Eleições 2026

Quem é Alfredo Gaspar, o vice de Flávio Bolsonaro sob investigação do TCU?

Deputado federal de Alagoas e relator da CPMI do INSS assume a vice-presidência na chapa do PL após Republicanos e União Brasil-PP optarem pela neutralidade, forçando candidatura isolada no campo de centro-direita

Quem é Alfredo Gaspar, o vice de Flávio Bolsonaro sob investigação do TCU?
📷 Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
📋 Em resumo
  • Flávio Bolsonaro (PL-RJ) oficializou o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente em entrevista coletiva em Brasília
  • A escolha ocorre no último dia do prazo para definição de vices e consolida chapa 100% do PL
  • Negociações com Republicanos e federação União Brasil-PP fracassaram, levando partidos à neutralidade
  • Gaspar é ex-promotor de Justiça, ex-secretário de Segurança Pública e ganhou projeção nacional como relator da CPMI do INSS
  • O TCU investiga R$ 6 milhões em emendas parlamentares enviadas por Gaspar ao município de São José da Laje (AL)
  • A campanha buscava uma mulher para a vaga, mas restrições partidárias inviabilizaram nomes como Daniella Marques e Tereza Cristina
  • Por que isso importa: A chapa pura sinaliza isolamento político de Flávio no campo de centro-direita e aposta na força do bolsonarismo sem alianças amplas, numa eleição em que Lula (PT) articula coalizão robusta
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, anunciou nesta quarta-feira (5) que o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) será o candidato a vice-presidente em sua chapa nas eleições de 2026. A oficialização ocorreu em entrevista coletiva em Brasília, no último dia do prazo para a definição de vices, e consolida uma candidatura 100% filiada ao PL — sem alianças com outras legendas de centro-direita.

A escolha de Gaspar encerra semanas de negociações frustradas. O PL tentava atrair o Republicanos e a federação União Brasil-PP para compor a chapa presidencial, mas ambos os partidos optaram pela neutralidade na disputa pelo Planalto. Com o impasse, Flávio Bolsonaro teve de recuar do plano de anunciar uma mulher como vice — estratégia pensada para atrair o eleitorado feminino, que representa 52,8% do eleitorado — e abraçar um nome de confiança do próprio partido.

Como o PL chegou a uma chapa pura após semanas de negociações

O cenário que levou à definição de Alfredo Gaspar como vice começou a se desenhar há meses. Em fevereiro, anotações feitas pelo próprio Flávio Bolsonaro durante reunião da cúpula do PL já indicavam que Gaspar, então no União Brasil, seria o único nome em Alagoas disposto a "pedir voto" para a campanha presidencial. Em março, o deputado migrou oficialmente para o PL, em ato ao lado de Flávio, e assumiu a presidência do diretório estadual da sigla em Alagoas.

A estratégia inicial, porém, era outra. A campanha de Flávio Bolsonaro buscava uma mulher para compor a chapa, com o objetivo de ampliar o apelo entre o eleitorado feminino. Nomes como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos) e a senadora Tereza Cristina (PP) foram ventilados nos bastidores. Daniella Marques chegou a ser descrita por aliados como o nome preferido do candidato para a vice.

O problema: para que qualquer uma delas integrasse a chapa, seria necessária uma coligação partidária. O Republicanos, no entanto, manteve a neutralidade. A federação União Brasil-PP, após reuniões de seus diretórios estaduais, anunciou que liberaria suas bases para decidirem localmente, mas não endossaria nacionalmente a candidatura de Flávio. Sem a adesão dessas legendas, a vaga de vice ficou restrita a quadros do próprio PL.

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"A definição ocorre após semanas de negociações com partidos do campo da centro-direita que acabaram recusando participar da composição da chapa."

