Nas redes, a eleição de 2026 já é nacional — e o Centro-Oeste é o caso extremo
Estudo de uma rede de universidades federais mostra que candidatos a governador e senador de todo o país colaram suas campanhas em Lula e Flávio Bolsonaro — e que o Centro-Oeste levou a lógica ao extremo, com o bolsonarismo dominando as redes e o STF como alvo
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- Um estudo da Rede Hubs Regionais 2026 (Instituto Democracia em Xeque, PUC-Rio e universidades federais) monitorou o Instagram das campanhas ao Senado e governo em quatro regiões.
- O achado central: as disputas estaduais viraram uma extensão do duelo presidencial Lula x Flávio Bolsonaro, com pautas nacionais (STF, caso Vorcaro/Master, INSS) dominando o debate.
- No Centro-Oeste, o fenômeno é extremo: 10 candidaturas ao Senado concentram 92,6% das interações, cinco delas do PL, lideradas por Michelle Bolsonaro.
- Segurança pública com o "modelo Bukele" virou bandeira da direita; o fim da escala 6x1 organiza a esquerda; violência contra a mulher atravessa todos os campos.
- Por que isso importa: o estudo mede, com dados, como a polarização nacional se impõe sobre as agendas locais — e o eleitor de estados como os de RO tende a decidir olhando para Brasília.
Há uma eleição para governador e senador em cada estado do Brasil em 2026. Mas, a julgar pelas redes sociais, existe uma só disputa nacional sendo travada em dezenas de palcos regionais ao mesmo tempo. É o que revela o mais recente relatório da Rede Hubs Regionais 2026 — projeto de pesquisa coordenado pelo Instituto Democracia em Xeque e pela PUC-Rio, em parceria com grupos de universidades federais (UFBA, UFABC, UFMT e UFRGS), que monitora o comportamento das candidaturas no Instagram. A conclusão que atravessa todas as regiões analisadas é uma só: a campanha estadual virou extensão da corrida presidencial.
A nacionalização como estratégia dominante
O relatório é direto ao nomear o fenômeno. A "nacionalização de pautas" é o macrotema mais mobilizado entre todas as candidaturas analisadas — e é justamente ele que ocupa o topo do engajamento. Na prática, candidatos a senador e governador de todo o país descobriram que o caminho mais curto para o alcance nas redes é colar a própria imagem à de um presidenciável (Lula ou Flávio Bolsonaro) e importar as brigas nacionais para o debate local.
Segundo o estudo, essa lógica se manifesta em três frentes principais. A primeira é a associação direta aos presidenciáveis: candidatos que se apresentam como "o senador de Bolsonaro" ou como parte do "time do Lula". A segunda é a mobilização de escândalos nacionais como munição — e aqui entram, de forma recorrente, o caso do Banco Master e do banqueiro preso Daniel Vorcaro, o escândalo do INSS e a crise do STF. A terceira são as críticas institucionais, com o Supremo e o ministro Alexandre de Moraes no centro do alvo. O relatório resume: o debate eleitoral passou a ser "crescentemente pautado pela consecução de manchetes", exploradas tanto para desgastar adversários quanto para consolidar bases.
O estudo identifica ainda uma divisão temática clara entre os campos. À direita, a segurança pública é a principal bandeira propositiva — e ganhou um contorno novo neste ciclo: a defesa do "modelo Bukele", de El Salvador, com encarceramento em massa e até propostas como a castração química, incorporada ao plano "Brasil Sem Medo" de Flávio Bolsonaro. À esquerda, o fim da escala 6x1 virou a principal pauta propositiva, organizando o campo progressista em torno de uma agenda trabalhista. E há um tema que atravessa todos os campos, mencionado como pauta transversal: o combate à violência contra a mulher.
A "nacionalização de pautas" é o macrotema mais mobilizado entre todas as candidaturas — e o que ocupa o topo do engajamento.
O Centro-Oeste como caso extremo
Se a nacionalização é a regra nacional, o Centro-Oeste é onde ela atinge o grau máximo — e por isso merece um olhar de perto, por ser a região vizinha a Rondônia e a que melhor ilustra o fenômeno.
