Operação Palanque Digital: PF apura esquema de R$ 25 milhões no Amapá
Ex-prefeito de Macapá é alvo de nova ação federal que investiga uso de verba pública para financiar ataques a adversários e produção de conteúdos manipulados com IA
📋 Em resumo ▾
- PF deflagra Operação Palanque Digital contra esquema de R$ 25 milhões em Macapá
- Investigação aponta uso de cargos públicos para pagar milícia digital e influenciadores
- Polícia identifica uso de IA para criar deepfakes e conteúdos manipulados contra adversários
- Dr. Furlan renunciou em março para evitar cassação e manter elegibilidade ao governo do Amapá
- Por que isso importa: o caso expõe riscos da desinformação patrocinada com recursos públicos em ano eleitoral
A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira a Operação Palanque Digital para apurar o desvio de R$ 25 milhões da prefeitura de Macapá com o objetivo de financiar ataques a adversários políticos e produzir conteúdos manipulados. O alvo principal é o ex-prefeito Dr. Furlan (PSD), pré-candidato ao governo do Amapá.
Como funcionava o esquema de desinformação
Conforme apura a PF, contratos de publicidade institucional da prefeitura teriam sido utilizados para desviar recursos destinados à comunicação pública. O dinheiro, em tese, custeava influenciadores digitais, veículos de comunicação e empresas especializadas para divulgar ações de caráter político-eleitoral.
A investigação aponta que pessoas ligadas a uma suposta milícia digital eram nomeadas em cargos de várias secretarias municipais. Essa estratégia funcionaria como forma de pagamento pelas divulgações irregulares, blindando a operação sob a aparência de legalidade administrativa.
"A quantia milionária destinada à comunicação pública teria sido desviada para custear influenciadores digitais e veículos para divulgação de ações de caráter político-eleitoral."
A inovação criminosa, segundo a polícia, está no uso de inteligência artificial para criar imagens, vídeos, áudios manipulados e deepfakes. O objetivo era produzir material de ataque contra adversários com aparência de veracidade, dificultando a identificação da origem e a responsabilização.
A trajetória recente de Dr. Furlan
Dr. Furlan (PSD) foi afastado do cargo de prefeito de Macapá em março deste ano por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), em outra ação da Polícia Federal. Na época, a investigação apurava um suposto esquema de fraude em licitações para a construção de um hospital na capital amapaense.
No dia seguinte ao afastamento, ele renunciou ao mandato para evitar a cassação, manobra que preservou seus direitos políticos e manteve aberta a possibilidade de concorrer ao governo do estado. Logo após a operação que motivou seu afastamento, anunciou sua pré-candidatura, alegando ser alvo de "ataques e perseguições".
O que apura a Operação Palanque Digital
A ação cumpre 35 mandados de busca e apreensão nas cidades de Macapá (AP), Belém (PA) e Canela (RS). O foco é a prática de crimes eleitorais a partir da criação e operação de uma rede digital de desinformação, autopromoção política e ataques coordenados a adversários.
"A investigação apura a prática de crimes eleitorais a partir da criação de uma rede digital de desinformação, autopromoção política e ataques a adversários."
A PF aponta indícios de que o esquema envolvia agentes públicos, como o ex-prefeito e o vice-prefeito Mario Neto (MDB), além de empresários. A estratégia combinava desvio de recursos, direcionamento de licitações e lavagem de dinheiro para sustentar a estrutura de comunicação paralela.
Conexão com o esquema do hospital municipal
Esta não é a primeira vez que a gestão de Dr. Furlan é alvo de investigações federais. Em setembro do ano passado, a PF já havia deflagrado operação que apurava fraudes em licitações para as obras do Hospital Geral Municipal de Macapá.
O contrato para as obras, formalizado em maio de 2024, foi firmado por R$ 69,3 milhões. Durante as investigações, a polícia monitorou um veículo do então chefe do Executivo transportando uma mochila com R$ 400 mil em espécie — fato que fundamentou o pedido de afastamento aceito pelo STF.
Por que este caso importa para o eleitor
O caso expõe uma fronteira preocupante na política brasileira: o uso de estruturas públicas e recursos oficiais para financiar guerras de desinformação em período eleitoral. A sofisticação do esquema, com emprego de inteligência artificial para criar deepfakes, eleva o risco de manipulação do debate público.
Em um ano de disputas estaduais, a Operação Palanque Digital reacende o debate sobre os limites da comunicação institucional e a necessidade de mecanismos mais rígidos de controle sobre o uso de verbas públicas. A pergunta que fica é: quantos outros "palanques digitais" operam sem que a sociedade perceba a origem do financiamento?
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