Eleições 2026

Quaest 2026: série histórica mostra Lula resistindo e Flávio no limite

Analistas da FESPSP avaliam recuperação do presidente, linha do tempo das pesquisas revela trajetória instável e candidato da direita chega ao empate técnico carregando passivo jurídico e moral difícil de reverter com o eleitor independente

Quaest 2026: série histórica mostra Lula resistindo e Flávio no limite
📷 Ricardo Stuckert / PR
📋 Em resumo
  • Quaest de maio registra Lula com 39% no 1º turno e 42% no 2º turno, retomando liderança após abril negativo
  • Série histórica de 2026 mostra queda de Lula até abril e recuperação concentrada entre mulheres e independentes
  • Cientistas políticos da FESPSP identificam rally effect do encontro com Trump como vetor da melhora conjuntural
  • Flávio Bolsonaro tem piso eleitoral sólido, mas carrega rejeição crescente, ausência de currículo executivo e passivo jurídico grave
  • Por que isso importa: o eleitor indeciso — o que vai decidir 2026 — tende a não migrar para um candidato sem experiência de gestão e envolto em polêmicas que vão das rachadinhas a vínculos com milicianos
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A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (13/5) traz o retrato mais completo do momento eleitoral brasileiro em 2026: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 39% no primeiro turno e retoma a liderança no segundo turno com 42% contra 41% do senador Flávio Bolsonaro (PL). É a primeira reversão após uma rodada negativa em abril — e ela ocorre em meio a uma série histórica que, lida com cuidado, revela mais sobre os limites do candidato da extrema-direita do que sobre a solidez do incumbente. Cientistas políticos ouvidos pelo Painel Político identificam avanços reais, fragilidades persistentes e um cenário que aponta para uma disputa decidida no centro — onde Flávio tem o menor teto.

A linha do tempo: do conforto ao empate técnico

Para entender o peso dos números de hoje, é indispensável recuar ao início do ano e acompanhar a evolução mês a mês das pesquisas Quaest.

Janeiro de 2026. A rodada de janeiro mostrava Lula liderando o primeiro turno com 36% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparecia com 23%, e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) com 9%. No segundo turno, Lula batia Flávio por 45% a 38%. A vantagem petista era confortável e a direita ainda buscava seu candidato de referência.

Março de 2026. O quadro começa a se fechar. Em pesquisa divulgada no dia 11 de março, Lula aparecia empatado tecnicamente com Flávio Bolsonaro em cinco dos sete cenários de primeiro turno testados. A vantagem do presidente só saía da margem de erro quando nomes do centro — como Ratinho Junior ou Ronaldo Caiado — integravam o campo, fragmentando o voto da oposição.

Abril de 2026. O pior mês para Lula na série. A Quaest de abril mostrou Lula liderando no primeiro turno com 37% contra 32% de Flávio — vantagem de 5 pontos. Mas no segundo turno, Flávio aparecia numericamente à frente pela primeira vez: 42% a 40% — resultado dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais, mas simbolicamente relevante para a narrativa da oposição.

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Maio de 2026. No 1º turno, Lula lidera com 39% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 33%. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) estão empatados com 4% cada. Os indecisos somam 5%, e brancos, nulos e abstenções chegam a 10%. No segundo turno, Lula retoma a liderança com 42% contra 41% de Flávio — em abril, o placar estava invertido, com Flávio à frente por 42% a 40%.

Aprovação e governo: os números por trás do movimento

Os índices de aprovação presidencial também se moveram. A desaprovação do presidente caiu de 52% em abril para 49% em maio, enquanto a aprovação subiu de 43% para 46%. Na avaliação do governo, o percentual negativo caiu de 42% para 39%, e o positivo subiu de 31% para 34%. O indicador de que o país está na direção errada recuou de 58% para 53%, ante 38% que entendem que o Brasil segue na direção certa.

Para Aldo Fornazieri, coordenador do Curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo), os movimentos de aprovação são, neste momento, mais relevantes do que as intenções de voto. "A avaliação do governo e do presidente indica se a sociedade quer mudança ou se quer a permanência do atual incumbente. Quando a avaliação é mais negativa do que positiva, configura-se uma conjuntura de mudança; quando é mais positiva do que negativa, sinaliza-se uma conjuntura de continuidade."

