O que a íntegra do caso Master revela: milícia, hackers e fuga frustrada
Íntegra da representação da Polícia Federal no caso Master, a que o Painel teve acesso, revela um braço armado que invadiu sistemas do FBI e da Interpol, ameaçou jornalistas e planejou a fuga do banqueiro Daniel Vorcaro do país
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- A representação da Polícia Federal no caso Master, com 295 páginas, detalha uma organização criminosa que ia muito além das fraudes bancárias.
- O grupo mantinha um braço armado, apelidado de "A Turma", com policiais cooptados, dedicado a intimidar críticos e monitorar autoridades.
- Investigadores apontam invasão de sistemas restritos — da própria PF, e até com menções ao FBI e à Interpol.
- O prejuízo estimado ao Fundo Garantidor de Créditos chega a R$ 52 bilhões — descrito como "a maior fraude bancária da história brasileira".
- Por que isso importa: o documento mostra uma estrutura criminosa infiltrada no aparato do Estado, com ramificações no Banco Central e um plano de fuga do país.
- Um dos quatro presos, o "sicário" do grupo, morreu sob custódia dias depois.
Quando o Banco Central liquidou o Banco Master em novembro de 2025, o país achou que conhecia o tamanho do escândalo: uma fraude bilionária no sistema financeiro. Mas a representação da Polícia Federal que embasou a terceira fase da Operação Compliance Zero — documento de 295 páginas a que o Painel Político teve acesso após a queda do sigilo — revela uma engrenagem muito mais sombria por trás do banqueiro Daniel Vorcaro. Ali dentro há uma milícia privada, hackers com acesso a sistemas policiais, ameaças a jornalistas e um plano de fuga para o exterior. O rombo financeiro, estimado em R$ 52 bilhões só junto ao Fundo Garantidor de Créditos, é descrito pela própria PF como "a maior fraude bancária da história brasileira" — e, ainda assim, talvez não seja a parte mais grave.
Quatro núcleos, uma organização
A PF organiza o esquema em quatro frentes que funcionavam de forma coordenada. Um núcleo financeiro, responsável pelas fraudes contra o sistema — a captação de recursos via CDBs que pagavam 120% do CDI ou mais, com o dinheiro escoando para fundos e ativos "podres" ligados ao próprio grupo. Um núcleo de corrupção institucional, voltado a cooptar servidores do Banco Central. Um núcleo de ocultação e lavagem, com empresas de fachada. E um núcleo de intimidação e obstrução — o mais perturbador —, encarregado de monitorar e ameaçar adversários. Segundo o relatório, o dinheiro veio inclusive de cofres públicos: o BRB aportou cerca de R$ 12 bilhões comprando carteiras de crédito de origem duvidosa, e fundos de previdência como o Rioprevidência, o AMPREV (Amapá) e dezenas de municípios foram atraídos pelos juros altos.
"A Turma": o braço armado
O nome que a organização dava ao próprio braço de coerção era despojado: "A Turma". Mas sua função, segundo a PF, não tinha nada de leve — era uma estrutura de vigilância e intimidação privada, coordenada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido pelo apelido de "Sicário", que já denunciava a natureza do trabalho. Integrava o grupo o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, e um subgrupo de hackers chamado internamente de "Os Meninos".
O relatório reproduz mensagens em que Vorcaro dá ordens diretas. Contra a própria empregada, que alegava estar sendo ameaçada por ele: "Tem que moer essa vagabunda. Puxa endereço tudo." E contra um jornalista que publicara notícia desfavorável — o texto do documento é explícito: "Esse lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto." Ao que o "Sicário" respondeu com dois sinais de positivo e a frase: "Estamos em cima de todos os links negativos, vamos derrubar todos e vamos soltar positivas." A PF conclui que Vorcaro determinou que se forjasse um assalto para agredir o jornalista e, com o episódio, calar a imprensa crítica.
"Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto." — mensagem atribuída a Daniel Vorcaro no relatório da PF
A infiltração que chegou ao FBI e à Interpol
O trecho que talvez ainda não tenha ganhado a atenção que merece está na página 71 do relatório. A PF afirma que "A Turma" conseguiu realizar pesquisas indevidas no ePol, sistema de acesso exclusivo de policiais federais — e que uma auditoria interna rastreou o acesso ilegal até a Delegacia da Polícia em Juiz de Fora (MG). Mas a intrusão teria ido além das fronteiras: segundo o documento, em 24 de outubro de 2025, o "Sicário" reencaminhou um print com o logotipo da Interpol e mensagens como "Estamos aguardando o relatório principal do FBI" e "A Interpol está limpa". O relatório trata isso como indício do nível de sofisticação e de "infiltração no aparato estatal" alcançado pela organização — um grupo privado que teria tateado bancos de dados de inteligência nacionais e internacionais.
