Nossa Senhora Aparecida: STF vai julgar posts sobre Flávio Bolsonaro
O plenário do STF vai decidir se posts que ligam Flávio Bolsonaro ao fim do título de padroeira podem circular. A polêmica nasceu de um projeto arquivado em 2008, de outro autor
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- O plenário do STF vai julgar se publicações que associam Flávio Bolsonaro (PL) à retirada do título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida podem continuar no ar.
- O ministro André Mendonça, do TSE, mandou remover os posts. O ministro Flávio Dino, do STF, derrubou a ordem e levou o caso ao plenário.
- A polêmica tem origem num projeto de lei de 2007, apresentado pelo ex-deputado Victório Galli e arquivado em 2008. Não há registro de que Flávio tenha apresentado ou apoiado a proposta.
- Por que isso importa: a seis dias da eleição, o caso junta fé, desinformação e o limite entre liberdade de expressão e propaganda eleitoral
O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) vai decidir se publicações que associam o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) à retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida podem continuar circulando. Nesta segunda-feira (28), o ministro Flávio Dino enviou ao plenário a decisão em que liberou um post do humorista Antonio Tabet sobre o tema. Cabe agora ao presidente do STF, Edson Fachin, marcar a data do julgamento. A polêmica começou com um projeto de lei arquivado há quase 20 anos, que não foi apresentado nem apoiado por Flávio.
De onde veio a história: um projeto de 2007
A origem do caso é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli, de Mato Grosso, à época filiado ao MDB. Segundo a CartaCapital, Galli foi aliado e ex-assessor de Jair Bolsonaro.
O projeto pretendia alterar a Lei 6.802, de 1980, que criou o feriado nacional de 12 de outubro. A ideia era trocar a expressão "padroeira do Brasil" por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O feriado seria mantido.
Na justificativa, o autor argumentava que o Brasil, por ser um Estado laico, não deveria ter um padroeiro oficial. A proposta foi rejeitada pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara e arquivada em agosto de 2008.
Como o tema chegou à campanha
O assunto voltou na quinta-feira (24). No programa Em Pauta, da GloboNews, a jornalista Maria Cristina Fernandes falou de uma reação na Igreja Católica a um suposto movimento de evangélicos para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira. Ela avaliou que o movimento poderia favorecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os católicos.
Publicações nas redes usaram o trecho para afirmar que Flávio pretendia retirar o título. Segundo a CNN Brasil, os posts tiraram a fala de contexto. A GloboNews depois veiculou uma retratação, esclarecendo que o projeto era de 2007 e não tinha relação com a candidatura de Flávio.
Os conteúdos também usaram uma fala de Flávio de agosto, em que ele disse que um de seus primeiros atos como presidente seria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo".
O que diz Flávio Bolsonaro
Flávio negou a história na mesma quinta-feira, em vídeo gravado durante agenda em Minas Gerais. Ele atribuiu o boato ao PT e afirmou que não existe proposta sua sobre o tema.
"Não existe esse projeto."
— Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência
A briga na Justiça: Mendonça manda tirar, Dino manda voltar
A campanha de Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por propaganda desinformativa. Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, que integra o TSE, determinou que as plataformas retirassem publicações que apresentassem como verdadeira a afirmação de que Flávio ou sua família pretendiam acabar com o título de padroeira.
A ordem atingiu um post do humorista Antonio Tabet no X. Em seguida, segundo o Metrópoles, Mendonça ampliou a decisão para exigir a remoção de qualquer publicação que ligasse Flávio a Nossa Senhora Aparecida.
No domingo (27), Flávio Dino, do STF, revogou a ordem de Mendonça sobre o post de Tabet. Segundo o Brasil 247, Dino ponderou que a publicação do humorista não mencionava Flávio nem a família dele pelo nome.
Nesta segunda-feira (28), Dino levou o caso ao plenário. Ele justificou a medida com a proximidade de 12 de outubro, dia do feriado de Nossa Senhora Aparecida e do Dia das Crianças, que mobiliza milhões de fiéis. Segundo o ministro, isso torna sensível qualquer restrição a publicações sobre o tema. Dino também afirmou que a ordem de Mendonça poderia resultar em censura ao debate sobre a condição de padroeira da santa.
A reação da campanha
A campanha de Flávio criticou a decisão. Em nota, os advogados da campanha, entre eles a ex-ministra do TSE Maria Cláudia Bucchianeri, afirmaram que o TSE é o órgão com competência constitucional para fiscalizar a propaganda na disputa presidencial. Eles lembraram que a decisão de Mendonça foi proferida em processo distribuído por sorteio e submetida ao referendo do plenário do TSE.
Segundo o Metrópoles, o senador Rogério Marinho (PL) afirmou que a decisão de Dino favorece Lula.
Flávio também passou a criticar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No domingo (27), a entidade divulgou uma nota de esclarecimento sobre as informações que envolviam seu nome nas redes sociais.
O que o STF vai decidir
O julgamento no plenário não vai decidir se Flávio quer ou não retirar o título de padroeira, porque não há proposta nesse sentido. A questão é outra: se uma decisão individual de um ministro do TSE pode mandar retirar, de forma ampla, publicações sobre o tema, e onde fica o limite entre combater desinformação e restringir a liberdade de expressão.
O caso também expõe uma tensão entre os dois tribunais. Dino apontou a relevância de discutir o alcance das decisões individuais dos juízes da propaganda no TSE. A defesa de Flávio acusa o ministro de agir para desautorizar a Justiça Eleitoral.
A data do julgamento ainda depende de Fachin. Se o plenário se reunir antes de domingo, a decisão vai valer para os últimos dias de campanha. Se não, o caso será decidido quando o voto já tiver sido dado, e poucos dias antes do 12 de outubro que está no centro da disputa.
Versão em áudio disponível no topo do post.