Recuperação judicial bate recorde no Brasil, mas crise desce a pirâmide empresarial
Nova edição do Monitor RGF-BIZDOC mostra 6.341 empresas em recuperação judicial — recorde histórico —, mas a dinâmica mudou: grandes companhias migram para a recuperação extrajudicial enquanto micro, pequenas e médias empresas assumem o centro da crise
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- O Brasil atingiu recorde de 6.341 empresas em recuperação judicial na Base Restrita ao fim de junho de 2026, com crescimento de 6,2% no semestre
- A crise inverteu de perfil: enquanto grandes e muito grandes empresas reduzem incidência de RJ, microempresas mais que dobraram seu índice desde 2023
- Recuperação extrajudicial ganha protagonismo no topo: Raízen (R$65 bi), GPA (R$4,6 bi) e Oncoclínicas (R$5,1 bi) somam ~R$75 bi em passivos reorganizados fora da Justiça
- Falências voltaram a crescer após 2025 estável, impulsionadas por decisão do STJ que autorizou a Fazenda Pública a requerer quebra de devedores fiscais
- O agronegócio é o epicentro setorial: 1.263 CNPJs em RJ, alta de 66% em 12 meses, com incidência mais que o dobro da indústria de transformação
- Por que isso importa: A estrutura da insolvência brasileira está se reconfigurando em tempo real — e os instrumentos de resposta, tanto do mercado de crédito quanto do Judiciário, ainda não acompanharam a velocidade da mudança
O Brasil fechou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial no recorte econômico relevante da economia — o maior número já registrado na série histórica do Monitor RGF-BIZDOC, levantamento consolidado pela consultoria RGF Associados e pela BIZDOC Gestão & Transformação. Mas os números absolutos escondem uma mudança estrutural: pela primeira vez no ciclo de insolvência iniciado em 2023, a crise está descendo a pirâmide empresarial. Enquanto grandes companhias como Raízen, GPA e Oncoclínicas optam pela recuperação extrajudicial para renegociar bilhões fora dos tribunais, micro, pequenas e médias empresas passam a dominar o estoque de processos judiciais — com taxas de crescimento que as grandes não mais apresentam.
"O Brasil continua vivendo um ambiente de elevada insolvência empresarial, que se manifesta claramente através da movimentação de Recuperação Judicial, Recuperação Extra Judicial e Falências", afirma Cláudio Damasceno, sócio sênior da RGF e responsável pelo Monitor.
Como a crise mudou de endereço: do topo da pirâmide para a base
A análise por porte da empresa revela o movimento mais contraintuitivo do ciclo. Em junho de 2026, o Índice de Recuperação Judicial (IRJ) — que mede empresas em RJ por mil ativas do mesmo porte — ia de 0,07 nas microempresas a 17,41 nas muito grandes. Em termos absolutos, as grandes continuam mais vulneráveis. Mas a tendência inverteu: desde o início de 2023, a incidência subiu entre as menores e recuou entre as maiores.
A microempresa viu seu IRJ mais que dobrar, de 0,03 para 0,07 por mil. O da EPP (Empresa de Pequeno Porte) subiu 69%, e o da média, 36%. Na direção oposta, o das grandes caiu 13% e o das muito grandes, 16%.
"Os dados mostram que o estresse financeiro está descendo a pirâmide empresarial. As grandes empresas continuam pressionadas, mas o crescimento recente das recuperações judiciais passa a incorporar crescente contingentes de empresas de menor porte", diz Damasceno.
Dois vetores explicam a inversão. No topo, as grandes companhias passaram a resolver o estresse pela recuperação extrajudicial, que não gera registro de RJ na Receita Federal — o que drena o estoque de grandes em processo judicial mesmo com a crise em curso. Na base, o encarecimento do crédito e a compressão de margens empurraram micro e pequenas para um instrumento que antes elas quase não usavam.
Recuperação extrajudicial: o instrumento do semestre no topo da pirâmide
Se o estoque de RJ cresceu 6,2% no semestre no recorte restrito, o movimento mais relevante do topo da pirâmide aconteceu fora dele. A Raízen protocolou em março de 2026 o maior plano de recuperação extrajudicial da história do país, com R$ 65,4 bilhões em dívidas sujeitas ao plano, aporte de até R$ 4 bilhões dos acionistas (Shell e Cosan) e conversão de 45% do crédito em equity.