Quem é Alfredo Gaspar, o novo vice de Flávio Bolsonaro

Alfredo Gaspar é deputado federal de primeiro mandato, eleito em 2022 pelo União Brasil. Sua trajetória, porém, é majoritariamente institucional: é promotor de Justiça de carreira, foi procurador-geral de Justiça de Alagoas e secretário de Segurança Pública do estado na gestão de Renan Filho (MDB-AL), antes de romper com a família Calheiros em 2022.

A projeção nacional veio da relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, na qual adotou postura de confronto não apenas com figuras próximas ao governo Lula, mas também com críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). Em fevereiro deste ano, em entrevista ao Poder360, Gaspar afirmou que a candidatura de Flávio Bolsonaro "ganhou força no Congresso" e que o senador se "cacifava como um fortíssimo candidato".

No discurso de anúncio da chapa, Flávio Bolsonaro destacou a atuação de Gaspar na segurança pública e sua ligação com Alagoas e os demais estados do Nordeste. "É uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aqui aprenderam a admirar pela coragem, honestidade, pela sua história em frente à segurança pública", disse o candidato. Ele prosseguiu: "Alguém que enfrentou e defendeu os nossos aposentados na CPMI do INSS. Alguém que pediu a prisão do Lulinha porque tinha culpa no cartório. E alguém que representa o Nordeste de fato".

O TCU investiga R$ 6 milhões em emendas enviadas por Gaspar

A escolha de Alfredo Gaspar como vice-presidente ocorre enquanto o Tribunal de Contas da União (TCU) investiga o destino de R$ 6 milhões em emendas parlamentares por ele indicadas ao município de São José da Laje (AL). A auditoria foi aberta em abril deste ano, após análise técnica preliminar que identificou indícios de irregularidades na aplicação dos recursos.

Os repasses ocorreram entre julho e dezembro de 2024, na modalidade de "transferência especial" — as chamadas "emendas Pix", que permitem o envio direto de verbas da União a estados e municípios com menor grau de vinculação e controle prévio. O TCU, com relatoria do ministro Walton Alencar, estabeleceu prazo de 12 dias para que a Prefeitura de São José da Laje comprovasse a correta execução das verbas, exigindo documentação que inclui processos licitatórios, contratos, notas fiscais, extratos bancários e relatórios de fiscalização.

Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), as três emendas foram destinadas a pedido de Rodrigo Valença, ex-gestor do município e suplente ligado ao parlamentar. Por meio de nota, Gaspar afirmou ter agido "dentro da legalidade e das normas vigentes" e que os recursos foram destinados após apresentação de plano de trabalho, cabendo à prefeitura a responsabilidade pela execução.

O caso não ficou restrito ao TCU. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou notícia de fato junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitando investigação sobre a emenda Pix de R$ 6 milhões.

"O caso expõe tensão recorrente no orçamento brasileiro: a distância entre o que é formalmente legal e o que é substantivamente transparente e eficiente."

Outras controvérsias: a acusação de estupro e a resposta de Gaspar

Além da auditoria do TCU, Alfredo Gaspar enfrenta acusações graves formuladas por parlamentares de oposição. Em março de 2026, durante a última sessão da CPMI do INSS, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) o chamaram de "estuprador" em plenário, acusando-o de ter cometido estupro de vulnerável contra uma adolescente de 13 anos, crime que teria resultado em gravidez.

Os acusadores protocolaram notícia de fato na PGR e na Polícia Federal, alegando que a criança teria sido registrada no nome da mãe da vítima e que o parlamentar pagou R$ 400 mil para que o caso não fosse denunciado.

Gaspar respondeu com veemência. Protocolou queixa-crime por denunciação caluniosa no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, e acionou a PGR para cobrar a responsabilização dos parlamentares. Em abril, o deputado coletou material genético para exame de DNA e publicou um vídeo com o depoimento da suposta filha do crime, na qual a mulher desmente ser filha de Gaspar e afirma que seu pai seria o primo do parlamentar.

Para Gaspar, a acusação foi uma "cortina de fumaça" para tirar o foco dos pedidos de indiciamento presentes em seu relatório da CPMI — entre eles, o de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. O relatório foi derrubado por 19 votos contrários a 12 favoráveis.

