"Sou o tiozão da campanha": Hildon reconhece falhas e muda estratégia
Em entrevista, o ex-prefeito de Porto Velho reconheceu ter ido mal nos dois primeiros debates, associou falhas de concentração a sequelas de Covid e anunciou que priorizará o contato de rua em vez de comparecer a todos os encontros
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- O candidato ao governo de Rondônia Hildon Chaves (UB) reconheceu, em entrevista ao podcast do Eu Ideal, ter tido desempenho abaixo do esperado nos dois primeiros debates da campanha.
- Ele atribuiu dificuldades de concentração e esquecimento a possíveis sequelas de Covid-19, doença que diz ter contraído entre quatro e cinco vezes.
- Hildon anunciou que não pretende comparecer a todos os debates, priorizando o contato direto com eleitores nas ruas.
- O ex-prefeito minimizou a comparação com sua campanha combativa de 2016, definindo-se como "o tiozão desta campanha", porém "mais preparado".
- Por que isso importa: a admissão pública e a decisão de faltar a debates, vindas de um dos favoritos, reposicionam a estratégia da campanha e serão exploradas pelos adversários
O candidato ao governo de Rondônia Hildon Chaves (UB) fez uma admissão incomum para um favorito em campanha: reconheceu que foi mal nos dois primeiros debates da disputa. Em entrevista ao jornalista Juan Pantoja, no podcast do site Eu Ideal, o ex-prefeito de Porto Velho atribuiu as dificuldades a possíveis sequelas de Covid-19 e anunciou uma mudança de estratégia — que inclui não comparecer a todos os debates da campanha.
A explicação: sequelas de Covid
Ao ser questionado sobre por que não demonstrava o mesmo perfil combativo da campanha de 2016 — quando venceu a Prefeitura de Porto Velho e ganhou repercussão ao dizer que reconhecia "um bandido em dois minutos de conversa" —, Hildon relacionou parte de suas dificuldades atuais à doença. Ele afirmou ter estado na linha de frente do enfrentamento à pandemia como prefeito, sobretudo na campanha de vacinação, e acredita ter contraído a Covid entre quatro e cinco vezes.
"Há relatos de muitas pessoas que sofreram sequelas, como falta de concentração e esquecimento", disse o candidato, sugerindo que os episódios de infecção podem ter deixado consequências. Em tom bem-humorado, brincou que a doença também teria tido um efeito colateral positivo, sobre o aumento da libido.
Veja o trecho:
O que dizem os dados sobre sequelas
A explicação de Hildon encontra respaldo em dados oficiais. Problemas de memória, atenção e concentração estão, de fato, entre os sintomas pós-Covid mais relatados no país. Segundo levantamento do Ministério da Saúde baseado na Pnad Contínua, do IBGE, cerca de 28% das pessoas com condições pós-Covid relataram dificuldades de memória ou atenção — o terceiro sintoma persistente mais frequente, atrás de cansaço e dores no corpo. Estudos internacionais chegam a conclusões semelhantes, associando a infecção a queixas de memória e concentração meses após a fase aguda.
Ou seja, o quadro que o candidato descreve é reconhecido pela literatura médica.
"O tiozão desta campanha"
Hildon tratou a mudança em sua postura também pela via da idade e da experiência. Lembrando que a eleição de 2016 ocorreu há uma década, definiu-se, com autoironia, como "o tiozão desta campanha" — mas fez questão de emendar que se considera mais bem preparado hoje. "Só que estou muito mais preparado agora do que antes", declarou.
"Eu sou o tiozão desta campanha. Só que estou muito mais preparado agora do que antes." — Hildon Chaves
A mudança de estratégia — e o que ela sinaliza
A informação de maior peso político da entrevista, porém, é operacional: Hildon disse que não pretende comparecer a todos os debates. A estratégia, segundo ele, será dividir a agenda entre alguns desses encontros e uma presença mais intensa nas ruas, em contato direto com o eleitor.
"Desta vez, nós vamos de forma mais relaxada. Se esquecer, esqueceu. A população sabe das minhas entregas e que sou o mais preparado para governar Rondônia", afirmou.
A decisão é uma aposta de campanha legítima e comum entre candidatos que lideram ou se consideram favoritos: reduzir a exposição em formatos de confronto direto — onde um tropeço rende desgaste — e privilegiar o corpo a corpo, onde o controle da mensagem é maior. Mas ela tem contrapartida. Faltar a debates depois de admitir desempenho fraco tende a ser explorado pelos adversários, que costumam ler a ausência como fuga do contraditório. Num pleito em que Hildon já foi o alvo preferencial dos oponentes no primeiro debate — como o Painel noticiou —, a cadeira vazia pode virar, ela própria, um argumento de campanha contra ele.
O contexto da disputa
A entrevista se dá a pouco mais de um mês da eleição, marcada para 4 de outubro. Hildon disputa o governo em um campo concorrido, no qual aparece entre os nomes mais competitivos. A franqueza ao reconhecer falhas — rara em campanha, onde candidatos tendem a projetar infalibilidade — pode ser lida de duas formas: como autenticidade que aproxima o eleitor, ou como fragilidade que os adversários tentarão capitalizar. Qual das duas prevalecerá é o tipo de aposta que só as urnas respondem.
Versão em áudio disponível no topo do post.