Os hackers do grupo, segundo a apuração, invadiam ainda dispositivos móveis, contas de iCloud e redes sociais de alvos considerados adversários — jornalistas, ex-funcionários, autoridades.
O "Projeto DV": a guerra de narrativa nas redes
Há uma frente que conecta o crime financeiro à manipulação da opinião pública, e o relatório lhe dá nome: "Projeto DV" — as iniciais de Daniel Vorcaro. Segundo o depoimento do vereador Rony de Assis Gabriel, colhido pela PF, representantes de agências de comunicação (entre elas a MITHI, e uma empresa chamada UNLTD) procuraram seu assessor em dezembro de 2025 oferecendo um "trabalho de gerenciamento de reputação" para "um executivo grande", numa "disputa política de repercussão nacional". Só depois de assinar um acordo de confidencialidade — com multa de R$ 800 mil por quebra — o vereador soube do que se tratava: gravar vídeos afirmando que o Banco Master teria sido "vítima" de uma liquidação indevida do Banco Central.
O momento não era casual. A ofensiva nas redes, segundo a PF, coincidiu com o período em que o Tribunal de Contas da União emitia sinais de que poderia anular a liquidação do Master. A Febraban chegou a identificar uma série de ataques coordenados ao Banco Central nas redes sociais, e reportagens já haviam revelado ofertas de até R$ 2 milhões a influenciadores para defender o banco. Era, na leitura da PF, uma campanha paga com dinheiro do próprio esquema para reverter, no tribunal de contas e na opinião pública, a decisão que desmontara a fraude.
A corrupção dentro do Banco Central
O relatório detalha como dois servidores do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do Banco Central — Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto, e Belline Santana, então chefe do departamento — teriam se tornado, nas palavras da investigação, uma espécie de "consultores" privados de Vorcaro. Eles revisavam minutas de ofícios que o próprio Master enviaria ao BC, davam orientações estratégicas e alertavam o banqueiro sobre movimentações detectadas pela autarquia. A contrapartida seria paga por meio de um contrato simulado com a empresa Varajo Consultoria, estruturado para justificar os repasses. As mensagens mostram até Vorcaro se oferecendo para "arrumar guia" para uma viagem de um dos servidores à Disney, em Orlando.
O plano de fuga e a morte do "Sicário"
Dois elementos fecham o retrato. Primeiro, a fuga: a PF sustenta que Vorcaro planejava deixar o país. Na busca à sede do Master, os agentes fotografaram um quadro com anotações de fluxo financeiro onde figurava, no centro, a inscrição "TITAN CAYMAN" — alusão a uma offshore nas Ilhas Cayman, esboçada, segundo advogada da empresa, na noite anterior à operação. E o banqueiro só não fugiu porque foi interceptado no aeroporto de Guarulhos, na noite de 17 de novembro de 2025, prestes a embarcar em jato particular rumo aos Emirados Árabes.
Segundo, um desfecho trágico que o próprio processo registra: o "Sicário", Luiz Phillipi Mourão, um dos quatro presos preventivamente na terceira fase da operação, morreu pouco depois — a petição da defesa nos autos comunica seu falecimento. A morte de um investigado sob custódia é, por si, um capítulo que ainda deve render desdobramentos.
O que vem a seguir
A representação levou Mendonça a decretar a prisão de Vorcaro, do cunhado e operador financeiro Fabiano Zettel, do "Sicário" e do policial aposentado Marilson, além de medidas cautelares contra os servidores do BC e a suspensão de cinco empresas de fachada. As tipificações são pesadas e vão além dos crimes financeiros: a PF menciona corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, sequestro e cárcere privado, ameaça, invasão de dispositivos e usurpação de função pública.
Vale o registro que atravessa todo o caso: trata-se de uma representação policial e de decisão cautelar — indícios em cognição sumária, não condenação. Vorcaro e os demais investigados negam as acusações e têm direito de defesa; a apuração segue em curso. Mas o documento, agora público, redesenha a escala do escândalo. O que começou como a quebra de um banco revelou-se, na descrição da própria Polícia Federal, uma organização que comprou servidores, forjou contratos, montou uma milícia com policiais, tateou sistemas de inteligência de meio mundo e tentou dobrar a opinião pública — tudo para manter de pé um esquema que já custou R$ 52 bilhões ao país.
A pergunta que fica, e que as próximas fases da investigação terão de responder, é até onde exatamente foram os "tentáculos" que a PF diz ter apenas começado a mapear.
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