Partidos pagaram até R$ 630,5 mil ao ano a presidentes em 2025
Levantamento do g1 nas contas prestadas ao TSE mostra teto de R$ 52,5 mil por mês para comandar uma sigla, num ano em que o Fundo Partidário bateu recorde de R$ 1,1 bilhão.
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- Presidentes de partidos receberam até R$ 630,5 mil ao ano (R$ 52,5 mil/mês) em 2025, segundo levantamento do g1 nas prestações de contas de 30 legendas enviadas ao TSE.
- O Fundo Partidário distribuiu R$ 1,126 bilhão em 2025 a 19 siglas, mais R$ 102,5 milhões em multas eleitorais repassadas às direções nacionais (TSE).
- Levantamento do Estadão sobre dirigentes partidários (não só presidentes) mostrou o PL concentrando os maiores salários de 2025, com Valdemar Costa Neto, Jair e Michelle Bolsonaro entre os mais bem pagos.
- A legislação permite remuneração de dirigentes sem exigir comprovação de atividades, e a direção nacional pode gastar até 50% da cota do Fundo Partidário com pessoal.
- Por que isso importa: o mesmo dinheiro público que sustenta salários de cúpula parte agora para formar caixa de campanha rumo às eleições de 2026, em meio a críticas sobre falta de transparência nos gastos partidários.
Os partidos políticos brasileiros pagaram, em 2025, remunerações de até R$ 630,5 mil por ano a seus presidentes nacionais, o equivalente a R$ 52,5 mil por mês. O número é de levantamento do g1 a partir das prestações de contas que as 30 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresentaram à Justiça Eleitoral, cobrindo despesas das direções nacionais em nome de seus dirigentes máximos.
O valor expõe uma engrenagem pouco visível do sistema partidário: parte do dinheiro público que chega às siglas todo mês vira salário para quem está no comando, num ano em que o financiamento partidário bateu recorde.
O tamanho do caixa que sustenta os salários
Em 2025, o Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, mais conhecido como Fundo Partidário, distribuiu R$ 1.126.071.496,13 a diretórios nacionais de 19 legendas do país. Além disso, foi repassada aos partidos a quantia de R$ 102.572.513,68 em multas eleitorais arrecadadas no ano passado.
O montante representa alta de 2,4% sobre 2024, quando o fundo somou R$ 1,099 bilhão (Gazeta do Povo). O Partido Liberal (PL) ficou com R$ 192,2 milhões, enquanto o Partido dos Trabalhadores (PT) abocanhou R$ 140,5 milhões. Os cinco maiores partidos no Congresso Nacional ficaram com 27,7% dos recursos do fundo partidário no ano passado, enquanto o Partido Verde (PV) foi a legenda menos agraciada, com R$ 11,8 milhões.
Nem todas as 30 siglas registradas no TSE participam dessa partilha. Dez legendas com estatutos registrados no TSE não receberam recursos do Fundo Partidário por não terem atingido a cláusula de desempenho prevista na Constituição — casos de Novo, PCB, PSTU e UP, entre outras. Só têm direito ao fundo os partidos que obtiverem, nas eleições para a Câmara, no mínimo 3% dos votos válidos distribuídos em pelo menos um terço dos estados, ou que tenham eleito ao menos 15 deputados federais.
Como a lei permite pagar quem dirige a sigla
A remuneração de dirigentes partidários com dinheiro do Fundo Partidário não é ilegal nem nova. Desde pelo menos 2018, o TSE reafirmou por maioria de votos que os dirigentes podem ser pagos com verbas do Fundo Partidário, sem que haja necessidade de comprovação das atividades desempenhadas nas siglas. A regra segue valendo: por lei, a direção nacional dos partidos pode gastar com funcionários até 50% da parcela que recebe do Fundo Partidário, limite que sobe para 60% nos diretórios estaduais e municipais.
O dinheiro tem destinação ampla. Os recursos são repassados mensalmente às siglas, em forma de duodécimos, para o custeio de despesas cotidianas das agremiações, como pagamento de salários de funcionários, contas de água e luz, passagens aéreas e aluguéis. Desde 2019, a lista de gastos permitidos inclui também impulsionamento de conteúdo na internet e serviços jurídicos e contábeis.
