Racha no PSD-RO: casal Fúria fica com 62% do fundo e candidato fala em "traição"
Candidato a federal Júnior Lopes recebeu R$ 100 mil e acusa Adailton Fúria e Expedito Júnior de manobra; dados mostram que Fúria e a esposa concentraram R$ 6,5 mi dos R$ 11,1 mi enviados a Rondônia
📋 Em resumo ▾
- A divisão do fundo eleitoral do PSD em Rondônia abriu um racha público na legenda, com candidatos reclamando de repasses desiguais.
- O candidato a deputado federal Júnior Lopes recebeu R$ 100 mil e acusou Adailton Fúria e Expedito Júnior de "traição".
- Dados apontam que Fúria (governo, R$ 5 mi) e a esposa, Joliane (federal, R$ 1,5 mi), concentraram R$ 6,5 mi — cerca de 62% dos R$ 11,1 mi enviados ao estado.
- O repasse a Joliane foi 15 vezes maior que o de Júnior Lopes e outros quatro candidatos a federal, que ficaram com R$ 100 mil cada.
- Por que isso importa: a distribuição expõe a concentração de recursos na cúpula do PSD e uma crise interna às vésperas da eleição
A divisão dos recursos do fundo eleitoral do PSD em Rondônia se transformou em crise pública. O candidato a deputado federal Júnior Lopes tornou pública sua indignação com os repasses da legenda e acusou o candidato ao governo Adailton Fúria e o ex-senador Expedito Júnior de "traição", alegando uma articulação para que sua candidatura recebesse menos que a de outros concorrentes.
Os números dão dimensão à revolta. Segundo dados dos repasses, Lopes recebeu R$ 100 mil, enquanto Joliane Fúria — esposa de Adailton e também candidata a deputada federal — recebeu R$ 1,5 milhão. A campanha de Fúria ao governo, por sua vez, ficou com R$ 5 milhões.
A conta que expõe a concentração
O caso de Júnior Lopes é a ponta visível de um padrão. Levantamentos da imprensa rondoniense mostram que a direção nacional do PSD destinou cerca de R$ 11,1 milhões para campanhas no estado. Desse total, Adailton Fúria abocanhou sozinho R$ 5 milhões — aproximadamente 45% de tudo. Somado ao R$ 1,5 milhão da esposa, o casal Fúria concentrou R$ 6,5 milhões, o equivalente a cerca de 62% de todo o recurso enviado a Rondônia.
Do outro lado da distribuição, Júnior Lopes não está sozinho na base insatisfeita: outros candidatos a federal — como Daniel Pitbull, Adilson Honorato, Fernando Vilas e Luiz Cláudio — também receberam R$ 100 mil cada. Na prática, o repasse individual a Joliane Fúria foi 15 vezes maior que o destinado a cada um deles. É essa disparidade que Lopes aponta como responsável por prejudicar o desempenho de sua campanha.
O repasse a Joliane Fúria foi 15 vezes maior que o destinado individualmente a cada um dos candidatos que ficaram com R$ 100 mil.
O que diz a lei — e o que fica no campo político
Antes de tratar a queixa como denúncia de ilegalidade, é preciso um registro de rigor: pela legislação eleitoral, não há exigência de igualdade nos repasses do fundo partidário. Quem define a distribuição são os líderes da legenda, e concentrar recursos em candidaturas consideradas prioritárias — como a ao governo — é prática comum e legal. Portanto, o que Júnior Lopes levanta não é, em si, uma acusação de crime, mas uma disputa política: a de que a cúpula do PSD teria privilegiado o núcleo familiar de Fúria em detrimento da base do partido.
Isso não esvazia a relevância da queixa. Ao contrário: expõe publicamente como uma legenda distribui dinheiro público de campanha — o fundo eleitoral é recurso do contribuinte — e quem a cúpula escolhe fortalecer ou deixar à míngua.
Um racha em mais de uma frente
A revolta com os repasses não é o único foco de tensão no PSD rondoniense. A legenda enfrenta uma crise que se abriu também na relação entre o comando da campanha de Fúria e o candidato ao Senado do partido, Luís Fernando — apontado como preferido do governador Marcos Rocha, mas que, segundo a imprensa local, teria sido preterido na distribuição de recursos e no apoio da militância. A soma dos episódios levou colunistas de Rondônia a relatar a debandada de candidatos proporcionais e de prefeitos para outras campanhas, em meio a rumores de ruptura entre Fúria e o próprio governador que o lançou.
O pano de fundo é uma candidatura ao governo que nasceu da articulação de Marcos Rocha e Expedito Júnior, mas que vem enfrentando turbulências internas desde a convenção. A queixa de Júnior Lopes, nesse contexto, é menos um caso isolado e mais um sintoma de um partido que tenta administrar, ao mesmo tempo, uma candidatura ao governo e as insatisfações de quem ficou com as sobras do fundo.
O que vem a seguir
Procurados pela imprensa, os citados podem apresentar sua versão sobre os critérios de distribuição — e o Painel Político buscará ouvir os envolvidos e acompanhará os desdobramentos da crise interna do PSD. A pergunta que fica para o eleitor rondoniense é sobre a natureza dos partidos na disputa: quando 62% do dinheiro de campanha de uma legenda se concentra em um único casal, o que sobra de projeto coletivo — e o que isso revela sobre como as siglas realmente funcionam por dentro, para além do discurso de palanque?
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