Os números mostram que a avaliação negativa ainda é superior à positiva — mas a distância encolheu de 9 para 3 pontos na aprovação do presidente e de 11 para 5 pontos na avaliação do governo. "O que o governo precisa fazer agora é manter o esforço e reforçar a tendência de reversão da avaliação negativa pela positiva antes do início da campanha. Se isso ocorrer, Lula começará a campanha como favorito", afirma Fornazieri.

Quem moveu o ponteiro: mulheres e independentes

Hilton Fernandes, cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP, chama atenção para onde a melhora ocorreu: a variação, apesar de pequena em termos absolutos, se concentrou em segmentos estratégicos. "Ela ocorre com mais força em determinados segmentos, como no eleitorado feminino e entre aqueles que a empresa classifica como independentes", diz.

A melhora entre as mulheres, segundo Fernandes, "pode refletir uma resistência ao discurso de ódio, base da polarização, e aponta para fatores que podem ser decisivos na eleição."

O pesquisador também destaca dois fatos que poderiam ter prejudicado Lula — e não prejudicaram. As derrotas do governo em relação à rejeição de Jorge Messias para a vaga no STF e sobre a chamada "Lei da Dosimetria" não contaminaram os índices presidenciais. E Ronaldo Caiado (PSD) não avançou nas intenções de voto mesmo após aparecer na propaganda partidária veiculada em rádio e TV — confirmando que a atenção do eleitorado está concentrada nos dois polos da disputa.

"A Quaest mostra que vai se estabilizando um cenário pré-eleitoral para 2026 como uma antecipação do segundo turno — uma disputa que tende a ser acirradíssima até o final." — Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

O efeito Trump e a conjuntura favorável

Para Jairo Pimentel, cientista político e também professor do mesmo laboratório, a recuperação tem explicação conjuntural mais do que estrutural. Nos meses anteriores, o governo acumulava desgaste com inflação de alimentos, ruído fiscal, crise do Pix e sensação de desorganização política.

O que mudou? A percepção de noticiário positivo saltou de 23% para 32%. E o encontro de Lula com o presidente norte-americano Donald Trump teve peso simbólico relevante nesse processo, "reforçando a imagem presidencial e deslocando temporariamente o foco do debate doméstico negativo — um efeito próximo ao chamado rally effect, que tende a beneficiar incumbentes em momentos internacionais relevantes", afirma Pimentel.

Mas o analista faz um alerta: "Apesar disso, persistem fragilidades estruturais importantes, especialmente na economia: 69% ainda percebem alta nos preços dos alimentos e perda de poder de compra em relação ao ano anterior." O quadro, segundo ele, "sugere que Lula conseguiu interromper uma trajetória de desgaste e voltar a uma posição competitiva para 2026, mas ainda sem alcançar uma zona de conforto eleitoral."

Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP, sistematiza o cenário com quatro indicadores: grau de conhecimento (97% Lula vs. 93% Flávio Bolsonaro), rejeição (53% vs. 54%), intenção estimulada (39% vs. 33%) e simulação de segundo turno (42% vs. 41%). O maior medo da população também é simétrico: 42% temem "mais um governo Lula" e 44% temem "a volta da família Bolsonaro". "Uma disputa que tende a ser acirradíssima até o final, com candidatos altamente populares, com elevados pisos e baixos tetos", resume Vasques.

Nossa análise: o teto de Flávio é mais baixo do que parece

Os números atuais podem dar a impressão de uma disputa perfeitamente equilibrada — e de certa forma ela está. Mas há uma diferença estrutural que as pesquisas de intenção de voto ainda não conseguem capturar completamente: o tipo de eleitor que ainda está indeciso.

O piso de Flávio Bolsonaro é sólido. Ele herdou o eleitorado fiel ao pai, mobilizado ideologicamente, com alta disposição de comparecer às urnas. Esse eleitorado não vai a lugar nenhum — e isso explica por que o senador conseguiu chegar a 41% no segundo turno em poucos meses de pré-campanha. Mas esse é, em grande medida, também o seu teto.

O eleitor independente — aquele que oscila entre candidatos, vota por percepção de competência e tem menor tolerância a escândalos — não tem, historicamente, disposição de apostar em nomes sem trajetória executiva comprovada. Flávio nunca governou nada. Nunca administrou um estado, uma prefeitura, um orçamento público. Em um país onde Lula chegou à reeleição carregando dois mandatos anteriores, e onde o próprio Bolsonaro pai chegou ao poder como militar com décadas de mandatos parlamentares, o senador carioca ocupa um espaço incômodo: tem o sobrenome que mobiliza a base, mas não tem o currículo que convence quem ainda hesita.

