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Rondônia: o estado mais letal para mulheres no Brasil - Uma análise profunda da violência de gênero

Machismo enraizado e cultura da violência transformam Rondônia no epicentro do feminicídio no país; especialistas apontam caminhos para mudança

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Photo by Maxim Hopman on Unsplash

Rondônia, um estado conhecido por sua exuberante natureza amazônica, carrega um título sombrio: o de estado mais letal para mulheres no Brasil. Dados alarmantes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam uma realidade chocante que demanda atenção urgente e ação imediata. Em 2022 e 2023, 44 mulheres perderam suas vidas para o feminicídio em Rondônia, com uma taxa que é quase duas vezes maior que a média nacional.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023 apresenta números que pintam um quadro desolador da situação em Rondônia. As tentativas de feminicídio saltaram de 41 casos em 2022 para 99 em 2023, um aumento assustador de 141%. Além disso, mais de 7,7 mil mulheres sofreram violência doméstica no estado durante esse período, colocando Rondônia na segunda posição nacional em termos de taxa de violência doméstica, perdendo apenas para o Mato Grosso.

A promotora Joice Gushy Mota Azevedo, que atua em júris de feminicídio, aponta o machismo e a cultura de violência como os pilares que sustentam esse triste status. "A violência contra a mulher é tolerada e, em muitos casos, justificada. Uma visão excessivamente conservadora desqualifica e menospreza a vida de mulheres que não seguem um padrão pré-formatado e considerado de 'mulheres de valor'", explica a promotora.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) reconhece a violência contra a mulher como um grave problema de saúde pública e tem implementado diversas ações para combatê-la. Entre essas iniciativas, destaca-se a Campanha Sinal Vermelho, que visa prevenir e combater a violência contra a mulher através de uma rede de apoio e denúncia discreta em estabelecimentos públicos e privados.

A psicóloga Anne Cleyanne, fundadora da Associação Filhas do Boto Nunca Mais, uma ONG dedicada ao cuidado de mulheres e crianças em situação de violência, ressalta outros fatores que contribuem para esse cenário: "O descrédito nas vítimas de violência, o machismo estrutural e a falta de educação sexual são problemas recorrentes que observamos em nosso trabalho."

O nome da associação, curiosamente, tem raízes profundas na cultura local. "Descobri que durante muito tempo a lenda do Boto foi usada para encobrir abuso sexual intrafamiliar. Ninguém se intrometia na vida de ninguém, então se a criança aparecia grávida, falavam que era do boto. Esse contrato de silêncio foi mantido, perpetuando o descrédito da vítima", revela Anne.

Para enfrentar essa realidade alarmante, diversas iniciativas estão sendo implementadas. O Ministério Público de Rondônia atua tanto na prevenção quanto na repressão, oferecendo suporte jurídico, emocional e psicológico às vítimas, além de buscar medidas protetivas e processar agressores. O Tribunal de Justiça de Rondônia lançou o aplicativo "Módulo Lilás" em novembro de 2022, visando facilitar o acesso das vítimas ao sistema judiciário.

O Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, oferece um panorama detalhado da violência no Brasil, incluindo dados específicos sobre a violência contra a mulher. Essa ferramenta é crucial para a formulação de políticas públicas eficazes no combate à violência de gênero.

A advogada Sthefany Salomão alerta para os sinais de um relacionamento abusivo, descrevendo o ciclo da violência doméstica: "Começa com um aumento de tensão, seguido por agressões verbais e físicas, e depois vem a fase da 'lua de mel', com pedidos de perdão. É importante lembrar que a culpa nunca é da vítima."

Para denunciar casos de violência contra a mulher, existem diversos canais disponíveis:

A promotora Joice Gushy enfatiza que apenas uma profunda reconstrução cultural e de valores pode tirar Rondônia do topo desse ranking indesejável. "É preciso formar uma sociedade que reconheça, com igualdade, os direitos, o espaço, as escolhas e o pensamento de todas as mulheres. O empoderamento e a liberdade das mulheres devem ser efetivamente materializados no seio social."

A luta contra a violência de gênero em Rondônia é um desafio complexo que requer esforços coordenados de toda a sociedade. Desde a educação nas escolas até a aplicação rigorosa das leis, passando por campanhas de conscientização e apoio às vítimas, cada setor tem um papel crucial a desempenhar.

O caminho para transformar Rondônia de um epicentro de violência contra a mulher em um modelo de igualdade e respeito é longo, mas não impossível. Com o engajamento de todos - poder público, sociedade civil e cidadãos - é possível construir um futuro onde todas as mulheres possam viver sem medo, com dignidade e igualdade de oportunidades.

A mudança começa com cada um de nós, questionando estereótipos, combatendo o machismo no dia a dia e não se calando diante da violência. Somente assim, Rondônia poderá se livrar desse título que nenhum estado gostaria de ter e caminhar para um futuro mais justo e seguro para todas as mulheres.