A Polícia Federal encaminhou o material para a Corregedoria da instituição, que analisa a competência para investigar o deputado e se há elementos suficientes para instaurar inquérito. Até o momento, não há inquérito policial formalmente instaurado contra Gaspar em relação à acusação.

A ausência de alianças e o risco de isolamento político

A decisão do PL de seguir com uma chapa pura não é apenas uma escolha tática — é um sintoma. Nos últimos meses, o entorno de Flávio Bolsonaro avaliava que uma composição exclusivamente partidária representava risco de isolamento político. O cenário se concretizou.

A neutralidade do Republicanos e da federação União Brasil-PP fragiliza a pretensão de Flávio de se apresentar como candidato de uma ampla frente de centro-direita. Com Tarcísio de Freitas (Republicanos) focado na reeleição em São Paulo e Ciro Nogueira (PP) pautando a estratégia estadual, o campo que poderia orbitar em torno de uma terceira via ou de um bloco anti-Lula fragmentou-se.

O resultado é uma chapa que aposta na fidelidade ideológica em vez da expansão política. Gaspar, alinhado ao bolsonarismo e com discurso de combate ao sistema, reforça essa identidade — mas não expande a base. A campanha de Lula (PT), por outro lado, articula uma coalizão que inclui MDB, PSB, PCdoB, PV e segmentos do próprio centrão.

"A chapa pura sinaliza isolamento político de Flávio no campo de centro-direita e aposta na força do bolsonarismo sem alianças amplas."

O que muda para Alagoas e para o Nordeste

A escolha de Gaspar como vice tem implicações diretas na disputa estadual em Alagoas. O deputado era pré-candidato ao Senado e havia recebido apoio explícito de Jair Bolsonaro para a vaga — o que colocava em xeque os planos de Arthur Lira (PP-AL), outro aliado da família Bolsonaro no estado.

Com Gaspar na chapa presidencial, o PL de Alagoas perde seu nome mais forte para o Senado. A indefinição do ex-prefeito de Maceió JHC (PSDB), que rompeu com o PL em março após ser destituído do comando partidário por Valdemar Costa Neto, torna-se ainda mais crítica: sem JHC ou Gaspar, o partido pode não ter candidato viável ao governo estadual.

Para Flávio Bolsonaro, a aposta é geográfica e simbólica. O Nordeste foi a região onde Jair Bolsonaro teve seu pior desempenho em 2022. Ter um vice alagoano, com histórico na segurança pública e discurso de confronto ao governo federal, é uma tentativa de reverter esse quadro — mesmo que sem o reforço de alianças partidárias locais robustas.

A chapa Flávio Bolsonaro-Alfredo Gaspar é, antes de qualquer coisa, uma declaração de princípios. Ao optar por um vice do próprio partido em vez de ceder a vice-presidência em troca de apoio partidário, o PL aposta que a força da marca Bolsonaro e a rejeição a Lula serão suficientes para compensar a falta de uma coalizão ampla. É uma estratégia de guerrilha eleitoral em ano de polarização extrema.

O problema é que eleições presidenciais no Brasil raramente são vencidas sem pontes. A neutralidade de Republicanos e PP-União Brasil não é apenas uma posição de espera — é um recado de que o campo de centro-direita não se sente obrigado a se alinhar ao bolsonarismo. Flávio Bolsonaro terá de provar, nos próximos meses, que uma chapa pura pode ser mais do que um teto de vidro: precisa ser uma plataforma de lançamento. Caso contrário, o isolamento que seu entorno temia pode se tornar a principal narrativa de sua campanha.

E, no caso de Alfredo Gaspar, a campanha terá de administrar não apenas a expectativa eleitoral, mas também as investigações que o acompanham — do TCU às acusações formuladas em plenário. A pergunta que fica no ar é: um vice sob escrutínio múltiplo fortalece a chapa ou a expõe ainda mais em um pleito já acirrado?


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