O GPA (Grupo Pão de Açúcar) tramitou RE de R$ 4,6 bilhões no semestre, com 98% de adesão dos credores e homologação prevista para setembro. A Oncoclínicas protocolou RE de R$ 5,1 bilhões em 14 de julho, com 37% de adesão inicial e 90 dias para atingir a maioria. Juntas, as três somam cerca de R$ 75 bilhões em passivos reorganizados fora do estoque de RJ — uma dimensão que não aparece nas estatísticas oficiais, mas que define o tom do mercado de crédito corporativo.
"A RE formaliza uma probabilidade de default já elevada — traduzida na conversão de 45% da dívida em capital", analisa Damasceno sobre o caso Raízen.
Falências voltam a crescer — e o Fisco entra como credor que pede quebra
Depois de um 2025 inteiro estável em 2.732 empresas falidas, o estoque voltou a subir em 2026: 2.798 em 30 de junho, alta de 66 no ano, sendo 38 só no segundo trimestre. O movimento não é coincidência. Em fevereiro de 2026, a 3ª Turma do STJ decidiu, no REsp 2.196.073/SE (caso Casa das Carnes, relatoria da ministra Nancy Andrighi), que a Fazenda Pública possui legitimidade para requerer a falência de devedores quando a execução fiscal se mostra ineficaz.
Semanas depois vieram o Grupo Victor Hugo (dívida fiscal de ~R$ 1,2 bilhão, com processamento deferido em 4 de fevereiro) e, em 1º de julho, o Grupo Dolly — alvo do maior pedido de falecimento fiscal da história, por R$ 15,75 bilhões em dívida ativa (R$ 8,3 bi da União e R$ 7,4 bi de São Paulo). O caso Dolly é didático: a RJ de 2018, com passivo concursal de ~R$ 115 milhões, foi extinta em maio de 2026 sem homologação por falta de regularidade fiscal. A migração para RE fracassou. A quebra, requerida pela Fazenda, nunca passou pelo funil tradicional da insolvência.
A decisão do STJ transformou a falecimento de instrumento de desfecho de crise em instrumento de cobrança — e o efeito já aparece nos números.
O agronegócio como epicentro: produção em alta, dívidas também
Nenhum setor piora tão rápido quanto o campo. São 1.263 CNPJs do agro em recuperação judicial, com 111 entradas líquidas no trimestre (+9,6%), alta de 21,4% no semestre e de 66% em doze meses — contra cerca de 21% da média anual geral. A incidência, de 1,80 por mil empresas ativas do setor, é mais que o dobro da indústria de transformação (0,70).
A raiz não é agronômica. É financeira. A combinação de ciclo de preços, eventos climáticos, dependência intensiva de capital de giro e crédito rural encarecido concentra o estresse em soja, pecuária de corte e cana. O Mato Grosso lidera a incidência regional com 0,95 por mil — mais que o triplo da média nacional — e o Mato Grosso do Sul registrou alta de 112% em doze meses.
Geograficamente, o mapa da insolvência se inverte quando se compara volume e densidade. O Sudeste concentra o maior número absoluto de casos (3.537, sendo 2.248 em São Paulo), mas o Centro-Oeste tem a maior incidência (0,53 por mil) e o Sul o maior ritmo de crescimento (+30% em 12 meses).
A conta de juros: o vilão comum que ainda não deu trégua
O Banco Central iniciou em março de 2026 o ciclo de cortes, reduzindo a Selic do pico de 15,00% para 14,25% em junho e agora em agosto está em 14%. Mas, descontada a inflação de 4,64% em 12 meses, o custo real do dinheiro segue próximo de 9% ao ano — nível historicamente restritivo. O PIB desacelera: cresceu 2,3% em 2025 e 1,1% no primeiro trimestre de 2026.
A experiência dos ciclos anteriores indica defasagem de 12 a 18 meses entre o início da queda de juros e a inflexão nos pedidos de RJ. Por isso, a expectativa do Monitor é de que o número de empresas em recuperação judicial continue subindo no segundo semestre, ainda que cada vez mais devagar. O alívio de verdade, segundo Damasceno, fica para o fim de 2026 e, principalmente, para 2027.
