STF autoriza inquérito sobre filme Dark Horse e Banco Master
Ministro André Mendonça atende pedido da oposição e da PGR para apurar repasses de R$ 61 milhões feitos por Daniel Vorcaro à produção audiovisual sobre Jair Bolsonaro
📋 Em resumo ▾
- Ministro André Mendonça, do STF, autorizou a Polícia Federal a investigar o financiamento do filme Dark Horse.
- Apuração foca em repasses de R$ 61 milhões feitos por Daniel Vorcaro, do Banco Master, a pedido de Flávio Bolsonaro.
- Diálogos revelam tratativas sobre a produção às vésperas da prisão do ex-banqueiro e da liquidação da instituição.
- Por que isso importa: O inquérito conecta a produção de propaganda política ao colapso de uma instituição financeira sob suspeita de fraude bilionária
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar o financiamento do filme Dark Horse, obra audiovisual sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A decisão atende a uma ofensiva da oposição e conta com o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR), mirando o rastro de R$ 61 milhões oriundos do liquidado Banco Master.
A ofensiva da oposição e o aval da PGR
O pedido de investigação foi formalizado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). O parlamentar requer a apuração de eventuais irregularidades no aporte financeiro realizado por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, e defende a conexão entre esses recursos, os valores solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a produção e a atuação internacional do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos.
Relator da notícia-crime, Mendonça havia encaminhado o pedido de manifestação à PGR em 30 de junho. A Procuradoria manifestou-se favoravelmente à abertura das investigações, pavimentando o caminho para as diligências da PF. O caso tramita na Corte sob sigilo de nível 3, classificação utilizada para resguardar diligências em andamento, garantir a eficácia de decisões judiciais e proteger dados sensíveis.
O rastro de R$ 61 milhões e a cronologia do colapso
De acordo com as informações que instruem o pedido, Vorcaro injetou aproximadamente R$ 61 milhões para viabilizar o filme. Os recursos teriam sido solicitados diretamente por Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República.
Diálogos obtidos e divulgados pelo site The Intercept Brasil colocam o senador e o ex-banqueiro em tratativas diretas sobre a obra. A cronologia dessas conversas é o ponto nevrálgico da investigação. Em um áudio datado de 8 de setembro de 2025, Flávio teria expressado a Vorcaro sua preocupação com o atraso nos pagamentos da produção.
"A cronologia dos diálogos coloca o financiamento da obra audiovisual no epicentro do colapso do Banco Master, levantando questões sobre a origem e o destino final dos recursos."
Outra conversa crucial ocorreu em 16 de novembro de 2025. O diálogo aconteceu exatamente um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez no âmbito da Operação Compliance Zero e apenas dois dias antes da liquidação extrajudicial do Banco Master.
A blindagem do sigilo e o escopo da investigação
A imposição do sigilo de nível 3 indica que a Polícia Federal já possui um roteiro de diligências sensíveis a ser cumprido. A expectativa é de quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático para rastrear a movimentação dos R$ 61 milhões e verificar se houve desvio de finalidade, lavagem de dinheiro ou uso de recursos de depositantes para financiar campanhas de imagem de figuras políticas.
A defesa dos citados ainda não se manifestou formalmente sobre a instauração do inquérito no STF. A investigação promete aprofundar o escrutínio sobre a simbiose entre o núcleo político bolsonarista e os operadores financeiros que sustentaram suas iniciativas nos últimos anos.
A interseção entre propaganda política e fraude financeira
A autorização do STF para investigar o filme Dark Horse transcende o debate sobre liberdade de expressão ou produção cultural. O cerne da questão é a higidez financeira da origem do dinheiro. Quando uma instituição financeira que opera com captação pública e que, posteriormente, entra em colapso bilionário, financia a hagiografia de um líder político, o ato deixa de ser cultural e passa a ser de interesse forense.
Resta saber se as investigações da PF conseguirão provar que o dinheiro de correntistas do Master foi utilizado para construir a narrativa eleitoral da família Bolsonaro, ou se a defesa conseguirá demonstrar que os R$ 61 milhões possuem lastro legal e desvinculado das irregularidades que levaram à prisão de Vorcaro. O cinema pode ser ficção, mas o rastro do dinheiro, invariavelmente, exige documentário.
Versão em áudio disponível no topo do post.