Nas disputas ao Senado da região, os números são de concentração quase absoluta. As dez candidaturas de maior engajamento reúnem 92,6% de todas as interações, deixando as outras 27 candidaturas monitoradas dividindo míseros 7,4%. E o topo é dominado pelo bolsonarismo: cinco das dez maiores são do PL. Michelle Bolsonaro (PL-DF) lidera com folga — 1,35 milhão de interações em apenas 21 publicações, a maior média de toda a base do país. Logo atrás vêm Gustavo Gayer (PL-GO) e Bia Kicis (PL-DF). Juntos, esses três nomes somam cerca de 77% de todas as interações das candidaturas ao Senado na região. Erika Kokay (PT-DF) é a única candidatura de esquerda a furar o top 10.
O padrão narrativo confirma o diagnóstico nacional em estado bruto. Em Goiás, a campanha ao Senado é descrita pelo relatório como, "na prática, uma extensão da disputa Lula x Flávio Bolsonaro": Gustavo Gayer dedica a maior parte de seus posts a comentar a corrida presidencial e a pedir "maioria no Senado" para viabilizar a agenda de Flávio. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro repete à exaustão um "time" fechado de quatro nomes com números de urna casados — ela, Bia Kicis, Celina Leão e Flávio à Presidência.
O STF no banco dos réus das redes
O relatório destaca o Centro-Oeste como a região que mais concentrou ataques às instituições, tendo o STF e Alexandre de Moraes como alvos principais. E faz uma observação analítica importante, que dialoga diretamente com a crise que o Painel vem acompanhando: a deslegitimação do Judiciário já vinha sendo construída como recurso de campanha antes mesmo do vazamento das conversas atribuídas a Moraes e Vorcaro. Ou seja, o caso Vorcaro não inaugurou a narrativa anti-STF — apenas forneceu combustível novo a um enquadramento que os candidatos já cultivavam.
Os exemplos coletados são contundentes. Em Goiás, o candidato Oséias Varão (PL) chama Moraes de "juiz corrupto" e "psicopata"; até um candidato mais institucional, Vanderlan Cardoso (PSD), defende o "impeachment de ministro". No DF, Sebastião Coelho (Novo) afirma querer ir ao Senado "para controlar o Supremo Tribunal Federal". O relatório observa que o caso Master passou a ser acionado inclusive nas disputas estaduais, mirando sobretudo as candidaturas governistas.
A exceção que confirma a regra: os governos estaduais
Há, porém, uma nuance reveladora no estudo. Enquanto as disputas ao Senado se estruturam pela polarização nacional, as corridas aos governos estaduais mostram um ambiente mais fragmentado e mais permeável às agendas locais. No Centro-Oeste, o top 10 das candidaturas a governador se divide entre sete partidos diferentes — sem um domínio bolsonarista como no Senado —, e temas locais (infraestrutura, segurança, violência contra a mulher, denúncias sobre gestões) ganham mais peso.
A leitura do relatório é precisa: o Senado virou o terreno da guerra nacional simbólica, enquanto o governo estadual ainda preserva algo da política de resultados e de disputa regional. Faz sentido — o senador é visto como "voto ideológico" para compor forças em Brasília, enquanto o governador é cobrado pela gestão concreta do estado.
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O que isso diz sobre a eleição (e sobre Rondônia)
Um aviso de método, necessário: o estudo não cobre a região Norte — o hub Norte-Nordeste analisou Pará, Ceará e Pernambuco, e Rondônia não está entre os estados monitorados. Portanto, nada aqui é uma medição direta do comportamento das campanhas rondonienses. Mas o valor do relatório está em revelar um padrão nacional que dificilmente pararia nas fronteiras de RO — sobretudo em um estado de perfil eleitoral marcadamente bolsonarista, onde a lógica de "senador de Flávio" e o discurso anti-STF encontram terreno fértil.
O retrato que emerge é o de uma democracia em que a eleição local perde autonomia diante da polarização nacional. Quando 92,6% do engajamento de uma disputa ao Senado se concentra em dez nomes, e a maioria deles fala mais de Brasília do que do próprio estado, o eleitor é convidado a decidir o Senado como quem vota de novo para presidente. A pergunta que o estudo deixa em aberto — e que vale para o eleitor de qualquer estado, inclusive os de Rondônia — é incômoda: numa eleição em que tudo vira extensão do duelo Lula x Flávio, quem fica encarregado de discutir os problemas concretos de cada estado? Ou, dito de outro modo: se o voto para o Senado virou um segundo turno presidencial antecipado, o que se perde no caminho é a própria ideia de representação regional.
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