"Ainda que a taxa caia a 12% ao ano, ainda é um custo financeiro alto. Enquanto a taxa não estiver abaixo de um dígito, as empresas terão dificuldades de se segurar", afirmou Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, em entrevista ao Seu Dinheiro em março.
O que os números não mostram: o estresse do topo fora das estatísticas
O Monitor adota duas réguas de medição. A Base Restrita (2,76 milhões de empresas) exclui microempresas, filiais, ONGs e inativas, e é o núcleo economicamente relevante. A Base Completa (26,7 milhões de CNPJs) reúne todos os registros. No primeiro semestre, a Base Restrita cresceu 6,2%; a Base Completa, 8,0%. A diferença não é acidental: ela mede a disseminação da crise para camadas mais finas da economia.
Outro dado que escapa às estatísticas tradicionais é a permanência média no processo de RJ: 4,2 anos (mediana de 3). Do estoque atual, 1.537 CNPJs entraram em 2025, 1.189 em 2024, 840 em 2023 — e 428 já em 2026. Da safra que estava em RJ no início de 2023, 65% ainda seguem no processo.
A recuperação judicial, no Brasil atual, deixou de ser um instrumento temporário de reestruturação para se tornar um estado quase permanente — e isso tem custos. Empresas suspensas em processos judiciais por mais de quatro anos geram insegurança contratual, perda de fornecedores, dificuldade de acesso a crédito e, no limite, desincentivo à atividade econômica.
Por que 2026 é diferente de 2023
O ciclo de insolvência atual começou em 2023, alimentado pela Selic que chegou a 13,75% no governo anterior e foi elevada a 15% pelo Banco Central em 2025. Mas 2026 introduz três variáveis novas que alteram a natureza da crise.
A primeira é a recuperação extrajudicial como alternativa viável para grandes devedores. Criada pela reforma da Lei de Falências em 2020, a RE ganhou escala apenas agora, com casos bilionários que demonstram que o instrumento funciona — embora com trade-offs. A RE oferece agilidade e menor impacto reputacional, mas proteção menos abrangente que a RJ e dependência da adesão de credores.
A segunda é o falecimento fiscal. A decisão do STJ no caso Casa das Carnes rompeu um paradigma de quase oito décadas, segundo o qual a Fazenda não podia pedir a quebra de um devedor. Com a PGFN e procuradorias estaduais agora habilitadas, o vetor de falecimentos deixou de ser apenas o desfecho econômico da insolvência para se tornar uma ferramenta de cobrança ativa — especialmente contra devedores contumazes do setor de combustíveis, cigarros e bebidas.
A terceira é a descida da crise pela pirâmide. Enquanto em 2023 e 2024 o ciclo se concentrava em médias e grandes empresas com estruturas de capital incompatíveis com a nova taxa de juros, em 2026 o estresse atinge micro e pequenas empresas que não têm acesso a reestruturações sofisticadas, assessoria jurídica especializada ou poder de negociação com credores. Para elas, a RJ é muitas vezes a única saída — e um processo que dura em média 4,2 anos pode ser uma sentença de morte lenta.
O Monitor RGF-BIZDOC deixa claro que o Brasil vive a fase madura de um ciclo de insolvência — não o seu ápice. O estoque de empresas em recuperação judicial continuará a subir no segundo semestre, impulsionado por micro e pequenas empresas que ainda não sentiram o impacto total do ciclo de juros anterior. As grandes, por sua vez, já aprenderam a usar a recuperação extrajudicial como escudo. As falências, antes raras, ganharam um novo motor com o Fisco como credor que pede quebra.
A pergunta que o relatório deixa no ar é se o sistema está preparado para essa nova configuração. O Judiciário empresarial brasileiro foi desenhado para processar dezenas de grandes casos por ano — não milhares de microempresas em RJ simultâneas. O mercado de crédito, por sua vez, ainda calibra seus modelos de risco no estoque de RJ, subestimando o estresse do topo que migrou para a RE e chegando atrasado à deterioração da base. Se o juro real só cair abaixo de um dígito em 2027, como projetam os analistas, o alívio pode chegar tarde demais para uma fatia significativa da economia. E quando o ciclo virar, o Brasil terá de reconstruir não apenas balanços — mas uma pirâmide empresarial que, em 2026, mostra sinais de erosão em sua base.
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