milhões) foram efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025, por meio de operações internacionais estruturadas. Segundo a Revista Fórum, mais de 90% do orçamento do filme teria sido bancado por Vorcaro.
A delação do "Mineiro" e o fundo no Texas
O que era indício ganhou corpo com uma delação. Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro" — operador financeiro de Vorcaro e dono da Entre Investimentos — fechou acordo de colaboração premiada, homologado por Mendonça em 9 de setembro. No depoimento, ele detalhou sete transferências que somam US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 69 milhões) enviadas ao longo de 2025 para o Havengate Development Fund, um fundo sediado no Texas.
O detalhe que dá a dimensão política: o Havengate é administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, apontado como próximo — e responsável pelo processo imigratório — de Eduardo Bolsonaro, que se mudou para o Texas em fevereiro de 2025 alegando perseguição política. As sete parcelas coincidem, no tempo, com a chegada e a permanência de Eduardo nos EUA. Por isso, uma das linhas da PF e da PGR é justamente investigar se todo o dinheiro foi mesmo para o filme — ou se parte financiou o autoexílio de Eduardo.
O Mineiro descreveu ainda o outro lado da operação: entregas de dinheiro vivo em malas, feitas no estacionamento da sede da Entre Investimentos ou na garagem do prédio de Fabiano Zettel (cunhado de Vorcaro), no Itaim Bibi, em São Paulo. Para comprovar, entregou às autoridades recibos das malas compradas para guardar o dinheiro e contratos de mútuo simulados.
"Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel... ia ser muito ruim." — áudio atribuído a Flávio Bolsonaro, revelado pelo Intercept
A produtora, as ONGs e o "Escorpião do PCC"
A segunda frente — o dinheiro público — gira em torno de Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment e presidente de duas ONGs: o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). Segundo as investigações, emendas parlamentares foram destinadas a essas entidades — inclusive R$ 2 milhões de emenda de Carla Zambelli à ANC, retidos pelo TCU — e o percurso desse dinheiro é o que a Operação Make Up apura.
Foi aí que surgiu um dos elementos mais chocantes, revelado pela Revista Fórum: o ICB mantinha um contrato de wi-fi gratuito com a Prefeitura de São Paulo (hoje em R$ 157 milhões), e uma das empresas subcontratadas nessa cadeia — a Favela Conectada — pertencia a um empresário apontado pela PF como "Escorpião", ligado ao PCC e preso por feminicídio. Karina teria repassado R$ 12 milhões à empresa dele. É o fio que liga a produtora de um filme bolsonarista a uma figura do crime organizado, via contrato público — o tipo de conexão que a investigação terá de esclarecer.
O papel de Eduardo — e a contradição
Um ponto que a apuração destaca: documentos indicam que Eduardo Bolsonaro foi formalmente produtor-executivo do filme, com um contrato de novembro de 2023, assinado digitalmente por ele em janeiro de 2024, dando-lhe poderes sobre a gestão financeira e a captação de recursos. Isso, segundo a Fórum, contradiz suas declarações públicas de que sua participação se limitava à cessão de direitos de imagem. A produtora, por sua vez, tenta reduzir uma multa da Ancine alegando que quem contratou o elenco principal foi uma "empresa estrangeira" — que, apurou o Intercept, é uma empresa americana da mesma dona da produtora brasileira.
A investigação formal contra Flávio
O desdobramento mais recente fecha o círculo sobre o candidato. Veio à tona, com a queda do sigilo do caso Master, que Mendonça autorizou em julho a abertura de um inquérito contra Flávio Bolsonaro. O despacho reproduz o pedido da PF: "instauração de PET sigilosa em apartado, vinculada ao INQ 5026, para apurar a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos, que teriam sido praticados, em tese, pelo Senador da República Flávio Nantes Bolsonaro, no contexto de financiamento para a produção da obra cinematográfica denominada Dark Horse."
Essa investigação específica (a PET 16.369) segue sob sigilo — Mendonça a manteve fora da leva de 15 procedimentos que teve o sigilo derrubado —, o que indica que a PF ainda faz diligências.
O que os citados dizem
O contraponto é parte essencial do caso. Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que todos os recursos do filme tiveram origem privada e lícita. A defesa de Karina Gama nega peremptoriamente qualquer recebimento de verbas de Vorcaro, sustentando que os investidores da produtora americana são empresas estritamente norte-americanas protegidas por sigilo, e que as negociações de Flávio com o banqueiro não a envolviam. Eduardo Bolsonaro não se pronunciou sobre os documentos que o apontam como produtor-executivo.
Vale o registro que atravessa tudo: são investigações em curso, com base em delação (que é meio de prova a ser corroborado) e indícios. Não há denúncia formal nem condenação, e todos os citados têm direito de defesa. A delação do Mineiro, por si só, não condena ninguém.
Por que isso pesa agora
A poucas semanas das eleições, o caso Dark Horse deixou de ser uma curiosidade sobre um filme e virou uma investigação que toca o coração de uma candidatura presidencial. Ela cruza dinheiro privado de um banqueiro preso por "a maior fraude bancária da história", recursos públicos de emendas, um fundo no Texas que coincide com o exílio de um Bolsonaro, e uma cadeia de contratos que respinga até no crime organizado. O que a Justiça ainda precisa responder — e o que definirá o peso eleitoral disso — é uma pergunta simples sobre um filme caro: de onde veio, afinal, cada real que rodou "Dark Horse", e para onde ele foi quando as câmeras se apagaram?
Versão em áudio disponível no topo do post.