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Piauí revela mensagens de Fábio Faria como elo entre Vorcaro e Alcolumbre

Mensagens extraídas do celular do banqueiro pela PF mostram ex-ministro organizando festa com "suíças" para autoridades e negócio de R$ 67,5 milhões com o dono do Banco Master.

Piauí revela mensagens de Fábio Faria como elo entre Vorcaro e Alcolumbre
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📋 Em resumo
  • Reportagem da revista Piauí, assinada por Breno Pires e João Batista Jr., detalha como o ex-ministro Fábio Faria se tornou articulador de Daniel Vorcaro junto a autoridades de Brasília.
  • Mensagem de outubro de 2024 mostra Faria dizendo que Davi Alcolumbre estava "louco" perguntando se as "suíças" contratadas por Vorcaro compareceriam a uma festa.
  • Faria também vendeu a Vorcaro um projeto eólico avaliado por especialistas em R$ 13 milhões por R$ 67,5 milhões, segundo a apuração.
  • Alcolumbre nega qualquer recebimento de valores do banqueiro e promete ação judicial; caso corre em paralelo à acusação de pagamento de US$ 30 milhões feita em delação rejeitada pela PF.
  • Por que isso importa: as mensagens ampliam o raio da Operação Compliance Zero, que já provocou rombo bilionário no FGC e prisões, para dentro do núcleo político mais próximo do Congresso.
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Uma reportagem da revista Piauí, publicada nesta quarta-feira (5) e assinada pelos jornalistas Breno Pires e João Batista Jr., trouxe novos detalhes sobre a rede de contatos do banqueiro Daniel Vorcaro em Brasília. Com base em mensagens extraídas pela Polícia Federal dos celulares do dono do extinto Banco Master, a apuração aponta o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria (PP-RN) como o principal intermediário entre o banqueiro e autoridades públicas.

Segundo a publicação, os dois se conheceram em outubro de 2023, durante um evento em Paris, e o político potiguar teria se tornado um dos principais articuladores do banqueiro junto a autoridades, empresários e veículos de comunicação. Menos de duas semanas depois de conhecer o banqueiro, Faria já conversava sobre possíveis encontros de Vorcaro com autoridades de Brasília.

A festa de outubro e as "suíças"

O episódio mais citado da reportagem é uma troca de mensagens de outubro de 2024, em que Fábio Faria trocou mensagens com Daniel Vorcaro para organizar festa patrocinada pelo dono do Banco Master. Entre os convidados estavam o senador Davi Alcolumbre, o presidente do Senado Rodrigo Pacheco e o ministro do STF Dias Toffoli, que já se declarou parcial nas investigações sobre o banqueiro.

Nas mensagens do dia 24 de outubro de 2024, Faria escreve a Vorcaro: "Davi e Pacheco fechado pra terça", "Chamei o Toffoli tb". Em seguida, relata: "Davi está louco perguntando se as suíças vão vir. Se der, vamos trazer""suíças" seria a expressão usada para se referir a garotas estrangeiras contratadas pelo patrocinador do evento.

"Davi está louco perguntando se as suíças vão vir."

A conversa não para por aí. Fábio Faria diz que Toffoli tentaria ir, mas não daria certeza porque tinha que presidir uma sessão na terça; Vorcaro pergunta se o presidente do Progressistas, Ciro Nogueira, compareceria, e Faria responde negativamente, justificando viagem marcada; e completa que "ia chamar o Arthur Lira mas não pode ser junto com o Pacheco", prometendo incluí-lo em outro encontro "porque ele gosta muito".

O negócio de R$ 67,5 milhões em Galinhos

A relação, segundo a Piauí, avançou rapidamente de encontros sociais para negócios privados, viagens internacionais e aproximações do banqueiro com empresários, políticos e integrantes do Judiciário. O ponto mais concreto é a venda, por R$ 67,5 milhões, de um projeto de energia eólica localizado em Galinhos, no Rio Grande do Norte, terra natal de Faria.

Especialistas consultados pela Piauí estimaram que o empreendimento, ainda em estágio inicial, valeria aproximadamente R$ 13 milhões — menos de um quinto do valor pago por Vorcaro. Faria afirmou que o valor teria sido definido com base em um estudo da KPMG, mas a consultoria informou que não realizou a avaliação financeira do projeto.