O passivo que as pesquisas ainda não precificaram

Flávio Bolsonaro tenta a presidência em 2026 carregando polêmicas como o caso das rachadinhas, elos com milicianos e o escândalo do Banco Master. Com apenas um projeto aprovado em sete anos de Senado e um histórico extenso de denúncias, sua rejeição já chega a 37,5%, aproximando-se dos índices do presidente Lula.

O caso da rachadinha revelou a arrecadação de salários dos funcionários do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, prática que perdurou até 2018, quando ele se lançou para o Senado. Como deputado estadual, Flávio também rendeu homenagens aos milicianos Adriano da Nóbrega — apontado como chefe do Escritório do Crime — e Erlan de Araújo, conhecido como Orelha. A homenagem foi entregue pessoalmente, dentro de uma cela. Nóbrega seria morto pela polícia dois anos depois.

O escândalo mais recente envolve o Banco Master: o principal doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022, Fabiano Campos Zettel — cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro —, desembolsou R$ 3 milhões para a campanha do ex-presidente. Em 2024, Flávio quitou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília, valor que destoa dos bens declarados à Justiça Eleitoral.

Individualmente, cada uma dessas informações pode ser minimizada por defensores do candidato. Em conjunto, elas formam um perfil que o eleitor sem partido — aquele que escolhe por percepção de caráter e competência — tende a rejeitar. As rachadinhas podem ter sido juridicamente arquivadas por questões processuais, mas a memória do eleitor não tem prazo de validade.

À medida que a campanha avançar e essas informações chegarem ao eleitor menos politizado — as mulheres que já estão migrando para Lula, os independentes que responderam positivamente ao encontro com Trump —, a tendência é que a rejeição de Flávio cresça antes que sua aprovação consiga acompanhar.

"Lula conseguiu interromper uma trajetória de desgaste e voltar a uma posição competitiva para 2026, mas ainda sem alcançar uma zona de conforto eleitoral." — Jairo Pimentel, FESPSP

O peso do mapa e a chave mineira

Os dados regionais da Quaest de abril, em levantamento com 11.646 entrevistas presenciais em dez estados, confirmam a polarização geográfica da disputa. Flávio Bolsonaro venceria com folga no Rio Grande do Sul (+26 pontos), Paraná (+20), Goiás (+13), São Paulo (+12) e Rio de Janeiro (+13). Lula mantém liderança expressiva na Bahia (+33), Pernambuco (+34) e Ceará (+28), além de vantagem de 7 pontos no Pará. Minas Gerais surge como o fiel da balança — empate técnico com leve vantagem numérica para o atual presidente.

Minas é a chave. O maior colégio eleitoral do interior brasileiro, que decidiu 2022 na margem mínima, pode voltar a decidir 2026. E lá, Flávio Bolsonaro não tem base orgânica, não tem aliados governistas consolidados e não tem currículo que converse com um eleitorado historicamente avesso a extremos e sensível a resultados concretos de gestão.

O que vem pela frente

A pesquisa de maio, por si só, não define o jogo. O próprio Pimentel alerta: 69% dos brasileiros ainda percebem alta nos preços dos alimentos e perda de poder de compra em relação ao ano anterior. A economia continua sendo o principal flanco de vulnerabilidade do governo.

Mas as eleições, como aponta a análise dos cientistas políticos da FESPSP, já têm seus contornos definidos. O segundo turno Lula x Flávio parece praticamente certo. E nesse confronto, a questão central não será quem mobiliza melhor a própria base — ambos têm pisos altos e tetos limitados. A questão será quem conquista o eleitor que ainda hesita.

Esse eleitor, quando olhar para Flávio Bolsonaro, vai se perguntar: além do sobrenome, o que ele oferece? A resposta, por ora, não está nas pesquisas. Está nos autos de um processo que nunca chegou ao final, em uma mansão de R$ 6 milhões incompatível com os rendimentos declarados, e em uma medalha entregue dentro de uma cela para um homem que seria morto pela polícia dois anos depois.

Eleições se ganham no centro. E o centro, em 2026, ainda não chegou lá.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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