PF vasculha casa de Bolsonaro em busca de duas armas não entregues
Divergência sobre paradeiro de armamento registrado em nome do ex-presidente leva Moraes a autorizar busca e apreensão; defesa diz que nada foi encontrado
📋 Em resumo ▾
- PF cumpriu mandado de busca e apreensão na residência de Bolsonaro em Brasília nesta quarta-feira (8), à procura de armas, munições e documentos de registro
- Medida decorre de decisão de Moraes de 3 de julho, que manteve a prisão domiciliar humanitária mas revogou o porte de armas e o CRAC do ex-presidente após pistola de sua propriedade ser flagrada com segurança em blitz
- Exército informou ao STF que só tinha seis das oito armas apontadas pela defesa; faltam uma pistola apreendida em blitz e uma espingarda que estaria em importadora no Rio Grande do Sul
- Filho do ex-presidente, senador Flávio Bolsonaro, classificou a operação como tentativa de desviar atenção enquanto negocia tarifas nos Estados Unidos
- Por que isso importa: o episódio testa os limites da prisão domiciliar humanitária de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe e reacende o debate sobre fiscalização de condições impostas pelo STF, às vésperas da corrida presidencial de 2026
A Polícia Federal (PF) cumpriu, na manhã desta quarta-feira (8), mandado de busca e apreensão na residência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em Brasília, em busca de armas de fogo, munições, acessórios e documentos de registro. A medida foi determinada por Moraes após uma das armas registradas em nome de Bolsonaro não ter sido entregue à PF, conforme ordem proferida pelo ministro na semana passada. Segundo a defesa, nada foi localizado no imóvel.
A diligência é o mais recente capítulo de um imbróglio que começou há mais de três semanas, quando uma arma de propriedade do ex-presidente foi flagrada em posse de um integrante de sua equipe de segurança, e evoluiu para uma sucessão de decisões judiciais sobre a devolução de todo o arsenal registrado em nome de Bolsonaro, hoje sob prisão domiciliar humanitária por condenação a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de Estado de Direito — a decisão do STF que o considerou líder de uma trama golpista após a derrota eleitoral de 2022.
Uma pistola em blitz de trânsito reabriu o caso das armas
O estopim da crise remonta à apreensão de uma pistola Glock calibre 9mm registrada em nome de Bolsonaro. A medida ocorre após uma pistola Glock, calibre 9mm, registrada em nome do ex-presidente, ser encontrada no último dia 15 durante blitz da PM/DF, em veículo conduzido por Estácio Leite da Silva Filho, integrante de sua equipe de segurança. O fato levou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a abrir vista à Procuradoria-Geral da República (PGR) e à defesa para avaliar se o episódio configurava falta grave capaz de justificar o retorno de Bolsonaro ao regime fechado.
Em parecer enviado ao STF, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, avaliou que não havia falta disciplinar atribuível diretamente a Bolsonaro, mas destacou incompatibilidade entre sua situação processual e a manutenção da posse de armas de fogo — já que a legislação exige, entre outros requisitos, certidões negativas de antecedentes criminais para o porte legal.
Moraes mantém domiciliar, mas revoga porte e ordena entrega em 48 horas
Na última sexta-feira (3), Moraes decidiu que não ficou comprovada falta grave, preservando a prisão domiciliar humanitária de Bolsonaro. Ainda assim, além de revogar o porte de arma, Moraes determinou a revogação do Certificado de Registro de CAC e a apreensão das armas vinculadas ao ex-presidente, entre elas pistolas, carabinas/fuzis e espingardas de calibres permitidos e restritos. A defesa teve prazo de 48 horas para entregar todo o armamento à Superintendência da PF no Distrito Federal.
"Na presente hipótese, a discrepância entre as informações constantes dos autos e aquelas posteriormente apresentadas pela Defesa torna imprescindível a adoção de busca e apreensão domiciliar", escreveu Alexandre de Moraes na decisão que autorizou a diligência desta quarta-feira.
O ministro também advertiu que o descumprimento das regras da prisão domiciliar ou de qualquer medida cautelar implicaria o retorno imediato ao regime fechado — uma sinalização que eleva a temperatura política em torno do caso, já que qualquer nova infração pode custar a Bolsonaro o benefício conquistado após meses de internações por broncopneumonia.
Da lista de nove armas, duas ficaram sem paradeiro confirmado
Ao todo, o STF listou dez armas registradas em seu nome, incluindo pistolas Taurus, Glock, Caracal e Arex, além de carabinas/fuzis Caracal e Springfield Armory e uma espingarda Typhoon, todas com numeração de série e registro no Sistema de Gerenciamento Militar de Armas (SIGMA). A defesa informou que duas delas já haviam sido entregues à PF em abril de 2023, por determinação do Tribunal de Contas da União, enquanto as outras oito estariam sob custódia do Batalhão de Polícia do Exército, em Brasília.
Na segunda-feira (6), Moraes determinou que essas oito armas fossem repassadas à PF. Só que em resposta ao Supremo, o Comando do Batalhão de Polícia do Exército informou que apenas seis delas estavam armazenadas na unidade militar e já haviam sido entregues à corporação. Faltavam duas: uma pistola calibre 9x19 mm Parabellum e uma espingarda Maestro Arms Company — justamente a arma apreendida na blitz de trânsito e um segundo armamento que, segundo os advogados, permanece guardado em uma importadora de material bélico em Caxias do Sul (RS), recebido como presente mas nunca retirado do estabelecimento.
Moraes não aceitou a explicação por considerá-la desacompanhada de documentação idônea sobre a real localização da espingarda, o que motivou o mandado de busca cumprido nesta quarta-feira.
Defesa fala em perseguição; nada foi apreendido na diligência
Segundo publicação do advogado João Henrique de Freitas, integrante da equipe de defesa de Bolsonaro, na rede social X, a operação não resultou em apreensão de qualquer item. "É lamentável que um ex-Presidente da República ainda seja submetido a esse tipo de ação", escreveu o defensor, reforçando que a defesa já havia informado previamente o paradeiro de todo o armamento ao STF.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente e pré-candidato ao Planalto em 2026, classificou a diligência como uma tentativa de desviar o foco da imprensa. Segundo relato feito em transmissão ao vivo, sua irmã adolescente foi retirada do quarto pelos agentes durante a busca por armas escondidas, episódio que teria constrangido a família. Flávio associou o momento da operação à sua própria viagem aos Estados Unidos, onde articula junto ao governo de Donald Trump a não aplicação de tarifas adicionais contra produtos brasileiros — uma agenda que já provocou reação do Palácio do Planalto, que classificou publicamente a movimentação do senador como afronta aos interesses nacionais.
O que está em jogo daqui para frente
O episódio expõe as tensões próprias de uma prisão domiciliar humanitária concedida a um condenado por tentativa de golpe: qualquer inconsistência sobre bens sob custódia formal — mesmo que indiretamente vinculados a terceiros, como familiares de militares da equipe de segurança — pode ser lida pelo STF como risco ao cumprimento das condições impostas. Para a defesa, trata-se de zelo excessivo diante de informações já prestadas; para o tribunal, de garantia mínima de que um condenado por atentado à ordem democrática não mantenha, ainda que por vias indiretas, acesso a armamento de uso restrito.
Com a espingarda ainda sem confirmação documental de paradeiro, a expectativa é de que a controvérsia seja retomada nos próximos dias, em meio ao calendário eleitoral que já projeta a família Bolsonaro como protagonista da disputa presidencial de 2026 — desta vez, com Flávio Bolsonaro tentando equilibrar a defesa do pai no front interno com a articulação internacional em Washington.
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