PL concentra os salários mais altos da cúpula partidária
Um levantamento paralelo do jornal Estadão, também baseado nas contas do TSE, mas com foco no conjunto de dirigentes partidários — não apenas presidentes —, mostrou o PL na liderança dos maiores contracheques de 2025. No topo da lista aparecem Valdemar Costa Neto e José Tadeu Candelária, presidente do diretório paulista do PL, ambos com rendimento médio mensal de R$ 33,7 mil. Michelle Bolsonaro também recebeu remuneração média de R$ 33,7 mil no período, enquanto Jair Bolsonaro, presidente de honra da legenda, registrou rendimento médio de R$ 32,7 mil por mês em 2025.
O partido de Valdemar Costa Neto não é exceção isolada. O presidente nacional do Partido Renovação Democrática (PRD), Marcos Vinícius Ferreira, o Neskau, e Ovasco Resende receberam remuneração média de R$ 31 mil por mês. No Podemos, a presidente nacional da sigla, deputada federal Renata Abreu, recebeu remuneração média de R$ 26,8 mil mensais.
“Seja para dirigentes ou para outras pessoas que prestam serviços, os partidos costumam optar pelo pagamento por serviços prestados. Além de simplificar as questões tributárias e de encargos sociais, esse pagamento não é limitado pelo teto”, afirmou Antonio Carlos de Freitas Júnior ao Estadão.
Uma escalada que vem de longe
O patamar de hoje é bem superior ao registrado em levantamentos anteriores sobre remuneração de dirigentes partidários. Em 2018, um estudo do próprio Estadão sobre as contas de 2017 apontava que presidentes e dirigentes partidários recebiam das legendas salários que chegavam a R$ 27,5 mil por mês — valor então superior, por exemplo, aos vencimentos de governadores, como o de São Paulo, de R$ 22,3 mil por mês.
Em 2020, o dirigente mais bem pago do país era outro: o presidente do Cidadania, Roberto Freire, recebeu R$ 315 mil naquele ano da sigla, o equivalente a R$ 26,3 mil mensais. O segundo maior salário era do então presidente do PTB, Roberto Jefferson, que obteve R$ 314 mil, ou R$ 26 mil por mês. Cinco anos depois, o teto para presidentes partidários praticamente dobrou, alcançando os R$ 52,5 mil mensais identificados pelo g1 para 2025.
Dinheiro público guardado para a campanha de 2026
Parte do Fundo Partidário recebido em 2025 não foi gasta — e ficou reservada para o ano eleitoral. Os partidos políticos brasileiros pouparam, juntos, cerca de R$ 190 milhões do fundo partidário repassado pelo TSE e das doações recebidas ao longo de 2025 para engordar o caixa destinado a financiar as campanhas em 2026, quando haverá eleições para presidente, governadores, senadores e deputados.
O PL lidera também nesse quesito. A sigla controlada por Valdemar Costa Neto soma R$ 262,1 milhões em receitas e R$ 174,8 milhões em despesas, acumulando um superávit de R$ 87,3 milhões. Já o PT fecha as contas de 2025 no vermelho: com a segunda maior cota do fundo partidário, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao final do ano com déficit de R$ 1 milhão, tendo gastado R$ 152,5 milhões diante de uma arrecadação de R$ 151,5 milhões, sem sobra para 2026.
A diferença de estratégia é permitida por lei: os recursos do fundo partidário — ao contrário da verba do fundo eleitoral, que deve retornar ao Tesouro Nacional — podem ser estocados em conta para o ano seguinte. Para a disputa de 2026, o Fundo Eleitoral já soma R$ 4.961.519.777,00, distribuído entre 30 partidos registrados no TSE, valor que se soma a um Fundo Partidário estimado em R$ 1,4 bilhão na Lei Orçamentária Anual de 2026.
Transparência ainda é o ponto fraco
Especialistas ouvidos por veículos que acompanham o tema apontam que o volume de recursos cresce mais rápido que os mecanismos de fiscalização. Para o advogado Alexandre Rollo, “a transparência dos gastos aumentaria com um maior número de servidores públicos dedicados ao exame das contas partidárias”, especialmente no TSE. Já a advogada Carla Rodrigues defende “transformar as informações que já são lançadas nos sistemas de contas em dados abertos, em tempo quase real, em portais padronizados por partido, com filtros por tipo de gasto, órgão partidário, fornecedor”, permitindo acompanhamento público em tempo real.
O modelo de remuneração de dirigentes, hoje amparado pela jurisprudência do TSE e pela ausência de teto legal específico, deve seguir sob escrutínio à medida que o país entra oficialmente no calendário eleitoral de 2026. Com o Fundo Eleitoral batendo novo recorde e o Fundo Partidário mantendo a casa do bilhão, a pergunta que fica é até onde vai o espaço para que presidências partidárias continuem funcionando também como fonte de renda pessoal para quem as ocupa.
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