Oposição argentina pede explicações a Milei sobre fuga de Flávio
Deputados argentinos querem saber se o governo sabia das restrições impostas pelo STF. Um diretor da Presidência comemorou: Flávio está “a salvo das garras do comunismo”
📋 Em resumo ▾
- Parlamentares de oposição na Argentina pediram ao governo de Javier Milei explicações sobre a passagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pelo país.
- O deputado Esteban Paulón quer saber se o governo argentino foi avisado das restrições impostas pelo STF a Flávio.
- Segundo o Infobae, uma fonte da Casa Rosada disse que o governo “coordenou e colaborou” com a operação. Na véspera, o governo tinha negado qualquer envolvimento.
- Flávio entrou na Argentina com o passaporte italiano. Os passaportes brasileiros tinham sido cancelados pela PF.
- Por que isso importa: se a colaboração do governo argentino se confirmar, o caso deixa de ser só judicial e vira crise diplomática entre Brasil e Argentina.
Parlamentares de oposição ao presidente argentino Javier Milei apresentaram na Câmara dos Deputados da Argentina um pedido para que o governo explique a passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pelo país. Derrotado no 2º turno da eleição presidencial brasileira, Flávio entrou na Argentina na noite de terça-feira (27/10) e embarcou num jato particular que chegou a Miami, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta (28). As informações são do O Globo e da imprensa argentina.
O que a oposição quer saber
O pedido de informações foi apresentado pelo deputado Esteban Paulón, do Partido Socialista. Ele quer que o governo responda cinco perguntas:
- Entrada: se há registro da entrada de Flávio entre 25 e 28 de outubro, com data, hora, posto de fronteira e documento usado;
- Saída: se há registro da saída, por onde e com qual documento;
- Avião: os movimentos do jato Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, da Baires Fly, incluindo o plano de voo e o destino declarado;
- Passageiros: quantas pessoas passaram pelo controle migratório e se Flávio estava entre elas;
- Alertas judiciais: se o governo argentino recebeu avisos formais sobre restrições de saída ou retenção de documentos do senador e, em caso positivo, o que fez com eles.
“Escandaloso! Merecemos uma explicação sobre a fuga de Brasil de Flávio Bolsonaro, via Argentina.”
— Esteban Paulón, deputado argentino (tradução livre)
A senadora Juliana Di Tullio, do kirchnerismo, cobrou explicações do chefe de gabinete, Diego Santilli. Blocos de oposição também querem convocar ao Congresso a ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, e o chanceler, Pablo Quirno.
O governo negou, depois comemorou
A posição do governo argentino mudou ao longo de 24 horas:
- Terça (27/10), de manhã: a Direção Nacional de Migrações informou que não havia registro da entrada de Flávio no país;
- terça, à tarde: fontes da Casa Rosada disseram ao jornal La Nación: “Não temos nada a ver”;
- quarta (28/10), de madrugada: a mesma Migrações confirmou a entrada às 22h50 de terça e disse que “não havia impedimento legal”;
- quarta, de manhã: segundo o Infobae, uma fonte “muito alta” da Casa Rosada disse que o governo “coordenou e colaborou” com a operação e que Milei sabia da logística. “Queríamos fazer da forma mais organizada possível”, disse a fonte. Segundo o jornal, assessores jurídicos de várias áreas do governo analisaram os cenários para proteger o governo de sanções.
O diretor nacional de Comunicação Digital da Presidência, Juan Pablo Carreira, comemorou nas redes sociais. Segundo o O Globo, ele escreveu no X:
“Flávio Bolsonaro está a salvo das garras do comunismo que querem meter presos a todos os opositores, e agora vai poder seguir a luta desde os Estados Unidos em vez de desde uma cela em Brasília como o pai dele.”
— Juan Pablo Carreira, diretor de Comunicação Digital da Presidência argentina (tradução do O Globo)
Carreira também escreveu que o governo Milei é o mais “corajoso” da história. Ele usou uma expressão vulgar em espanhol.
O que é fato e o que é versão: a entrada e o embarque foram confirmados oficialmente pela Migrações. A colaboração ativa do governo é informação de uma fonte anônima ouvida pelo Infobae, sem confirmação oficial. O governo argentino diz que “cumpriu todos os passos legais”.
O passaporte italiano
Segundo o O Globo e o Infobae, Flávio entrou na Argentina usando o passaporte italiano. A esposa e as duas filhas usaram os documentos habituais, porque não estavam incluídas na ordem judicial.
Por que isso importa:
- O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou Flávio entregar todos os passaportes, inclusive os de outra nacionalidade;
- a Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros, comum e diplomático. Mas a PF não tem como cancelar um passaporte emitido pela Itália;
- por isso, o documento italiano continuava válido para as autoridades argentinas, que dizem não ter recebido nenhum impedimento.
A pergunta central do pedido de Paulón é justamente esta: o Brasil avisou formalmente a Argentina das restrições? Até agora, nenhuma das partes informou se houve essa comunicação.
A rota da fuga
- Terça (27/10), 22h50: Flávio entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, na província de Misiones;
- terça, 23h30: embarcou no jato da Baires Fly. O plano de voo informado indicava Guayaquil, no Equador;
- quarta (28/10), 6h22 (Brasília): o avião decolou de Guayaquil;
- quarta, por volta das 10h24 (Brasília): pousou no Miami-Opa Locka Executive Airport, terminal executivo na região de Miami.
A reação no Brasil
Uma fonte diplomática do Itamaraty disse ao Infobae que o episódio “foi uma provocação” e manifestou preocupação com a relação entre os dois países. O Palácio do Planalto não se manifestou oficialmente até a publicação.
A situação jurídica de Flávio
Flávio descumpriu a ordem do STF ao não entregar os passaportes e ao sair do país. Até a publicação, não havia mandado de prisão contra ele. Deputados do PT pediram a prisão preventiva, mas não houve decisão de Moraes. Flávio é investigado, e não acusado, em inquéritos sobre suposta lavagem de dinheiro e sobre o financiamento do filme Dark Horse, e nega irregularidades.
O outro lado
O governo argentino afirma que “todos os passos legais foram cumpridos” e que Flávio entrou com documentação válida. Flávio Bolsonaro não se manifestou. O Painel Político procurou a assessoria do senador e aguarda resposta.
Em menos de 24 horas, o governo Milei passou de “não temos nada a ver” para comemorar publicamente a saída de Flávio. Se a colaboração descrita pelo Infobae se confirmar, a Argentina terá ajudado um investigado a escapar de uma ordem da Justiça brasileira, e isso muda o tom da relação entre os dois maiores países do Mercosul. A resposta ao pedido de Paulón vai mostrar se o governo argentino sabia das restrições. Do lado brasileiro, a pergunta é se o Itamaraty e a PF avisaram os vizinhos a tempo. As duas respostas vão definir de quem é a responsabilidade política pela fuga.
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