PF investiga vazamento de decisões do STJ a advogado de Flávio
PF aponta que Humberto Pradera vazava minutas de decisões do STJ a Willer Tomaz, advogado próximo a Flávio Bolsonaro
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- O ex-secretário de Tecnologia da Informação do STJ, Humberto Fontoura Pradera, é investigado por suspeita de vazar minutas de decisões ao advogado Willer Tomaz, próximo ao senador Flávio Bolsonaro (PL)
- Pradera foi alvo de busca e apreensão na Operação Linceu, com mandado expedido pelo STF, em investigação por violação de sigilo funcional, peculato eletrônico, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro
- Relatório da PF obtido pelo UOL mostra mensagens em que decisões e pareceres chegavam a Willer antes da publicação oficial, incluindo o caso da disputa entre J&F/Eldorado Celulose e Paper Excellence
- As mensagens também associam a Willer um pagamento de R$ 12,3 milhões via empresa ligada a ele, e apontam tentativa de formalizar a atuação por meio de uma offshore
- Por que isso importa: o caso expõe uma possível estrutura de influência sobre decisões e pareceres em processos bilionários no STJ e no MPF, com ramificações que chegam a um senador da República — e testa os mecanismos de controle interno do próprio Judiciário
O ex-secretário de Tecnologia da Informação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Humberto Fontoura Pradera, é investigado pela Polícia Federal (PF) sob suspeita de vazar minutas de decisões judiciais ao advogado Willer Tomaz, próximo ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Pradera foi alvo de busca e apreensão nesta segunda-feira (19), na Operação Linceu, com mandado expedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em investigação que apura violação de sigilo funcional, peculato eletrônico, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
Exoneração antecipou a operação
Pradera foi exonerado do cargo pelo STJ na última sexta-feira (16), depois que o presidente do tribunal, ministro Luis Felipe Salomão, abriu procedimento interno sobre o caso. Um relatório da PF obtido pelo UOL reconstitui, a partir de mensagens extraídas por quebra de sigilo telemático de Willer, como documentos do STJ e pareceres do Ministério Público Federal (MPF) teriam chegado ao advogado antes da publicação oficial.
Procurado pelo UOL na semana passada, Pradera afirmou que não tem acesso a processos em andamento e que seus acessos no tribunal são restritos.
A foto da decisão ainda não assinada
Segundo a investigação, em outubro de 2024 Pradera enviou a Willer a foto de uma decisão da ministra Nancy Andrighi que ainda não havia sido assinada. A decisão tratava da disputa entre a J&F e a Paper Excellence pelo controle da Eldorado Celulose. A imagem, datada de 24 de outubro, mostra o documento aberto na tela de um computador — a ministra só assinou a decisão quatro dias depois, e a publicação oficial saiu em 30 de outubro, rejeitando recurso da J&F e da Eldorado, resultado favorável à Paper. Segundo a PF, a cena retratada parece ser um local de trabalho, e a identificação do texto foi feita por comparação com a versão publicada posteriormente. Em outras mensagens, Pradera teria repassado a Willer informações sobre movimentações internas do tribunal relacionadas a demandas específicas.
Parecer do MPF circulou antes de ir aos autos
A investigação também aponta que Willer teve acesso a um parecer do MPF na mesma disputa da Eldorado antes de o documento ser formalmente anexado ao processo, em março de 2024 — um arquivo chamado “Parecer Formatado” teria circulado com a mensagem “Irá logo mais para os autos”, protocolado no STJ na manhã daquele mesmo dia. No processo, a Paper Excellence atua por meio da CA Investment; Willer não consta como advogado formal da empresa, mas a PF afirma que as mensagens mostram atuação direta dele no caso.
As mensagens analisadas associam a esse trabalho um pagamento de R$ 12,3 milhões a uma empresa ligada a Willer, a Difusora Comunicação. Como ele não figurava como advogado formal no processo, o valor não seria pago como honorários — segundo a PF, as conversas discutem como justificar o recebimento, com referência a uma “campanha de mídia”, além de tratativas para formalizar a atuação de Willer por meio da Zunway Limited, uma offshore, com pagamentos descritos nas mensagens como feitos “de fora, via invoice”.
Suspeita sobre ex-subprocurador-geral
A PF também aponta que Willer discutia processos com o então subprocurador-geral da República Antônio Carlos Simões Martins Soares, representante do MPF no STJ, sugerindo teses para os pareceres. Em um dos casos — recurso de Edemar Cid Ferreira, fundador do Banco Santos, contra a massa falida do banco, do qual Willer é advogado do espólio —, trechos de mensagem enviada por Willer aparecem de forma quase literal em parecer do MPF entregue ao STJ em outubro de 2025. A PF lista sete casos em que Soares é suspeito de antecipar e moldar pareceres aos interesses de Willer; ele se aposentou em março deste ano. A investigação foi enviada ao MPF para avaliar o foro aplicável a Soares, já que, aposentado, o caso tende a migrar da prerrogativa do STJ para a primeira instância.
Outros episódios citados pela PF
A PF também cita um processo do senador Weverton Rocha (PDT-MA) contra a Editora Abril: na véspera de um julgamento marcado para setembro de 2025, Willer teria recebido um voto desfavorável ainda sem assinatura, e cerca de duas horas depois Weverton e a Abril protocolaram pedidos de desistência dos recursos, encerrando o processo sem julgamento. Em outro caso, sobre o terreno da antiga Academia de Tênis, em Brasília — disputa de R$ 176,4 milhões em que Willer defende duas construtoras contra uma família de herdeiros —, o escritório do advogado teria recebido a minuta do acórdão dois dias antes da assinatura, em setembro de 2025.
A ligação com Flávio Bolsonaro
Segundo reportagem anterior do UOL, Flávio Bolsonaro aparecia como usuário master, com poder de gestão, da conta da Alcazar Holding — empresa ligada a Willer — no banco Santander. A PF levanta a hipótese de que o senador tenha participação de fato na empresa. Uma empresa ligada a Willer também teria comprado passagens de viagem das duas famílias à Europa, segundo a corporação. Willer já havia sido alvo de busca em agosto, na Operação Sem Desconto, sob suspeita de lavar dinheiro desviado de aposentadorias destinado a Weverton Rocha, que também é investigado nesse caso.
O outro lado
Procurado, Willer negou as acusações em nota: <blockquote>“Nega categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos, assim como ter interferido ou ajustado o conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal.”</blockquote> Para o advogado, “as insinuações divulgadas são infundadas, distorcem o exercício regular da atividade profissional e configuram desinformação”.
O STJ, por sua vez, confirmou que Pradera ocupava cargo de confiança e foi exonerado, mas informou que não vai se manifestar sobre o mérito: “As medidas criminais estão em andamento e são sigilosas, e sobre elas o Tribunal não vai se manifestar”. Antônio Carlos Simões Martins Soares não foi localizado pelo UOL para comentar.
Até o fechamento desta matéria, nenhum dos investigados havia sido indiciado ou denunciado formalmente — as apurações da PF e do STF seguem em curso, e as informações disponíveis partem do relatório policial obtido pelo UOL, sem confirmação de decisão judicial pública sobre o mérito das acusações. O caso deve ganhar novos desdobramentos à medida que a Operação Linceu avança e que o procedimento interno do STJ e a análise do MPF sobre o foro de Soares forem concluídos.
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