Poder & Bastidores

PF apura contrabando e descobre que Hugo Motta e Ciro Nogueira estavam no voo em avião de investigado

Inquérito sobre liberação irregular de bagagens em aeroporto de SP envolve presidente da Câmara e senador em voo procedente de paraíso fiscal; caso tramita no STF sob sigilo e reacende debate sobre foro privilegiado

PF apura contrabando e descobre que Hugo Motta e Ciro Nogueira estavam no voo em avião de investigado
📷 Imagem da câmera de segurança do Aeroporto de Catarina (SP) mostra funcionário do empresário Fernando Oliveira Lima passando bagagens por fora do raio-x Foto: Reprodução
📋 Em resumo
  • Polícia Federal apura possível contrabando em voo particular com quatro parlamentares retornando de paraíso fiscal
  • Auditor fiscal Marco Antônio Canella é investigado por permitir passagem de bagagens sem inspeção no aeroporto de Catarina (SP)
  • Supremo Tribunal Federal recebeu o inquérito devido ao foro privilegiado dos envolvidos; PGR deve se manifestar
  • Empresário Fernando Oliveira Lima, alvo da CPI das Bets, é dono da aeronave e teve empresa investigada por jogos online
  • Por que isso importa: o caso coloca sob escrutínio a interseção entre poder legislativo, fiscalização aduaneira e o setor de apostas em momento de regulação federal
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

A Polícia Federal apura a entrada no Brasil de bagagens que não passaram por inspeção de raio-X em voo particular procedente de Saint Martin, no Caribe, com a presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do senador Ciro Nogueira (PP-PI) e dos deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL). O caso, que envolve suspeitas de descaminho ou contrabando, foi remetido ao Supremo Tribunal Federal devido ao foro privilegiado dos parlamentares. A aeronave pertence ao empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, alvo de investigações relacionadas a plataformas de apostas online."Caso as investigações indiquem envolvimento de autoridades com foro privilegiado, os autos devem tramitar no Supremo Tribunal Federal", registra despacho da Polícia Federal.

Como funcionou a apuração da Polícia Federal

As suspeitas surgiram a partir de uma investigação paralela sobre a conduta do auditor fiscal Marco Antônio Canella, indiciado por facilitação de contrabando ou descaminho em outro inquérito. No episódio em análise, gravado por câmeras de segurança do Aeroporto Executivo Internacional Catarina, em São Roque (SP), Canella teria autorizado que um funcionário do empresário desembarcasse e transportasse sete volumes de bagagem por fora do equipamento de raio-X, na noite de 20 de abril de 2024.

Os parlamentares, por sua vez, submeteram suas malas ao procedimento padrão de inspeção. Contudo, a PF não conseguiu identificar até o momento a quem pertenciam as bagagens que contornaram a fiscalização. Como o voo teve origem em jurisdição considerada paraíso fiscal pela Receita Federal, a possibilidade de conteúdo ilegal nas malas não inspecionadas motivou a abertura do inquérito.

O que se sabe sobre os passageiros e o empresário

Hugo Motta confirmou à imprensa que esteve no voo, mas afirmou que cumpriu todos os protocolos aduaneiros ao desembarcar. As assessorias de Ciro Nogueira, Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões, assim como o empresário Fernando Oliveira Lima, foram procuradas para manifestação, mas não responderam até a publicação desta análise.

Fernando Oliveira Lima é sócio de empresas do setor de apostas online, incluindo a OIG Gaming Brazil, e foi ouvido pela CPI das Bets no Senado em 2024. A comissão parlamentar investigou irregularidades em plataformas de jogos como o Fortune Tiger, popularmente chamado de "jogo do tigrinho". O empresário já havia sido alvo de pedidos de convocação devido a possíveis vínculos com operações de cassino online não autorizadas no Brasil.

Por que o caso foi enviado ao Supremo Tribunal Federal

A competência para investigar autoridades com foro privilegiado — como presidentes da Câmara, senadores e deputados federais — é do Supremo Tribunal Federal. Após constatar a presença dos quatro parlamentares no voo sob apuração, a Polícia Federal remeteu o inquérito à Procuradoria-Geral da República, que deve opinar sobre a existência de indícios suficientes para prosseguir com a investigação perante a Corte.

O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF, determinou que a PGR se manifeste em até cinco dias. Enquanto isso, o processo tramita sob sigilo. A decisão de enviar os autos ao Supremo reflete o protocolo institucional para preservar a legalidade processual quando há possibilidade de envolvimento de autoridades com prerrogativa de foro.

"A deliberação acerca da competência para o processamento e julgamento incumbe ao Supremo Tribunal Federal", afirmou a juíza Carolina Castro Costa, da 1ª Vara Federal de Sorocaba, ao determinar o encaminhamento.

Contexto: fiscalização aduaneira e o setor de apostas

O aeroporto de Catarina, em São Roque, é utilizado predominantemente para aviação executiva e opera sob regras específicas de controle aduaneiro. A liberação de bagagens sem inspeção por raio-X constitui procedimento excepcional, reservado a situações previstas em norma, e depende de justificativa formal. A conduta do auditor Marco Antônio Canella, caso confirmada como irregular, pode configurar prevaricação ou facilitação de contrabando, crimes previstos no Código Penal e na legislação aduaneira.

Paralelamente, o setor de apostas online vive momento de transição regulatória no Brasil. A Lei 14.790/2023 estabeleceu marco legal para as bets, mas a implementação das normas e a fiscalização das operadoras ainda enfrentam desafios. A CPI das Bets, encerrada em 2025 sem relatório final aprovado, evidenciou tensões entre interesses econômicos, lacunas regulatórias e a necessidade de controle sobre plataformas que operam em ambiente digital transfronteiriço.

O que pode acontecer a partir de agora

A manifestação da Procuradoria-Geral da República será determinante para os próximos passos. Se a PGR identificar indícios de ilícitos penais envolvendo os parlamentares, o STF poderá autorizar a continuidade das investigações com as cautelas processuais devidas. Caso contrário, o inquérito poderá ser arquivado ou redirecionado para apuração de responsabilidades administrativas, como a conduta funcional do auditor fiscal.

Independentemente do desfecho jurídico, o episódio reacende debates sobre três eixos sensíveis: a transparência no uso de aeronaves particulares por autoridades públicas, a eficácia dos controles aduaneiros em aeroportos executivos e a regulação de um setor econômico em rápida expansão. A opinião pública acompanhará se as instituições conseguirão equilibrar apuração rigorosa e presunção de inocência — princípio que protege tanto cidadãos comuns quanto detentores de mandato.

Versão em áudio disponível no topo do post

#HugoMotta #CiroNogueira #Contrabando #PolíciaFederal #Bets