Parte do pagamento não foi em dinheiro vivo: parte ocorreu por meio de um apartamento avaliado em R$ 50 milhões, depois vendido por Faria por R$ 54 milhões, com o restante pago diretamente e metade dos R$ 67,5 milhões ficando com o ex-ministro. Procurado, Faria nega ter mantido relação com o Banco Master e, em entrevista concedida em janeiro, afirmou ter "zero" relação com a instituição, dizendo nunca ter vendido nada ao banco.

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Toffoli, PT da Bahia e outros nomes na teia

As mensagens recuperadas pela PF não se limitam à festa e ao negócio imobiliário. Um relatório de cerca de 200 páginas enviado ao STF mostra Vorcaro dizendo a Faria que Toffoli poderia mudar o voto em julgamento envolvendo a Usina Alcídia, em Teodoro Sampaio, ao ser questionado sobre a origem da informação. Dias depois de a conversa vir à tona, Dias Toffoli deixou a relatoria do caso Banco Master no STF, após a hipótese de suspeição do ministro.

Outra mensagem, de maio de 2024, mostra Faria comentando que ACM Neto teria manifestado "apoio total" ao banqueiro após visitá-lo em casa, ao que o ex-ministro respondeu "Bom demais. Ele é tranquilo" e sugeriu que a estratégia seria "aproximar o PT da Bahia", avaliando que "isso não será problema". O diálogo é citado em relatório da Polícia Federal que apura se o senador Jaques Wagner (PT-BA) atuou em favor do Master em troca de favores — acusação que o senador nega.

O outro lado: Alcolumbre nega e promete processar

O nome de Alcolumbre já vinha sob pressão antes da reportagem da Piauí. Em junho, reportagem da revista Veja apontou que Alcolumbre teria recebido cerca de US$ 30 milhões — o equivalente a aproximadamente R$ 155 milhões — de Vorcaro, informação atribuída a uma segunda proposta de delação do banqueiro à PF.

O presidente do Senado reagiu em discurso no plenário: "jamais recebeu valores, no Brasil ou no exterior" e classificou as acusações como falsas, prometendo adotar medidas judiciais nas esferas cível e criminal contra os responsáveis. Em nota, a assessoria do Senado afirmou que as informações atribuídas a Vorcaro são "absolutamente falsas" e prometeu acionar a Justiça para que o banqueiro responda pelos danos causados à imagem do senador.

"Esse ataque pessoal e institucional será defendido com as armas da lei, da Justiça e da verdade" — Davi Alcolumbre

A proposta de delação em que a acusação contra Alcolumbre aparece foi rejeitada duas vezes pela Polícia Federal: a primeira em 20 de maio, quando a PGR demonstrou disposição em dar prosseguimento às negociações, e a segunda em 11 de junho, sob avaliação de que as informações não traziam novidades diante das provas já colhidas. Além disso, Alcolumbre é acusado de manobrar para barrar a instalação de uma CPMI que investigaria Vorcaro, recusando-se a ler o requerimento em duas sessões consecutivas do Congresso.

Rombo bilionário e dez fases de investigação

As mensagens fazem parte do material colhido pela Operação Compliance Zero, deflagrada em 17 e 18 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. Desde então a operação já soma dez fases, atingindo agentes políticos, fundos previdenciários e provocando pagamentos bilionários pelo FGC.

O rombo só cresceu: com a liquidação de instituições ligadas ao grupo — Will Bank, Letsbank e Banco Pleno —, o custo total do colapso do conglomerado para o Fundo Garantidor de Créditos subiu para R$ 56 bilhões, o maior da história do fundo. Vorcaro foi preso pela segunda vez em 4 de março de 2026, na terceira fase da Compliance Zero, ao lado de investigados apontados como integrantes dos núcleos financeiro, patrimonial e de obstrução, e a Segunda Turma do STF manteve as prisões preventivas em 20 de março. Em abril, a quarta fase levou à prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e do advogado Daniel Lopes Monteiro.

A investigação também alcança fundos previdenciários estaduais: a PF apura a aplicação de R$ 400 milhões da Amapá Previdência, a Amprev, em letras financeiras do Banco Master, com Jocildo Silva Lemos, apontado como figura central na operação, atuando como tesoureiro em uma ramificação política que ainda está sendo mapeada.

Até o momento, segundo a própria Piauí, não há acusação formal nem indicação de que Faria tenha cometido crime, e a Polícia Federal não aponta em que contexto as mensagens foram trocadas nem atribui irregularidade às reuniões mencionadas. Mas o volume de nomes que passam pelo celular de Vorcaro — de ministros do STF a presidentes de Casas Legislativas — sugere que o material seguirá alimentando novas revelações à medida que a Compliance Zero avança.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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