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Mesada Ciro Nogueira: Como a PF rastreou R$ 6 milhões?

Relatório da PF aponta esquema de lavagem para ocultar R$ 6 milhões pagos por Vorcaro. Presidente da Câmara também teve viagem a Lisboa bancada pelo banqueiro

Mesada Ciro Nogueira: Como a PF rastreou R$ 6 milhões?
📷 Brenno Carvalho/Agência O Globo
📋 Em resumo
  • Esquema de Lavagem: Polícia Federal aponta que empresas de Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro ocultaram mesada de R$ 6 milhões.
  • Rota do Dinheiro: Fluxo financeiro entre a CNLF e a BRGD dissimulou recursos incompatíveis com a capacidade formal dos envolvidos.
  • Viagem a Lisboa: Vorcaro bancou diárias de R$ 90 mil no Four Seasons para o senador e para Hugo Motta, presidente da Câmara.
  • Reação Institucional: Motta afirma ter "muita tranquilidade" e defende a isenção das apurações, apesar de não ser alvo de diligências.
  • Por que isso importa: O relatório da PF escancara a simbiose entre o alto escalão do centrão e a estrutura financeira do Banco Master em seu momento mais crítico
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A Polícia Federal (PF) mapeou uma estrutura financeira integrada para ocultar pagamentos de mesada feitos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O relatório, baseado em dados extraídos do celular do dono do liquidado Banco Master, aponta um fluxo de ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025.

As investigações também revelam que Vorcaro bancou despesas de luxo em Lisboa para o próprio senador e para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). O caso, que já está no Supremo Tribunal Federal (STF), expõe a profundidade dos laços entre a cúpula do centrão e a engrenagem corporativa do Master.

A engrenagem da CNLF e da BRGD

O relatório da PF descreve um mecanismo sofisticado de lavagem de dinheiro. As investigações apontam a existência de um esquema integrado de movimentação financeira entre empresas das famílias Nogueira e Vorcaro.

No centro da teia estão a CNLF, empresa ligada ao senador, e a BRGD, controlada por Vorcaro e seus parentes. Segundo os investigadores, essas estruturas interligadas eram usadas para "a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos".

A PF é categórica ao indicar o possível beneficiário final dessa operação: o próprio senador Ciro Nogueira. A tentativa de blindar o patrimônio e ocultar a origem dos recursos ocorreu justamente no período mais crítico das tentativas de salvar o Banco Master do colapso.

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A mesada de R$ 6 milhões e o colapso do Master

O volume de recursos transferidos chama a atenção. De acordo com o relatório, o ex-banqueiro pagou uma mesada ao senador que soma ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025.

O período é estratégico. Foi exatamente nesse intervalo que o Banco Master enfrentou suas maiores dificuldades financeiras, antes da intervenção e da deflagração da Operação Compliance Zero. A manutenção de um fluxo de caixa paralelo para o senador, enquanto a instituição afundava, sugere que a relação ia muito além de um simples financiamento político tradicional.

A reportagem da Times Brasil — licenciada exclusiva da CNBC — procurou o senador, mas não obteve resposta até o fechamento da matéria.

Suítes no Four Seasons e a viagem a Lisboa

Os dados extraídos do celular de Vorcaro e enviados ao STF não se limitam às transferências bancárias. As investigações dão conta de que o ex-banqueiro também bancou as despesas de uma viagem a Lisboa de Ciro Nogueira e de Hugo Motta.

Nas conversas e documentos obtidos pela PF, Vorcaro determina o pagamento de cinco diárias de "suíte jr." no Four Seasons Hotel para o senador e para o presidente da Câmara.

O luxo tem preço. De acordo com a PF, o custo total para cada um dos políticos seria de cerca de R$ 90 mil, com base na cotação do euro na época. Diferentemente de Ciro Nogueira, que foi alvo de busca e apreensão, Hugo Motta não teve nenhuma diligência cumprida contra si na ocasião.

"A relação entre o alto escalão do centrão e a estrutura financeira do Banco Master não se limitava a gabinetes em Brasília, mas se estendia a suítes de luxo na Europa."

A tranquilidade do presidente da Câmara

Questionado sobre o pagamento das diárias, Hugo Motta disse ter "muita tranquilidade" sobre o episódio. O presidente da Câmara optou por um discurso institucional, defendendo a isenção dos órgãos de controle.

"As investigações estão aí, os órgãos estão trabalhando e eu defendo que as apurações possam acontecer da maneira mais isenta e imparcial possível", afirmou Motta.

O deputado ressaltou seu histórico parlamentar para rebater qualquer associação com irregularidades. "Eu sou um deputado que sempre defendi o bom exercício da atividade parlamentar, sempre legislei com responsabilidade e presido a Câmara com essa mesma responsabilidade", completou.

A fala de Motta, no entanto, não apaga o fato de que seu nome figura nos arquivos do celular de Vorcaro como beneficiário de uma viagem de R$ 90 mil, paga por um banqueiro que hoje é réu em uma das maiores investigações financeiras do país.

Cenário: O preço da governabilidade

O que o relatório da PF traz à tona não é apenas o desvio de conduta de um banqueiro, mas a arquitetura de poder que sustentava o Banco Master. A existência de uma mesada milionária e de viagens de luxo pagas a figuras centrais do Congresso Nacional demonstra que a instituição financeira comprou, literalmente, a governabilidade de que precisava para operar.

Resta saber até que ponto a Câmara dos Deputados, sob o comando de um presidente que passeia por Lisboa às custas de investigados, terá independência para fiscalizar os próprios membros. A resposta a essa pergunta definirá se o centrão é um pilar da estabilidade republicana ou apenas o departamento pessoal de grandes fortunas.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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