Evo Morales acusa a DEA de operar na prisão de procuradores na Bolívia; Petro apoia a tese
O ex-presidente boliviano disse estar "convencidíssimo" de que a agência antidrogas dos EUA participou da prisão de Roger Mariaca e Alberto Zeballos, e ligou o episódio ao caso Cerimedo. Gustavo Petro (Colômbia) chamou o episódio de "golpe de Estado"
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- Evo Morales acusou a DEA de ter participado da prisão do ex-procurador-geral Roger Mariaca e do ex-procurador de Santa Cruz, Alberto Zeballos
- Segundo Morales, o presidente Rodrigo Paz teria negociado as prisões durante viagem aos EUA, com o objetivo de "salvar" o consultor argentino Fernando Cerimedo
- O presidente colombiano Gustavo Petro apoiou publicamente a tese de Morales, classificando o episódio como "golpe de Estado" e fazendo outras afirmações que extrapolam o caso boliviano
- Por que isso importa: Morales tem motivo direto para questionar Mariaca, que liderava o processo que pede sua própria prisão preventiva — o que não invalida a acusação, mas exige que ela seja lida com essa informação em mente
O ex-presidente da Bolívia Evo Morales acusou a Administração para o Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) de ter participado da prisão do ex-procurador-geral do Estado, Roger Mariaca, e do ex-procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos. Em seu programa na Rádio Kawsachun Coca (RKC), Morales também questionou o presidente Rodrigo Paz, a quem atribuiu interesse político por trás das duas prisões.
A acusação de Morales
Segundo Morales, o governo dos Estados Unidos interveio diretamente nos fatos, e Paz teria negociado as detenções durante sua viagem a esse país. "Estou convencidíssimo", declarou o ex-presidente — uma afirmação de convicção pessoal, não uma prova apresentada por ele.
"La DEA operó para detener al fiscal general. [...] Es ilegal e inconstitucional."
— Evo Morales, segundo a Rádio Kawsachun Coca
Morales questionou ainda a forma como as sedes do Ministério Público foram revistadas durante a madrugada, chamando a ação de ilegal e inconstitucional. Ele defendeu que casos de narcotráfico devem ser julgados dentro do país "por soberania jurídica", mas reconheceu que, se houve irregularidade por parte de Mariaca, "que se investigue, é indefensável" — ao mesmo tempo em que classificou o episódio como "uma intromissão aberta dos Estados Unidos". Segundo ele, o objetivo das prisões seria "salvar" o consultor político argentino Fernando Cerimedo, preso na Bolívia desde agosto sob investigação por tentativa de feminicídio e suspeita de proteção a voos ligados ao narcotráfico — caso que Mariaca liderava até sua própria prisão. Morales também sugeriu que o episódio funcionaria como uma "cortina de fumaça" para desviar a atenção da gestão do governo Paz, que classificou como deficiente.
É essencial registrar o que falta aqui: Morales não apresentou, nessa fala, documentos, testemunhas ou provas independentes de que a DEA tenha participado operacionalmente da prisão de Mariaca — é uma interpretação política dele sobre os fatos, ainda que apoiada em um histórico real de tensão entre seu governo e a agência americana. Vale registrar também que Mariaca era, até sua prisão, o procurador responsável por pedir a prisão preventiva do próprio Morales por tráfico de pessoas — um conflito de interesse que não torna a acusação de Morales falsa, mas que o leitor precisa ter em conta ao avaliar sua credibilidade como fonte.
A reação de Gustavo Petro
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, publicou nas redes sociais uma mensagem de apoio à tese de Morales, afirmando que "na Bolívia há um golpe de Estado contra a democracia" e que a ação contra o Ministério Público boliviano estaria ligada à proteção de Cerimedo — a quem classificou com um rótulo político forte, de "nazista", e que descreveu como sócio de uma rede de contas falsas usada, segundo Petro, para manipular eleições na Colômbia contra sua candidatura e a de aliados seus.
Essa publicação de Petro mistura uma afirmação específica sobre a Bolívia com uma série de outras alegações — sobre fraude eleitoral na Colômbia, uma rede global de manipulação ligada a nomes como Peter Thiel e ao falecido Jeffrey Epstein, e comparações ao Tribunal de Nuremberg — que são posições e interpretações do próprio presidente colombiano, não fatos verificados por esta apuração. Tratá-las como fato seria um erro editorial grave; o correto é registrar que Petro as afirmou, publicamente, como presidente em exercício, sem que isso confirme sua veracidade.
Contexto e antecedentes
Mariaca e Zeballos foram presos em 30 de setembro, dois dias depois de os EUA revogarem o visto de Mariaca por suspeita de corrupção ligada ao narcotráfico. O governo boliviano apresentou a prisão como o desmonte de uma organização criminosa liderada por Mariaca; o próprio Ministério Público boliviano chamou a ação de ilegal. Evo Morales, que vive sob proteção de apoiadores no Trópico de Cochabamba desde 2024 para evitar sua própria prisão, já havia acusado anteriormente a DEA e o Exército boliviano de planejar sua detenção com apoio americano — o que faz da acusação atual uma continuidade de um discurso que ele sustenta há meses, não uma denúncia inédita.
Entre a acusação de Morales, o apoio de Petro e a ausência de provas independentes apresentadas por qualquer um dos dois, o que fica estabelecido é o discurso político em torno do caso — não, ainda, os fatos que ele tenta descrever.
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