Operação da PF em RO contra suposta milícia formada por agentes públicos é resultado da ausência estatal e política armamentista
Via Painel Político

Em meados dos anos 80, a Fazenda Santa Júlia era um gigantesco latifúndio. Ela foi invadida por posseiros bem antes do MST ser um grande movimento. Para proteger a propriedade os donos contrataram jagunços que mataram vários posseiros, um sobreviveu, conseguiu acionar a polícia e após alguns dias foram encontrados os corpos. A fazenda foi desapropriada pelo INCRA e virou a Linha Triunfo, em Candeias do Jamari.
Em 9 de agosto de 1995, a Polícia Militar de Rondônia organizou uma operação de guerra para realizar uma reintegração de posse. A Fazenda Santa Elina, de 18 mil hectares, na distante Corumbiara, região sul do Estado, havia sido ocupada por cerca de 150 famílias. O que se seguiu dali em diante ficou mundialmente conhecido como ‘Massacre de Corumbiara‘. Foram 12 mortes, sendo nove de trabalhadores rurais, duas mortes de militares e uma de um homem até hoje não identificado. O massacre de Corumbiara levou Rondônia e o Brasil a responderem na Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação do direito à vida e dos direitos humanos.
O estado recebeu a recomendação expressa de realizar as indenizações às vítimas. Nunca pagou nenhum centavo. A fazenda Santa Elina foi desmembrada e se transformou em três, e segue até hoje, sendo palco de conflitos. O mais recente em 2021, quando o movimento Liga dos Camponeses Pobres (LCP) uma dissidência radical do MST em Rondônia, invadiu uma área de 3,2 mil hectares da área de reserva da Fazenda Nossa Senhora Aparecida (uma das três desmembradas da Santa Elina).

Em abril de 2021, dois policiais militares foram mortos e seis ficaram feridos quando sofreram uma emboscada. De acordo com reportagem da Folha de São Paulo, o grupo estava pescando na área da Fazenda Norbras, que possui 33 mil hectares e teriam sido mortos ‘por invasores’ que mantém um acampamento próximo, o Ademar Ferreira. A fazenda fica no distrito de Nova Mutum, que pertence à capital, Porto Velho.
Em agosto do ano passado os trabalhadores rurais do acampamento denunciaram as mortes de três pessoas e o desaparecimento de outras cinco, que segundo eles, teriam sido mortas por policiais militares.
Nesta quinta-feira, 17.11, a Polícia Federal deflagrou operação cumprindo mandados de buscas e prisões preventivas. Entre os presos, um delegado e policiais militares. De acordo com as investigações, esses agentes públicos formam uma milícia que estaria agindo para ‘proteger a fazenda de invasores’.
O memorial acima trata apenas de questões com maior repercussão, em 2021 Rondônia foi o estado brasileiro com maior número de pessoas assassinadas em consequência de conflitos rurais. Em todo o Brasil foram registrados 35 assassinatos no campo, sendo 11 no Estado.
Mas todas essas mortes, agressões, desaparecimentos poderiam ter sido solucionadas não fosse as falhas de governos, e os do PT estão incluídos. Passou da hora da União regularizar as terras, fazer uma reforma agrária ampla, analisar a cadeia dominial de terras, indenizar a quem for de direito.
É bom lembrar que Jair Bolsonaro defendeu, ainda durante a campanha eleitoral em 2018, o armamento de todos os proprietários de terras, inclusive com fuzil, para defesa de suas propriedades, deixando o Estado como mero espectador dos conflitos.
No campo tem que ter fuzil. Eu já morei em fazenda, lá em Eldorado Paulista, e cultivei 30 hectares de arroz no Mato Grosso do Sul. Tem que ter um fuzil, pô! Você acha que o cara que entra em sua fazenda sem estar autorizado para dar uma foiçada no pé de um boi, outra no cupim, depois vai embora e larga o boi lá? Esse cara merece o quê? Isso acontece e deixou de acontecer bastante
Jair Bolsonaro
Talvez isso explique o aumento de mortes no campo em 2021. As 35 vítimas eram:
10 eram indígenas,
9 sem-terras,
6 posseiros,
3 quilombolas,
2 assentados,
2 pequenos proprietários,
2 quebradeiras de coco babaçu e
1 aliado.
Quando falo em ‘reforma agrária’ não me refiro ao Enzo, que tem uma fazendola e tem “medo dos comunistas”, mas sim os latifúndios gigantescos com milhares de hectares na Amazônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondônia, Amapá, Acre e Tocantins. A partir de uma ampla investigação é possível encontrar a cadeia dominial de cada um dos latifúndios, muitos deles sem nenhuma utilização em um país onde a desigualdade e a falta de moradia é crônica.
Enquanto o Estado Brasileiro não assumir sua parte ‘neste latifúndio’, seguiremos com mortes, conflitos, invasões, ordens de reintegração e uso arbitrário das próprias razões.
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