PF investiga Iprev de Maceió por aporte de R$ 117 milhões ao Banco Master
Polícia Federal e CGU cumprem mandados no instituto de previdência de Maceió em investigação sobre aplicação milionária em papéis do banco de Daniel Vorcaro
📋 Em resumo ▾
- A Polícia Federal deflagrou operação nesta segunda-feira (10) no Iprev de Maceió, investigando aplicação de R$ 117 milhões em papéis do Banco Master
- O instituto era a 3ª maior aplicação de previdência municipal no banco de Daniel Vorcaro, que teve liquidação extrajudicial decretada em novembro de 2025
- A PF suspeita de falsificação e fraude na decisão do Conselho do Iprev que liberou o repasse; integrantes da CGU também participam das buscas
- O prefeito JHC (PL) já foi alvo de ação popular sobre o caso, mas a Justiça de Alagoas o retirou do processo em julho por falta de irregularidade comprovada
- Por que isso importa: O caso expõe como fundos de previdência de servidores municipais foram parar em um banco em crise, com indícios de que políticos recebiam propina para defender os interesses de Vorcaro
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta segunda-feira (10) uma operação no Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev), no âmbito das investigações sobre o Banco Master. A ação, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), visa apurar como o instituto aportou cerca de R$ 117 milhões em papéis do banco controlado por Daniel Vorcaro, hoje em processo de liquidação extrajudicial. Integrantes da Controladoria-Geral da União (CGU) também participam das buscas.
Como R$ 117 milhões de servidores foram parar no Banco Master
O Iprev de Maceió aplicou aproximadamente R$ 117 milhões em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master entre 2023 e 2024. O montante representava, à época, menos de 10% do patrimônio do instituto — que chegou a R$ 1,4 bilhão —, mas era a terceira maior aplicação de um Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) municipal no banco de Vorcaro, segundo levantamento do Ministério da Previdência Social.
As aplicações ocorreram exclusivamente em letras financeiras — instrumentos não cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que aumenta o risco de perdas em cenários de liquidação. Ao todo, 18 RPPS estaduais e municipais aplicaram R$ 1,867 bilhão no Banco Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.
A PF suspeita de que a decisão do Conselho do Iprev que liberou o repasse pode ter sido falsificada ou fraudada. A investigação aponta que Vorcaro obtinha milhões de reais em diferentes fundos de previdência com a ajuda de políticos que recebiam propina para defender os interesses do banco. Depois que o dinheiro entrava, era desviado por meio de operações fraudulentas envolvendo empresas de fachada, notas fiscais frias e outros métodos.
O contexto: o colapso do Banco Master e a rede de Vorcaro
O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. O controlador, Daniel Vorcaro, foi preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos em 17 de novembro de 2025 ao tentar embarcar para Dubai. Desde então, o caso se revelou como um dos maiores escândalos financeiros da história recente do Brasil.
As investigações da Operação Compliance Zero apontam que Vorcaro construiu uma rede de relacionamentos que se estendia pelos três Poderes. Mensagens apreendidas revelam diálogos com senadores como Ciro Nogueira (PP-PI) — descrito por Vorcaro como "um dos meus grandes amigos de vida" —, o presidente da Câmara Hugo Motta, o presidente do Senado Davi Alcolumbre, e ministros do STF.
No âmbito dos fundos de previdência, o esquema atingiu vários estados. A Rioprevidência, no Rio de Janeiro, comprou quase R$ 1 bilhão em letras podres do Master. No Amapá, onde o senador Davi Alcolumbre é presidente do Senado, o prejuízo foi de R$ 400 milhões.
"O prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC, aliado de Lira, investiu R$ 110 milhões do fundo dos funcionários municipais (Iprev) no Master."
— Brasil de Fato, março de 2026
A defesa do Iprev e a resposta política
O Iprev de Maceió, em nota, afirmou que vem colaborando com as investigações desde o início. "O Maceió Previdência vem colaborando, desde o início, com as investigações, prestando todos os esclarecimentos e fornecendo as informações solicitadas pelas autoridades competentes", diz o comunicado. O instituto reforça que os atos relacionados aos investimentos "observaram os ritos legais e administrativos aplicáveis" e destaca que seu patrimônio cresceu de aproximadamente R$ 400 milhões em 2021 para mais de R$ 1,6 bilhão atualmente, garantindo a capacidade de pagamento de aposentados e pensionistas.
A crise do Banco Master, contudo, já gerou desdobramentos políticos na Câmara de Vereadores de Maceió. O vereador Rui Palmeira (PSD), ex-prefeito da capital, cobrou explicações sobre o investimento e atribuiu responsabilidade ao atual prefeito JHC (PL). Palmeira afirmou que os valores aplicados chegariam a R$ 117 milhões — número superior ao informado oficialmente pelo Ministério da Previdência Social — e questionou a escolha do Banco Master como destino dos recursos previdenciários.
O líder do governo na Casa, vereador Kelmann Vieira (MDB), reagiu afirmando que a liquidação extrajudicial é um procedimento legal e que ainda não há confirmação de prejuízo definitivo. "O processo não implica necessariamente na perda total dos valores aplicados. Existe um rito a ser seguido e é cedo para qualquer juízo definitivo", argumentou.
JHC e a Justiça: retirado de ação, mas não do foco político
O prefeito João Henrique Caldas (JHC) já foi alvo de ação popular movida pelo senador Renan Calheiros (MDB) que apurava os investimentos do Iprev no Banco Master. Em julho de 2026, porém, a Justiça de Alagoas decidiu retirar JHC do processo, reconhecendo que não havia irregularidade ou participação direta do prefeito nas decisões de investimento do instituto.
A decisão judicial, contudo, não encerrou o debate. O Sindicato dos Servidores Públicos do Município de Maceió (Sindspref) manifestou "preocupação com a noticiada perda de R$ 117 milhões" e requereu, com urgência, reunião com a diretoria do Iprev para obter informações detalhadas sobre os investimentos e as perdas financeiras. A entidade cobra ainda que o Iprev seja composto apenas por servidores públicos municipais efetivos, sem cargos comissionados — reivindicação histórica desde 2005.
O que está em jogo para os servidores de Maceió
A operação da PF desta segunda-feira sinaliza que as investigações sobre o Banco Master estão longe de encerradas. O foco agora recai sobre os gestores dos fundos de previdência que aportaram recursos públicos em um banco já em crise — e sobre os políticos que, segundo a PF, recebiam propina para viabilizar essas aplicações.
Para os cerca de 15 mil servidores municipais de Maceió que dependem do Iprev, a pergunta não é apenas se o dinheiro será recuperado. É também como um instituto com patrimônio de R$ 1,6 bilhão decidiu aplicar R$ 117 milhões em letras financeiras de um banco médio em crise — e quem, afinal, assinou a decisão que liberou o repasse.
A pergunta que a operação deixa no ar é: se a PF encontrar provas de que a decisão do Conselho do Iprev foi fraudada, quem será responsabilizado? E se os R$ 117 milhões não forem recuperados na liquidação do Master, quem explicará aos aposentados de Maceió por que suas aposentadorias foram usadas para financiar o esquema de Daniel Vorcaro?
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